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A Brasília das esquadrias de alumínio X a capital do mármore e do concreto

No premiado e perturbador filme Branco Sai, Preto Fica (2015), misto de documentário e ficção científica de Adirley Queirós, os moradores da cidade-satélite de Ceilândia são obrigados a tirar passaporte para entrar “na” Brasília, o plano-piloto criado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. É como se existisse um muro invisível entre a capital planejadas e […]

Cynara Menezes
23 de junho de 2015, 17h41
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(A cidade-satélite de Ceilândia, 2013. Fotos: Zuleika de Souza)

No premiado e perturbador filme Branco Sai, Preto Fica (2015), misto de documentário e ficção científica de Adirley Queirós, os moradores da cidade-satélite de Ceilândia são obrigados a tirar passaporte para entrar “na” Brasília, o plano-piloto criado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. É como se existisse um muro invisível entre a capital planejadas e as não-planejadas satélites, um apartheid social e geográfico que não é muito distante da realidade. Em algumas cenas, parece que estamos em alguma parte do Oriente Médio, não no Brasil.

Esta quase total inexistência de contato entre a Brasília oficial e sua periferia denunciada por Queirós dialoga, de certa forma, com as imagens que a fotógrafa Zuleika de Souza colheu ao longo de oito anos nos arredores da capital. Na exposição Chão de Flores, em cartaz no CCBB, as 56 fotos de Zuleika passam bem longe dos palácios de mármore, grandes janelas de vidro e concreto. Em vez de planejamento, o que se vê nelas é o improviso. O símbolo dessa arquitetura não são as curvas, mas as esquadrias de alumínio nas janelas e portas.

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(Estrutural, 2010)

É uma Brasília desconhecida, que não aparece no noticiário da TV. A Brasília dos candangos que foram para o Planalto Central atendendo ao convite de Juscelino Kubitschek de povoar o Centro-Oeste do País. As cores das fachadas entregam a origem nordestina de muitos dos moradores. Nada da assepsia do branco, tão presente nos prédios oficiais. Muito amarelo, vermelho, laranja, lilás, cor-de-rosa… Que doce é a arquitetura do povo: cada tijolo colocado ali é como um degrau que o migrante subiu.

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(Guariroba, 2010)

Como não dizer? Brasília é menos a capital e mais cidade de verdade nas fotos de Zuleika. Elas falam muito mais às emoções de quem vive no “quadradinho” do que os edifícios oficiais, desabitados, sem crianças correndo, sem velhos sentados na porta, sem roupas penduradas no varal, sem café sendo coado no bule. Os palácios são frios como o mármore que os recobre –ou como o coração de tantos políticos que circulam por ali. As casinhas e prédios das satélites têm uma beleza menos óbvia e transbordam vida.

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(Estrutural, 2010)

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(Ceilândia, 2012)

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(Itapoã, 2010)

O QUÊ: Exposição Chão de Flores, da fotógrafa Zuleika de Souza
ONDE: CCBB/Brasília – SCES trecho 2, lote 22
QUANDO: até 29/6, de quarta a segunda, das 9 às 21h

 


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