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Emilio, o agricultor familiar chileno escolhido como “líder da ruralidade” das Américas

Que agronegócio que nada: membro do povo mapuche foi reconhecido internacionalmente por produzir um azeite de oliva de qualidade

O agricultor Emilio Sepúlveda em seu oliveiral. Foto: divulgação/IICA
Da Redação
20 de abril de 2022, 14h25

Que agronegócio que nada: o agricultor familiar chileno Emilio Sepúlveda, membro do povo mapuche, foi reconhecido este mês como “Líder da Ruralidade das Américas” pelo IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura). Em sua propriedade de 5 hectares em Los Sauces, Sepúlveda produz, com a esposa, os filhos, um irmão e primos um azeite de oliva cuja qualidade foi elogiada por especialistas, em uma zona que nunca tinha pensado nesse produto.

O título dá visibilidade aos homens do campo que são avalistas da segurança alimentar e, ao mesmo tempo, guardiões da biodiversidade do planeta –não se pode dizer o mesmo do agronegócio brasileiro e sua prioridade para a soja e a pecuária

O reconhecimento dos Líderes da Ruralidade das Américas pelo IICA premia e dá visibilidade aos homens do campo que atendem a um duplo papel: ser avalistas da segurança alimentar e nutricional e, ao mesmo tempo, guardiões da biodiversidade do planeta –não se pode dizer o mesmo do agronegócio brasileiro e sua prioridade para a soja e a pecuária, responsáveis diretos pelo aumento do desmatamento na Amazônia e no Pantanal.

A paixão de Sepúlveda pela agricultura é um exemplo positivo para as zonas rurais da região. Ele se interessou pelas espécies de oliveira que tradicionalmente são cultivadas no Norte do Chile e transferiu a atividade para Araucanía, uma das 16 regiões do país, localizada a mais de 700 km ao Sul da capital, Santiago. Seu sonho é chegar aos mercados internacionais com seu azeite de oliva e deixar aos filhos e às novas gerações um legado de amor pelo campo e pela atividade agropecuária.

Emilio e suas azeitonas

Emilio, pertencente ao povo mapuche, a etnia indígena mais numerosa do Chile, passou toda a sua vida no campo. Desde a infância, aprendeu a cultivar a terra e a criar animais em Araucanía.“Estou certo de que não poderia viver sem o verde, o ar puro e o alimento fresco que temos no campo. Creio que em uma cidade eu morreria em pouco tempo. Aqui trabalho todos os dias para ter o meu sustento e para dar um amanhã melhor aos que virão depois de nós. Se não planto, não tenho esperança”, conta Emilio, orgulhoso de ser um agricultor familiar e defensor da cultura indígena –também ao contrário do agronegócio brasileiro.

“Como família, nos chamaram muito a atenção”, lembra, “as oliveiras do Norte do Chile, e há cerca de seis anos decidimos começar a cultivá-las aqui, para fazer o azeite de oliva mais austral do mundo, que atualmente já é orgulho do povo mapuche. Daqui para o Sul, não existem mais oliveirais. Para nós as oliveiras significam a paz e a harmonia, primeiro entre nós mesmos e depois com os outros. Eu estou convencido de que a raça não deve nos dividir, porque todos somos seres humanos”.

O seu projeto ainda é pequeno, mas já rende frutos, apesar da crise hídrica que o país atravessa –o Chile é o único país do mundo que privatizou em 100% sua água– e tem impactado os níveis dos cursos de água de Araucanía, criando obstáculos à atividade agrícola. Hoje, Emilio possui cerca de 500 plantas de oliveiras, faz o trabalho de moagem e prensagem para obter o azeite e sonha produzir com qualidade cada vez maior para competir no mercado com os grandes produtores do Norte do país, que contam com centenas de hectares.

O azeite de qualidade internacional que Emilio produz

Mas a paixão de Sepúlveda não termina no azeite de oliva. Além de colher trigo e aveia, tem uma horta onde cultiva morangos, cria porcos e aves e, como se fosse pouco, abelhas para a produção de mel. Tudo isso ele conseguiu graças ao grande interesse em se capacitar, tendo participado com a família de uma iniciativa piloto da Política Nacional Chilena de Desenvolvimento Rural, lançada para promover a associatividade e a chegada de investimentos para a atividade produtiva à região de Araucanía. Trata-se de um projeto do Ministério da Agricultura do Chile desenhado para melhorar as condições de vida das comunidades rurais.

Emilio, além disso, valoriza muito o apoio técnico do INDAP (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário) do Chile e do IICA, que lhe permitiram ter o seu azeite de oliva acabado como produto e pronto para a venda. Quando perguntado sobre seus projetos, ele se entusiasma e responde que gostaria de exportar, porque modernizou o trabalho e se sente capacitado para chegar com seu azeite de oliva aos mercados internacionais mais exigentes. No entanto, tem consciência de que o mais importante não é ter um cliente em algum lugar longe do planeta, mas preparar um legado de paixão pelo trabalho rural.

“Meu sonho”, afirma, “é deixar oliveiras para as futuras gerações. Sempre estamos pensando no futuro, porque algum dia nos iremos, mas temos que ensinar os nossos filhos. Meu sonho é deixar sabedoria para eles; não quero deixar-lhes dinheiro, porque se lhes deixo dinheiro irão brigar entre si. Prefiro que tenham inteligência e instrução para lidar bem com as novas tecnologias e para que o futuro seja deles. Se lhes deixarmos educação, não precisarão ir para as cidades, ficarão no campo. E o que queremos é isto: que as nossas famílias e os nossos vizinhos possam viver cada dia melhor onde nascemos, que cuidem da terra e valorizem o povo mapuche”.

Há cerca de seis anos decidimos começar a cultivar oliveiras para fazer o azeite de oliva mais austral do mundo, que já é orgulho do povo mapuche. Para nós as oliveiras significam a paz e a harmonia, primeiro entre nós mesmos e depois com os outros

Emilio aprendeu o trabalho rural quando era criança, ao lado da avó, que era agricultora e sustentava o dia a dia da sua família cultivando vegetais na horta e criando carneiros. Nenhum dos avós teve educação formal, mas levaram uma vida marcada por sacrifícios, da mesma forma que a sua mãe.

“Nasci no campo”, afirma ele, “e continuo vivendo no campo. Sou filho de mãe solteira e sofri muito quando pequeno. Vivíamos em uma casinha de barro e dormíamos sobre sacos cheios de palha. Felizmente e graças a Deus eu pude sair da pobreza. Primeiro trabalhei cortando lenha, arando com os animais, fazendo carvão ou cavando poços para os vizinhos. Depois, aprendi a construir casas e a fazer trabalhos de eletricidade e mecânica. Aqui no campo, temos que fazer de tudo e aprendi tudo olhando. Muitos camponeses da minha zona migraram para as cidades, em busca de uma vida menos sacrificada, mas eu não troco a que tenho por nada: trabalhar no campo é a coisa mais bonita que existe. Aqui somos fortes para aguentar o frio ou o calor. A minha vida está aqui”.

Emilio tem duas filhas e um filho, aos quais deu sempre os mesmos conselhos: o camponês deve cultivar o esforço e a perseverança; jamais deve render-se. Nunca lhes disse que as coisas no campo são fáceis, porque o trabalho rural não permite os dias de descanso que costuma haver na cidade. “É preciso alimentar as aves, os porcos e o resto dos animais todos os dias”, diz esse agricultor mapuche, que não se cansa de repetir qual é, para ele, o único segredo da vida rural: dormir tarde e levantar-se cedo todos os dias.

Com informações do site do IICA


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Bernardo Santos Melo em 20/04/2022 - 17h31 comentou:

Maravilha de Azeite , sabor sustentabilidade e pequena propriedade familiar .
Simples e exemplar !
Parabéns Cynara Fórum .

Responder

Loira Capitalista em 25/04/2022 - 12h47 comentou:

A atividade desenvolvida por Emílio, também é Agronegócio ! Nada de pré-conceitos !

Responder

    Cynara Menezes em 25/04/2022 - 16h53 comentou:

    não, é totalmente diferente “agricultura familiar” de “agronegócio”

Loira Capitalista em 26/04/2022 - 18h07 comentou:

SM, não é diferente… é a mesmíssima atividade, ao exportar, ele já estará ligado as cadeias globais de produção ! Sou agrônomo filho de pequenos produtores do Sul que migraram para o Centro-Oeste em busca de uma vida melhor.
Veja as Cooperativas que criam aves e suínos no Sul… Todos sãos pequenos produtores com 10-20 has, ligados a cooperativas que exportam milhões de toneladas de carne ao mundo, que utilizam como ração soja e milho produzidos pelos maiores produtores. Tudo interligado.
Única “diferença” é a escala/tamanho da produção, e não é a escala que determina quem vai sobreviver, mas sim a integração e a eficiência.

Responder

    Cynara Menezes em 27/04/2022 - 16h39 comentou:

    totalmente diferente: agronegócio é soja, milho e pecuária. por isso tanto desmatamento e tanto veneno. agricultura familiar é responsável pela maior parte dos alimentos. me espanta “filho de pequenos produtores” querer igualar isso.
    aqui todas as mentiras sobre o agronegócio, como “agronegócio produz alimento”:
    https://diplomatique.org.br/especial/agrotoxicos-vs-organicos/

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