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Marcia Haydée: “No balé, os homens que tiveram de lutar para ter o mesmo espaço”

Após 16 anos, brasileira deixa a direção do Ballet de Santiago e fala sobre a pandemia, feminismo e o processo constituinte no Chile

A bailarina Marcia Haydée em cena do documentário sobre sua vida. Foto: divulgação
The Clinic
13 de janeiro de 2021, 23h19

Por Javier García Bustos, no The Clinic
Tradução Cynara Menezes

Aos 6 anos ela conseguiu seu primeiro contrato. “Meu avô que assinou”, recorda Marcia Haydée, nascida em 1937 em Niterói. “Meu pai era médico e minha mãe me teve aos 19 anos. Eles tinham vida social, então eu andava com meus avós para todos os lados”, conta, sobre seu início na carreira, uma das maiores bailarinas do século 20.

Após o avô assinar o contrato, Marcia se apresentou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Era O Cavaleiro da Rosa, de Strauss. Eu entrava na primeira e última cena. Não sabia nada de alemão, mas tinha muito bom ouvido e isso me ajudou muito, musicalmente, no palco”, diz ao jornal The Clinic. Aquela que foi chamada de “A María Callas da dança” está em seu apartamento em Santiago, no Chile, e concede a entrevista pela plataforma Zoom.

No começo de dezembro de 2020 começou a circular a notícia: o bailarino e coreógrafo Luis Ortigoza assumia a direção do Ballet de Santiago em substituição a Marcia Haydée, que deixava o cargo após 16 anos. A artista atuará agora como assessora internacional do Ballet, já que em janeiro regressará à Alemanha.

Aos 83 anos, a fluminense de Niterói, considerada uma das maiores bailarinas do século 20, volta a residir na Alemanha e quer aprender a cozinhar

Esta menina que, aos 4 anos, iniciou seus estudos de balé no Brasil, aos 15 anos mudou para a Inglaterra, onde foi aceita no Royal Ballet School de Londres. Dali foi a Paris, onde conheceu, no Grand Ballet do Marquês de Cuevas, o coreógrafo sul-africano John Cranko. Durante 13 anos, trabalharam e percorreram o mundo com o alemão Sttutgart Ballet. Para ela, Cranko adaptou para a dança as histórias de Eugene OneginRomeu e Julieta e A Megera Domada.

Após a morte de Cranko, em 1973, Marcia Haydée assumiu a direção do Ballet de Stuttgart (1976-1996) e posteriormente trabalhou com coreógrafos renomados como Kenneth MacMillan, John Neumeier e Maurice Béjart.

Além disso, Marcia Haydée, Premio Nijinsky 2003 –uma espécie de Oscar do balé–, Ordem do Mérito Cultural no Brasil (por Lula e Gilberto Gil, em 2004) e na Alemanha, teve como companheiros de palco bailarinos memoráveis como Rudolf Nureyev, Mikhail Baryshnikov, Jorge Donn e Richard Cragun, que também foi seu marido. Há 25 anos Marcia está casada com Günther Schöberl, seu professor de yoga. “É uma biblioteca ambulante, por isso me casei com ele”, comenta em castelhano com seu leve sotaque brasileiro.

“São 9 meses que não entro no teatro, é muito estranho. Minha vida foi no teatro. Tenho muito tempo para mim mesma e não estou acostumada a tê-lo. Aprendi muito a estar comigo mesma”, diz a bailarina sobre a pandemia de coronavírus

The Clinic – Foram muito complicados estes meses de pandemia?
Marcia Haydée São nove meses que não entro no teatro, é muito estranho. Minha vida foi no teatro. Estive três meses na Alemanha, consegui ir ao teatro em Berlim e Stuttgart e foi incrível. Regressamos em setembro a Santiago e há duas semanas pude entrar no Municipal, por um dia, mas logo foi fechado. É muito estranho. Tenho muito tempo para mim mesma e não estou acostumada a tê-lo. Então me dediquei a pintar e escrevi num diário que tenho faz anos. Faço meus exercícios e meditação. Aprendi muito, neste tempo, a estar comigo mesma.

Recentemente estreou o documentário Marcia Haydée, Uma vida para a dança. Você diz que tem um diário… Gostaria de escrever sua autobiografia?
– São vários diários, cadernos, que tenho guardados. É um trabalho que faço com fotos. Recrio essas histórias e as complemento com lembranças. Fazer uma autobiografia é muito trabalhoso, alguém que me conhece bem teria que fazer isso. O documentário é melhor. Quem teve a ideia foi minha irmã e foi muito emocionante, porque gente que conheço e amo participa dele. Tudo que saiu dali é verdadeiro, para que as pessoas possam me ver como realmente sou e penso.

Que momentos relevantes de sua carreira você destacaria?
– Foi muito emocionante quando eu e John Cranko estreamos, em Nova York, em 1969, o balé Onegin. Cranko tinha um nome, mas a companhia de Stuttgart não era nada conhecida. A única coisa que os norte-americanos conheciam da Alemanha eram a Mercedes-Benz e a Porsche, mas de balé nada! (Risos) Eu não tinha um nome ainda. Quando chegamos, a primeira apresentação era a única que estava vendida, havia uma pressão muito grande. Num momento do primeiro ato de Onegin, mulheres e homens do elenco fazem duas diagonais, e o público ficou louco. Adoraram! No final, ficamos três semanas e tivemos ótimas críticas. De um dia para o outro, saímos em todos os jornais. Guardo recortes do The New York Times.

John Cranko foi fundamental em sua trajetória? 
– Sem dúvida. Um dia antes de fazer a audição para o Stuttgart Ballet, ele estava dando uma aula, que eram muito estranhas, porque fazia coreografias nas aulas, não era uma aula normal. Então, num momento, disse: ‘Façam isto’, e ninguém fez nada e eu levantei a mão e disse: ‘Acho que sei fazer’. E me soltei como uma louca. Depois ele me contou que foi nesse momento que viu que eu o entendia. No dia seguinte, fiz a audição para o corpo de baile, ensaiei uma parte de A Bela Adormecida e após dançar ele subiu ao palco e disse que eu o esperasse no camarim. Ao chegar, disse: ‘Marcia, não vou contratar você como corpo de baile, você ganhou um contrato como primeira bailarina’. Acho que esse momento foi fundamental na minha vida.

Após a morte de Cranko você fez produções com os coreógrafos Kenneth MacMillan, John Neumeier e Maurice Béjart…
– Eles salvaram a minha vida, me permitiram seguir na carreira. E sempre tinham a amabilidade de fazer coisas para mim quando eu estava à frente da companhia. De alguma forma, eles tomaram o lugar de Cranko na minha vida. Aos quatro –Cranko, MacMillan, Neumeier e Béjart– devo a minha carreira.

Como era trabalhar com Richard Cragun?
– Era um partner incrível e tínhamos uma conexão que fazia com que nos entendêssemos imediatamente. Além disso, fomos companheiros de vida durante 16 anos, dentro e fora do teatro. Com ele no palco eu não tinha medo de nada. Era um bailarino fantástico. E, após nos separarmos, continuamos bailando juntos. Foi difícil, mas tínhamos contratos a cumprir em Londres, Paris e Nova York.

Nessas cidades começaram a chamá-la de “a María Callas da dança”, não foi?
– Sim, saiu na imprensa de Paris e em Nova York, onde fizeram essa comparação. Para mim, Callas era uma deusa. Eu a vi ao vivo. O que ela tinha não era só a voz, era uma protagonista do palco. O dia que saiu essa crítica, primeiro no jornal Le Figaro, foi algo emocionante, muito bonito. Mas tudo isso aconteceu porque eu fui um instrumento destes coreógrafos revolucionários de que falamos, que estavam abrindo novos caminhos. Eu sabia o que eles queriam e não tinha medo de nada. E gostava muito de interpretar outros papéis. Eles diziam que as mulheres estavam dentro de mim.

A primeira vez que Marcia Haydée dirigiu o Ballet de Santiago foi entre 1993 e 1996, quando se alternava entre o Chile e a Alemanha. Retomaria seu trabalho no Municipal de Santiago em 2004, até algumas semanas atrás, quando decidiu que já era hora de dar lugar a outros coreógrafos.

Cena do documentário “Marcia Haydée”. Foto: divulgação

“Fui a diretora que mais tempo ficou no Ballet de Santiago. Acho que já transmiti tudo que aprendi a essa companhia. Eu não era uma diretora, era uma bailarina com uma carreira que recebeu a tarefa de dirigir outros bailarinos. Eles acreditavam no que eu transmitia e a relação foi muito linda. Agora é o momento de mudar. E quem fica no meu lugar, Luis (Ortigoza), sabe muito e tem uma visão completa do balé”, diz Marcia, que em alguns dias fará uma mudança de continente: no dia 18 de janeiro, volta para a Alemanha. “Vamos viver em nossa casa de Stuttgart.”

Como você viu a evolução da dança nas últimas décadas?
– É impressionante. A técnica que os bailarinos têm hoje é brutal. É outra maneira de dançar, podem fazer qualquer coisa. Mas, ao mesmo tempo, devo dizer que, se eu tivesse que ser bailarina hoje não seria, porque o balé está tão focado na técnica visual que é um pouco esgotador. Por isso eu gosto do Ballet de Santiago, porque dançam com o coração nos pés. O balé contemporâneo é muito lindo também, mas é preciso ter temperamento, não se pode ser frio.

Qual foi o seu legado na direção do Ballet de Santiago?
– No Chile, abrir as portas a coreógrafos que ainda não tinham trabalhado com essa companhia, como é o caso de Béjart. E também abrir as portas à dança contemporânea, porque hoje uma companhia deve saber fazer de tudo. Ser só uma companhia clássica, isso já não existe mais. O Bolshói ou o Stuttgart, todos têm uma mescla de repertórios. Outra coisa importante para mim foi transmitir o nunca ter medo, aceitar a liberdade total do movimento. E outra coisa relevante foi dar oportunidade às pessoas da companhia para que pudessem criar, desde Jaime Pinto, passando por Eduardo Yedro até Luis Ortigoza.

Mudando de assunto, o que opina do crescimento do movimento feminista?
– É fundamental e necessário. Mas, na minha carreira, a mulher sempre esteve na frente. Foram os homens que tiveram, na dança, que lutar para ter o mesmo espaço que as mulheres. Eu nunca tive um problema, mas é óbvio que as mulheres têm o mesmo direito que os homens. Não podem existir diferenças. No meu caso, tive a oportunidade de ter o salário que queria, mas sou uma exceção. Por isso entendo as feministas: não pode haver diferenças entre homens e mulheres.

Tenho um tremendo respeito pelo povo chileno, porque quando querem alguma coisa lutam por isso. Creio que vão vencer, vão conseguir o que merecem, que é uma Constituição melhor

O que acha do processo constituinte pelo qual passa o Chile?
– Tenho um tremendo respeito pelo povo chileno, porque quando querem alguma coisa lutam por isso. Creio que vão vencer, vão conseguir o que merecem, que é uma Constituição melhor. Agora, claro, sou contra a violência, a destruição, mas se ela ocorre é porque as autoridades, o governo, não escuta. A violência surge por alguma razão.

Do que mais vai sentir saudade no Chile?
– O Chile é um país grandioso. Sua natureza diversa é impressionante. Vocês têm de tudo, bom e mau, vulcões, terremotos, tsunamis, então para viver aqui a pessoa precisa ter um respeito muito grande pela natureza. Adoro, por exemplo, no norte, o deserto de Atacama, e, no Sul, a reserva Huilo Huilo. Quando eu voltar para a Alemanha, uma das coisas que quero é aprender a cozinhar, mas continuarei trabalhando com o Stuttgart Ballet. Há muitos projetos em Praga, Berlim, no Canadá, mas eu devo escolher quando quero descansar e quando quero trabalhar.

 


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Bernardo Santos Melo em 15/01/2021 - 20h08 comentou:

Belíssima entrevista biográfica e emocionante .Excelente Morena Socialista !

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