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As placas solares que Carter instalou na Casa Branca em 1979 –e Reagan mandou arrancar

Como a direita "conservadora nos costumes, liberal na economia" atrasou o uso e a pesquisa sobre energias renováveis em 40 anos

Carter discursa com os painéis solares da Casa Branca ao fundo em 1979. Foto: U.S. Department of Energy
Cynara Menezes
11 de abril de 2023, 15h25

Em 1979, os EUA e o mundo viviam uma nova crise do petróleo, desta vez causada pela queda na produção após a revolução no Irã que destituiu o xá Reza Pahlevi, aliado dos norte-americanos, e levou os aiatolás ao poder. Em junho daquele ano, o presidente Jimmy Carter faria um discurso visionário pregando a diminuição do uso de energias fósseis e a utilização de energias alternativas, como a solar. Para ilustrar sua fala, mandou instalar 32 painéis de energia solar nos telhados da Casa Branca.

“No ano 2000, o aquecedor solar de água atrás de mim ainda estará aqui fornecendo energia barata e eficiente”, discursou Carter. “Daqui a uma geração, esse painel solar poderá ser uma curiosidade, uma peça de museu, um exemplo de caminho não tomado, ou poderá ser apenas uma pequena parte de uma das maiores e mais emocionantes aventuras já empreendidas pelo povo norte-americano: aproveitar o poder do Sol para enriquecer nossas vidas à medida que nos afastamos de nossa dependência incapacitante do petróleo estrangeiro.”

Infelizmente, a primeira hipótese (a de que o painel solar se tornasse “um exemplo de caminho não tomado”) se concretizou: ídolo dos direitistas brasileiros, seu sucessor Ronald Reagan mandou retirar os painéis durante o seu segundo mandato, em 1986, sob a desculpa de que iria consertar goteiras no telhado da Casa Branca. E nunca os colocou de volta. Nestes 40 anos desde que Reagan e sua política neoliberal predatória chegaram ao poder, os EUA se tornariam cada vez mais dependentes de energias fósseis.

A história dos painéis solares foi contada pelos cineastas suíços Christina Hemauer and Roman Keller em um documentário de 2010 que se chama justamente “A Road Not Taken” (Um caminho não tomado, em tradução livre).

A dupla de cineastas refaz a trajetória dos painéis solares desde que foram arrancados do telhado da Casa Branca por Reagan e descobre que eles foram parar no refeitório de uma universidade privada especializada em estudos do meio ambiente e recursos naturais. Em 1991, o conjunto de 32 painéis solares, que estavam até então acumulando poeira em depósitos do governo na Virginia, foi levado para a Unity College, no Maine. Dezesseis dos painéis foram reformados e colocados no telhado do refeitório da universidade para aquecer a água.

As placas solares só foram retiradas do telhado do refeitório em 2010, dentro do tempo previsto por Carter, quando chegaram ao fim de sua vida útil. Dos 32 painéis, um total de 4 foram doados, restando 28 painéis guardados na Unity College. “Muitos destes antigos painéis solares da Casa Branca que estão armazenados aqui foram restaurados por alunos nos laboratórios de energia da Unity College”, diz o site da Universidade.

Em 1986, o governo Reagan extinguiu os orçamentos de pesquisa e desenvolvimento para energia renovável no então incipiente Departamento de Energia dos EUA e eliminou os incentivos fiscais para a implantação de turbinas eólicas e tecnologias solares

Segundo uma investigação feita pela revista Scientific American, um dos painéis doados foi parar no Museu Nacional de História Americana do Smithsonian, outro na Biblioteca Carter e um terceiro foi presenteado em 2010 à coleção do Museu de Ciência e Tecnologia Solar em Dezhou, China. Atualmente, a China possui uma capacidade de geração de energia solar como nenhum país no mundo, uma gigantesca soma de 254 gigawatts, enquanto os EUA, atrasados pela direita “conservadora nos costumes e liberal na economia” na pesquisa de energia fotovoltaica e outras fontes alternativas em mais de quatro décadas, produz 74 gigawatts.

“Em 1986, o governo Reagan extinguiu os orçamentos de pesquisa e desenvolvimento para energia renovável no então incipiente Departamento de Energia dos EUA e eliminou os incentivos fiscais para a implantação de turbinas eólicas e tecnologias solares, comprometendo novamente a nação a confiar em produtos baratos, mas combustíveis fósseis poluentes, muitas vezes de fornecedores estrangeiros”, conta a Scientific American.

Em um debate durante a eleição de 1980, Carter, que tentava a reeleição, havia apontado o desinteresse de seu oponente Reagan, ex-governador da Califórnia, em outras formas de energia que não fossem petróleo. “A abordagem do governador Reagan à nossa política energética, que já provou sua eficácia, é revogar ou alterar substancialmente o imposto sobre lucros inesperados (decorrentes da extração do petróleo), devolver uma parte importante dos 227 bilhões de dólares às empresas petrolíferas, acabar com o Departamento de Energia, interromper nosso programa de combustíveis sintéticos, colocar uma ênfase mínima na energia solar, e enfatizar fortemente as usinas nucleares como uma importante fonte de energia no futuro. Ele quer colocar todos os nossos ovos em uma cesta e dar essa cesta para as grandes empresas petrolíferas”, denunciou Carter.

“Até o final deste século, quero que nossa nação obtenha 20% de toda a energia que usamos do sol”, disse Carter em seu discurso visionário de 1979. Graças à “reaganomics”, tão louvada pela direita brasileira, essa meta não foi alcançada até hoje: apenas 3,4% da energia utilizada pelos norte-americanos tem origem fotovoltaica

Naquele ano, o presidente Carter havia sancionado o Energy Security Act, que incluía incentivos para energia geotérmica, solar e de biomassa para fornecer aos geradores de eletricidade novas alternativas ao petróleo. Também estabelecia a Corporação de Combustíveis Sintéticos dos EUA, destinada a produzir dois milhões de barris por dia em combustível líquido de fontes não-petrolíferas, como carvão, dentro de cinco anos.

Reagan rebateu o adversário dizendo que suas palavras tinham sido distorcidas, mas fez críticas às medidas de Carter. “O Departamento de Energia tem um orçamento multibilionário, superior a 10 bilhões de dólares. Não produziu um litro de petróleo ou um pedaço de carvão ou qualquer outra coisa no que diz respeito à energia”, disse. Ele ganhou a eleição.

No primeiro mandato, Reagan até disfarçou; mas no segundo mandato deixou bem claro que energia solar não era seu cup of tea mandando retirar os painéis solares da Casa Branca. Ele de fato reduziu os impostos sobre lucros inesperados do petróleo em 1981 e acabou com eles de uma vez em 1988, tal como havia previsto Jimmy Carter. Meses antes de mandar “consertar o telhado”, também acabou com a redução de impostos na compra de painéis solares domésticos pelos norte-americanos que havia sido estabelecida pelo antecessor.

O discurso feito pelo presidente norte-americano durante a instalação dos painéis solares no telhado da Casa Branca permanece histórico e é assustadoramente atual, mais de 50 anos depois. “Hoje, ao aproveitar diretamente o poder do sol, estamos pegando a energia que Deus nos deu, a energia mais renovável que jamais veremos, e usando-a para substituir nossos suprimentos cada vez menores de combustíveis fósseis”, disse Carter.

Carter mostra painéis na Casa Branca em 1979. Foto: U.S. Department of Energy

“Não há mais dúvidas de que a energia solar é viável e econômica. Nas casas que agora usam eletricidade, um sistema típico de aquecimento solar de água quente, como este atrás de mim, pode se pagar em 7 a 10 anos. Com o aumento dos custos de energia, o que é uma perspectiva quase inevitável, o prazo de pagamento desse investimento será substancialmente reduzido. A energia solar não poluirá nosso ar ou água. Ninguém pode embargar o sol ou interromper sua entrega de energia para nós. Mas devemos trabalhar juntos para transformar nossa visão e nosso sonho em uma realidade solar.”

“Até o final deste século, quero que nossa nação obtenha 20% de toda a energia que usamos do sol –energia solar direta em radiação e também formas renováveis ​​de energia derivadas mais indiretamente do Sol. Esta é uma proposta ousada e é uma meta ambiciosa. Mas é alcançável se tivermos a vontade de alcançá-lo”, afirmou. Graças à “reaganomics”, tão louvada pela direita brasileira, essa meta não foi alcançada até hoje: apenas 3,4% da energia utilizada pelos norte-americanos tem origem fotovoltaica. Joe Biden promete elevar este número para 45% até 2050.

Apesar de o vice de Bill Clinton, Al Gore, ter se tornado conhecido mundialmente por seu discurso “verde”, os painéis solares só voltaram ao telhado da Casa Branca em 2013, durante a administração Barack Obama, três anos após o governo anunciar que iria fazê-lo –seu antecessor, George W. Bush, havia mandado instalar, na surdina, alguns painéis solares no prédio de serviços para aquecer a piscina, mas não no telhado do edifício principal, onde estavam antes.

Com o aporte de Obama, a Casa Branca passou a ter 50 painéis solares, seis vezes mais potentes que aqueles de Carter. Apesar de ter desfeito várias iniciativas do democrata em relação às mudanças climáticas, o republicano Donald Trump não mandou arrancá-los. No entanto, fez o país se retirar do Acordo de Parisespalhou fake news sobre as lâmpadas de LED, mais econômicas, chamou os moinhos de energia eólica de “monstros” e também espalhou desinformação sobre eles.

Em 2017, Jimmy Carter, atualmente com 98 anos e considerado por muitos o presidente mais ecofriendly que os EUA já tiveram, transformou sua fazenda, onde antes plantava soja, em um campo de painéis solares. Cerca de 4 hectares foram cedidos à empresa SolAmerica Energy, que instalou 3800 painéis que acompanham o movimento do sol, e que é capaz de fornecer energia suficiente para metade da cidadezinha de Plains, na Georgia, com cerca de 700 habitantes.


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(13) comentários Escrever comentário

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Luciano em 13/04/2023 - 11h36 comentou:

Muito interessante, Cynara. Os progressistas não têm esse nome à toa.

Responder

Loira Capitalista em 13/04/2023 - 21h53 comentou:

E Cuba ? Como a ilha dos Castro vem ajudando o mundo com as mudanças climáticas ?

Responder

    Cynara Menezes em 14/04/2023 - 14h23 comentou:

    “mas e cuba? e o PT?”

Andréa Glória em 15/04/2023 - 17h34 comentou:

Amei a matéria, Cycy! Não sabia dessa história. Inclusive me motivou a pesquisar mais e o casal Carter continua vivo e casados desde 1946, hein? Uau! Ele realmente foi um visionário! Me remete ao deboche da direita com a Dilma sobre o “vento estocado”.

Responder

Caronte em 18/04/2023 - 13h43 comentou:

Bem, eu tenho certa (muita) rusga com ambientalistas…com jornalistas nem precisa dizer, né?

Então, mesmo assim, vou te ajudar: https://www.youtube.com/watch?v=Zk11vI-7czE

Aqui tem um troço interessante sobre energia fotovoltaica, que vai desde a mineração dos componentes das placas, até o descarte delas, passando pela instabilidade dos sistemas, que precisam se concetar às fontes já conhecidas (o negócio do gerador foi pura maldade)…

As usinas eólicas são outro fracasso, já que não há quem faça aquelas geringonças (todas de materiais altamente poluentes) girarem sem barulho…

Tem outro dado que não está no filme, mas que eu acrescento: com os estragos climáticos, os ventos tendem a mudar direções e seus coeficientes, porque não sei se você sabe (mas eu ajudo novamente), o ar (vento) se move entre locais com diferentes de temperatura (frio e quente), como as correntes de água nos oceanos…

Logo, com a bagunça climática, não vai ter vento onde se espera, e da forma como se espera..

Agora vamos as baterias: lítio.

Deus proteja a Bolívia e suas veias abertas na América Latina…

Descartar baterias é como descartar lixo atômico, não dá…

Então, filha, acoooooooooooooooooooorda, não existe energia limpa, nem capitalismo limpo…

Carter, em tempo era um idiota completo, como todo democrata, que sabemos todos, é um republicano que come com talheres…

Responder

Caronte em 18/04/2023 - 13h44 comentou:

PS: claro que eu sei que a opinião do diretor do filme não é isenta, mas isso não retira a legitimidade do que ele diz, não é?

Responder

Caronte em 18/04/2023 - 13h50 comentou:

Antes, desmascaremos duas grandes mentiras:

– Não há mais loiras (de verdade), e nem há mulheres capitalistas, todas as mulheres capitalistas são homens…

Mas, quando à Cuba eu sugiro:

Que os EUA bloqueiem TODAS as economias do planeta, e reduzam assim à economia mundial a uma grande plantação de cana…quem sabe?

O recalque é demais, e é histórico: ser ilha dos Castro não pode, mas ser ilha dos mafiosos e tarados de Miami, aí pode…

Anúncio importante:
Como a Loira Capitalista não gosta de ditaduras, não vai mais encher o tanque do carrinho, em retaliação à ditadura árabe, de onde vem o petróleo (será que ela sabe?)
A looooooora só quer as joias da micheque, que ficou com Ali Baba e nem foram 1001 noites…

Responder

Loira Capitalista em 25/04/2023 - 00h21 comentou:

Caronte em 18/04/2023
Não há mais loiras de verdade ?
Mulheres Capitalistas são homens ?
Bloqueio a Cuba como desculpa ?
Ditadura Árabe ?

Responder

Loira Capitalista em 25/04/2023 - 00h25 comentou:

Andréa Glória em 15/04/2023
Eu também gosto do Carter… Mas vc está querendo comparar ele com a Dilma ?
Vc já viu quantos livros o Carter já escreveu ? e ainda escreve ?

Responder

    Cynara Menezes em 25/04/2023 - 13h11 comentou:

    “o carter é homem, você quer compará-lo com uma mulher?”

Loira Capitalista em 25/04/2023 - 00h28 comentou:

“casal Carter continua vivo e casados desde 1946, hein?”

De fato, homem íntegro ! Ele quase perdeu as eleições quando, em uma entrevista a Playboy, ele admitiu que já havia “traído” sua esposa com o coração… Aquela coisa de quando casado olhar, apenas olhar, a mulher do outro… outros tempos.

Responder

Caronte em 01/05/2023 - 16h52 comentou:

Loira, Loira, desde quando escrever algo é parâmetro?

Páunocoelho escreveu(e vendeu) um monte (de m*rda), Lair Ribeiro idem, e até olavo de cascalho escrevia…

merval, olhem só, o merval é imortal…

Como eu disse, não há mais loiras como antes (que saudades da Monroe, que afinal, enganou todo mundo, até Miller com aquele negócio de loira burra)…

E a maior “democracia do mundo”? Bem, obrigado, até 68, negros não votavam, na Primeira Grande Guerra, os negros vestiram uniformes da França, porque o exército do país livre não permitia que negros usassem as mesmas fardas dos soldados brancos…

A enorme “democracia” de Hoover, do macartismo, enfim, do bipartidarismo que semeia golpes e mortes onde quer que se questione o american way of life…

Ah, e enfim, carter, como eu disse, é só um cretino capitalista que come o resto do mundo tal é qual os republicanos, mas ao contrário destes últimos, os primeiros usam talheres e guardanapos…

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Caronte em 01/05/2023 - 16h53 comentou:

PS: correção, mulheres capitalistas são reginas duartes, acho que fica melhor assim

Responder

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