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Cultura, Politik

Herberto Helder (1930-2015): o poema não é um objeto

Considerado o maior poeta português da atualidade, o madeirense Herberto Helder, morto aos 84 anos em Cascais, poderia ser ainda mais conhecido no mundo não fosse por uma característica singular: não dava entrevistas nem se deixava fotografar. A foto que acompanha este post é uma das poucas imagens conhecidas de Helder, e uma das últimas, […]

Cynara Menezes
24 de março de 2015, 23h13
herberto

(Foto: Alfredo Cunha/Porto Editora)

Considerado o maior poeta português da atualidade, o madeirense Herberto Helder, morto aos 84 anos em Cascais, poderia ser ainda mais conhecido no mundo não fosse por uma característica singular: não dava entrevistas nem se deixava fotografar. A foto que acompanha este post é uma das poucas imagens conhecidas de Helder, e uma das últimas, feita por insistência de seu editor em fevereiro deste ano.

Zeloso de que sua obra se mostrasse por si mesma, só se conhece uma entrevista do poeta, publicada em 1968 na extinta revista Luzes da Galiza. E era, na verdade, uma auto-entrevista onde Helder falava sobretudo do ofício de escrever. Em 1994, foi agraciado com o prêmio Pessoa, uma das mais importantes do país, mas recusou. Seu último livro, A Morte Sem Mestre, de 2014, veio acompanhado de um CD onde se pode ouvir a voz do poeta que amava viver anônimo.

Se um dia destes parar não sei se não morro logo,
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é o que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
–disse ela.

Em 1960, foi fichado pela ditadura de Salazar enquanto visitava uma biblioteca em Castro Verde como suspeito de ter “características comunistas” e de ser “inimigo das instituições”. Helder chegou a se filiar ao PCP (Partido Comunista Português), mas não militou. Seu filho, o jornalista e político Daniel Oliveira, foi do PCP e mais tarde se tornou um dos fundadores do Bloco de Esquerda.

herbertocomunista

Abaixo, trechos da auto-entrevista (íntegra aqui) e um poema onde Herberto Helder define como é escrever. Boa leitura.

“Um objeto pode ser útil ou decorativo, e a poesia não o pode ser nunca” (Herberto Helder)

Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. Como na infância, quando se fica à porta de um quarto obscuro e vazio. Fica-se durante um minuto uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma iluminação talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do anúncio suspenso e ameaçador: não acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. Às vezes para-se no meio de um parque ou de um jardim ou de uma avenida deserta. São variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: não acontece nada. A suspeita apenas de que nos aguarda uma espécie de graça reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, alguém que se ama, um ser imediato; ou então um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: é uma vida nova, uma força nova e profunda, é uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente conosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para nós perdida nas perspectivas inquietas da nossa contemplação. E recomeça-se. O mesmo, sempre. Nada.

Escrevi para fornecer uma forma legível e apaziguadora para os momentos na porta do quarto, no parque, na rua vazia, defronte do rosto aparecido. Escrevi para trás numa espécie de engolfamento memorial. Não consegui nada, foi continuar no quarto, no jardim, à frente das caras súbitas. Mas conheço agora a existência de uma pergunta inesgotável que se formula, se assim posso dizer, pela objetivação dos arredores evasivos, das alusões, dos sinais remotos.

Não se coloca o tema da utilidade, porque, pergunto: em que âmbito é útil seja o que for? Interessa-me este resultado: o de que em mim, expressando-se em gramática, em pauta, há uma expectativa ardente, uma ardente pergunta sem resposta, uma perplexidade ardente que me concedem um centro, um ponto de vista sobre a debandada das coisas, coisas centrífugas para diante, nos dias, no caos dos dias, centrífugas para trás, nos instantes mais densos da memória, átomos fosforecendo no caótico fluxo da memória. E então eu sei: respiro nessa pergunta, respiro na escrita dessa pergunta. Qualquer resposta seria um erro. Como eu próprio sugeri algures: um erro das musas distraídas…

Quero eu dizer que qualquer resposta seria uma arrogância, um erro para os resultados da ação. O conceito célebre, o celebérrimo, de que um poema é um objeto –bom, tornou-se um lugar comum, já nem sequer se pensa nisso, di-lo toda gente: os poemas são objetos–, ora este conceito estabeleceu-se num terreno móvel, movediço, sim objetos, mas como paramentos, ornamentos e instrumentos: as máscaras, os tecidos, as peles e tábuas pintadas, os bastões, as plumas, as armas, as pedras mágicas. É prático o uso que deles sempre se faz, uma resposta necessária ao desafio das coisas ou à sua resistência e inércia. No entanto, repare, ou atuamos nas zonas do quotidiano de onde não foi afugentado o maravilhoso ou existem outras zonas, um quotidiano da maravilha, e então o poema é um objeto carregado de poderes magníficos, terríficos: posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa. Aliás não é exatamente um objeto, o poema, mas um utensílio: de fora parece um objeto, tem suas qualidades tangíveis, não é porém nada para ser visto mas para manejar. Manejamo-lo. Ação, temos aquela ferramenta. A ação é a nossa pergunta à realidade; e a resposta, encontramo-la aí: na repentina desordem luminosa em volta, na ordem da ação respondida por uma espécie de motim, um deslocamento de tudo: o mundo torna-se um fato novo no poema, por virtude do poema –uma realidade nova. Quando apenas se diz que o poema é um objeto, confunde-se, simplifica-se; parece realmente um objeto, sim, mas porque o mundo, pela ação dessa forma cheia de poderes, se encontra nela inscrito; é registo e resultado dos poderes. E temos essa forma: a forma que vemos, ei-la: respira, pulsa, move-se –é o mundo transformado em poder da palavra, em palavra objetiva inventada, em irrealidade objetiva. Se dizemos simplesmente: é um objeto –inserimos no elenco de emblemas que nos rodeia um equívoco melindroso, porque um objeto pode ser útil ou decorativo, e a poesia não o pode ser nunca. É irreal, e vive.

***

Sobre um poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

***
LIVROS DO AUTOR PUBLICADOS NO BRASIL: O Corpo O Luxo A Obra (Iluminuras), Os Passos em Volta (Azougue) e Ou o Poema Contínuo (Girafa).

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(1) comentário Escrever comentário

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Lenir Vicente em 25/03/2015 - 00h46 comentou:

Que presente Socialista Morena! Gratíssima ! Amo poesia e convivo com ela dentro de mim escondida, incontida desde de criança, quando li o poema "E Agora José", de Drummond. Essa entrevista do poeta Herberto Helder vale como uma lição .Como reflexão sobre o que se faz e que seguramente é uma força que nos move. Não é objeto, adorno fútil, e nem pode ser considerada abjeta, inútil e desprezível. Não a poesia, quer gostem ou não.

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