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Cultura

Descobri o segredo da vida (mas você não está preparado para essa conversa)

E vou contar sem mais delongas: "comer a metade, andar o dobro e rir o triplo" é difícil, mas faz um bem que nunca imaginei

Detalhe da obra "Vampiros Vegetarianos", de Remedios Varo, 1962
Cynara Menezes
27 de maio de 2022, 11h15

Tenho 55 anos e descobri o segredo da vida. Juro para vocês. E vou contar sem mais delongas. O segredo da vida, sobretudo após certa idade, está numa velha frase, atribuída à sabedoria tibetana, mas de origem até onde sei incerta: “comer a metade, andar o dobro e rir o triplo”. Mas quem está preparado para esta conversa?

Eu descendo de uma dinastia de baianos gulosos. Se você perguntar a qualquer membro da minha família quais são as melhores coisas da vida, “comer” estará no top 3. No fundo, todos nutrimos uma admiração não assumida por seu Zé Limão, personagem da nossa infância que, reza a lenda, se empanturrava à mesa e depois colocava a ponta do cinturão na garganta para poder vomitar e comer mais um pouco. Seu Zé Limão é que sabia o que era bom!

Quem não estava passando fome se refestelou na comilança durante a pandemia, sendo o Brasil o campeão do aumento de peso. Há uns seis meses decidi que queria menos Pantagruel na vida e passei a comer a metade e andar o dobro. E não é que me fez bem?

Confesso ter sentido desprezo por gente que “come que nem um passarinho”. Me parecia o auge da frigidez. A associação entre Dionísio, o deus grego das festas e do vinho, e Pantagruel, o gigante glutão de Rabelais, me parecia automática. Comer bem não era bem comer se não fosse muito. Nunca perdoei a falta de apetite alheia e me gabava de que o único momento do dia em que não sentia fome era após as refeições. Meu pai dizia que eu “comia igual a um homem”, e soava para mim como elogio.

Tudo para mim tinha que ser em dobro. Por que comer uma tapioca no café da manhã podendo comer duas? Como assim um ovo frito apenas e não dois? Por que não repetir o prato do almoço? Uma fatia de pão não me sacia…! Olhei para os lados e vi que não era só eu. Uma pesquisa feita pelo instituto Ipsos mostrou que quem não estava passando fome se refestelou na comilança durante a pandemia, sendo o Brasil o campeão do aumento de peso. O que é, convenhamos, absolutamente compreensível num mundo às portas do apocalipse.

Pesquisa sobre ganho de peso na pandemia do Ipsos. Brasil é campeão

É como se Pantagruel tivesse dominado o planeta: alijados das distrações mundanas, forçados ao sedentarismo, nos entregamos à pura, simples e apetitosa gula. Leões e tigres enjaulados também comem mais e são obrigados a fazer dieta. Foi então que percebi que, embora ambos promovam links mentais com bandejas de prata lotadas de delícias, Pantagruel não é Dionísio. Pantagruel é guiado pela ansiedade, pela solidão; Dionísio, pelo prazer e pelo convívio.

Há uns seis meses decidi que queria menos Pantagruel na vida. Resolvi experimentar a sério as duas primeiras daquelas regras lá de cima –comer a metade, andar o dobro– e passei a comer em menor quantidade, sem cortar nada (ninguém toca no meu glúten!). E não é que me fez bem? Não é nada fácil comer menos, eu sei, há outros fatores envolvidos além da mera compulsão. Empanturrar-se também é celebração e fornece aconchego, satisfação. Sacia a ansiedade em muita gente.

Vampiros Vegetarianos, Remedios Varo, 1962

Mas eu gostei de me livrar da gula e de passar a andar mais. Tenho uma cachorrinha, a Maya, que é uma verdadeira personal trainer e me puxa para a rua todo dia para uma caminhada, quer eu queira ou não. A carne vermelha abandonei há dois anos. Me sinto leve e com a coluna ereta, que nem na canção do Walter Franco.

Só falta agora rir o triplo, mas em outubro quem sabe?

P.S.: Dizem que seu Zé Limão morreu após comer uma jaca inteira de sobremesa. Era diabético.

 


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Jejê em 27/05/2022 - 15h52 comentou:

Ashuash 😊 Amei , Cynara

Responder

Bernardo Santos Melo em 27/05/2022 - 22h38 comentou:

Sugiro acrescentar o Yoga , aprender a respirar concentrada , acalmar a mente e buscar um silêncio meditativo .
Comer atenta na mastigação , perceber a sexualidade tântrica , o poder do controle da Kundalini , enfim o auto controle é fantástico e a tão agradável quanto o sorriso .
Aliás muito riso parece-me algo difícil neste Brasil de chacinas e morte por por todos os lados . Nem em outubro conseguiremos sorrir , ainda faltarão três meses de renitência e arruaça do COISA RUIM , todo cuidado é pouco.
A cachorrinha MAYA certamente é mais feliz do que sua dona , pois neste Brasil quem é bem informado torna-se REVOLTADO frente aos descalabros em continuo avanço contra nossa singela felicidade .
Serenidade e Paz para vencermos 2022 .

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Maurício Mirra em 31/05/2022 - 01h22 comentou:

Sensacional! Complementaria com uma simples recomendação que um médico fez para uma amiga: “beba água, porque envelhecer é a falta de lubrificação” – esquecemos de nos hidratar e precisamos mais e mais!

Responder

Eugênio BH em 03/06/2022 - 11h30 comentou:

Dica impudica

De menina rica

(Sem comer não fica).

No andar duplica

Gargalhar triplica

Fome quadriplica

E tudo isso implica:

Jejum edifica

Toda essa larica?

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veranise Ferreira em 09/06/2022 - 10h46 comentou:

Eita que texto fantástico! tenho 51 anos e várias restrições alimentares por causa de alergia à proteína do leite e outras alergias. Sei já de algum tempo o que significa comer menos. Também preciso rir o triplo! Obrigada, Cynara, você é fantástica.

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