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Marilena Chaui errou em atacar a classe média

Aquele vídeo em que a Marilena Chaui, intelectual que respeito, ataca a classe média, sempre me deixou incomodada. Poxa, eu sou de classe média! Compreendo, claro, que ela se referia, mais que à classe média, ao pensamento médio, tacanho, mesquinho, egoísta. Ainda assim, foi como se ela estivesse me atacando pessoalmente. Sinto de forma parecida […]

Cynara Menezes
14 de fevereiro de 2016, 11h45
grandefamilia

(Elenco original de A Grande Família, um símbolo da classe média brasileira. Foto: divulgação/TV Globo)

Aquele vídeo em que a Marilena Chaui, intelectual que respeito, ataca a classe média, sempre me deixou incomodada. Poxa, eu sou de classe média! Compreendo, claro, que ela se referia, mais que à classe média, ao pensamento médio, tacanho, mesquinho, egoísta. Ainda assim, foi como se ela estivesse me atacando pessoalmente. Sinto de forma parecida quando criticam o Lula e percebo que, por trás dos ataques, se esconde um enorme preconceito de classe e de origem, por Lula ser nordestino e de família humilde. Isso me atinge, porque, além de tudo, eu também tenho origem simples e sou nordestina.

É duro, para uma pessoa de classe média, ouvir uma intelectual de esquerda dizer que a odeia, que a acha “uma abominação política porque fascista, uma abominação ética porque violenta, e uma abominação cognitiva porque ignorante” —sobretudo quando não se é nada disso. Soa pior ainda quando vemos que tem a seu lado, no palco da palestra em questão, um ex-presidente que se gaba (e é verdade) de ter possibilitado a ascensão dos pobres à… classe média!

Essa crítica tão feroz à classe média, que me perdoe a Marilena Chaui, me parece elitista, uma velha contradição da esquerda intelectual no Brasil. Um certo esnobismo, complexo de superioridade. Me lembra aquele personagem de Terra em Transe, de Glauber Rocha, gritando a todos pulmões que o povo é débil mental. Não acredito que faça bem nenhum à imagem da esquerda este tipo de postura, pelo contrário. O vídeo de Marilena Chaui virou um clássico da direita contra a esquerda na internet, popularizado em memes e edições grotescas.

Do ponto de vista estratégico, o ataque da filósofa petista é um desastre. Atiçou a turba sem necessidade, ajudou a desatar a ira da classe média sobre a esquerda (como se não bastasse a mídia…). Principalmente porque sabemos que na hora agá, em ano eleitoral, o PT gasta milhões com marqueteiros para atrair justamente a classe média —com doações dos banqueiros que, aliás, ele NÃO critica. Taí, eu simplesmente não consigo entender uma esquerda que poupa os banqueiros e detona a classe média. E sejamos francos: se quem vai às ruas atacar a esquerda é de classe média, também o é boa parte de quem se manifesta para defendê-la.

Auto-denominado “socialista democrático” e com sérias chances de vencer a disputa na pátria do capitalismo, os EUA, o pré-candidato à presidência Bernie Sanders tem tentado uma estratégia oposta, a de seduzir a classe média para o que pretende. Porque lá o sonho americano está se desfazendo e a principal vítima é a classe média. É a classe média norte-americana quem está sedenta por mudança e que é capaz de enxergar que o “outro mundo é possível” pode ser experimentado na terra de Ronald Reagan. Bernie faz promessas diretas para a classe média, de que o modelo que propõe vai ajudá-la a recuperar seu poder aquisitivo.

“A grande classe média norte-americana está desaparecendo”, Sanders costuma lembrar nos comícios, apontando para o tão acalentado “american dream”, que se esfuma diante dos olhos da nação. O sonho americano acabou?, perguntam-se articulistas atônitos em publicações liberais e conservadoras, confrontados com indicadores que mostram o empobrecimento da população e a desigualdade crescente. Que dor maior seria possível, para o americano médio, do que admitir que o sonho acabou?

Em seu discurso vitorioso na convenção em New Hampshire, Bernie novamente acenou à falida classe média do país. “A ganância, a imprudência e o comportamento ilegal de Wall Street levaram a nossa economia a ficar de joelhos. O povo americano socorreu Wall Street, agora é a hora de Wall Street ajudar a classe média”. A promessa de que haverá saúde gratuita universal (além de universidade gratuita) ajuda a conquistar a classe média também pelo bolso, porque significará uma economia no orçamento apertado de gente que precisa ter até três empregos para ganhar a vida.

O discurso de Bernie Sanders mostra que a classe média pode ser despertada para uma visão progressista do mundo, em lugar de desprezada. Mas é preciso detectar o que ela deseja. Melhor: é preciso convencê-la de que o que ela deseja de verdade em sua vida é algo muito mais profundo do que um novo smartphone ou televisão de plasma. Nos EUA, a classe média está decaindo, e por isso este interesse pelo socialismo de Sanders, pela outra via. No Brasil, a classe média subiu pelo consumo, mas este apoio ao PT pelo consumo se mostrou volátil, superficial, não duradouro além da eleição. Estamos vendo isto com toda clareza neste momento.

Em vez de pensar em um discurso mais abrangente e sedutor, no sentido de mostrar ser possível um lugar melhor para viver para a maioria das pessoas, a esquerda brasileira repete o mesmo comportamento de Hugo Chávez na Venezuela, espantando a classe média como um todo ao invés de tentar ganhar pelo discurso ao menos parte significativa dela —uma pena, este foi o grande equívoco do comandante. Desculpa, mas para mim o real inimigo nunca foi a classe média e sim a burguesia; as classes altas; os especuladores; as “elites” de que falava Lula; o 1%. É exatamente quem Bernie Sanders tem atacado, com sucesso.

Se um partido fracassou em conscientizar politicamente a classe média, não me parece justo culpá-la por sua falta de politização.

 


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(16) comentários Escrever comentário

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Policarpo em 18/08/2017 - 07h53 comentou:

ué, a página mudou e os comentários que haviam antes da mudança de layout desapareceram?

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Jones em 30/03/2018 - 06h41 comentou:

A Marilena Chauí, mesmo com os exageros, se referiu à classe méRdia que pensa estar mais próxima do topo da pirâmide do que da base. Você faz parte dela? Creio que não. É só aparar as arestas de sua fala apaixonada.

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Luiz Zimmerman em 10/08/2018 - 10h42 comentou:

Chauí ta certíssima! Já que você é da “Classe média”, pelo que falou; da tão falada nos últimos dez, quinze anos – “Nova Classe Média”; precisa de uma análise mais aprofundada sobre o que a filósofa falou, sem generalizações. Posso falar da “Classe Média” enquanto Classe sem dizer que todas as pessoas dessa classe econômica são estúpidas.

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Andrea em 11/10/2018 - 15h38 comentou:

As pessoas não entenderam a reflexão da autora, o bom senso nunca supera o radicalismo. Agredir o outro não está correto e ponto. Ela foi agressiva na fala e no discurso. Você não precisa fazer uma encenação teatral para expressar sua intelectualidade e muito menos criticar de uma forma tão generalizável. O meio acadêmico deve se integrar à sociedade e não o contrário, a maioria das pessoas não compreendem construtos, por motivos óbvios que qualquer análise no IDEB pode revelar. A retórica da divisão de classes voraz ficou nos século XX. Estamos em uma era em que ninguém gosta de ser agredido para aprender e que críticas construtivas não são sinônimos de críticas destrutivas. A comunicação com o público deve evoluir em todos os sentidos, podemos transmitir as mesmas ideias de diversas formas, escolham as mais amorosas e suaves, do contrário, abrirão-se lacunas para que uma nova parcela de oprimidos tornem-se novos opressores. Eu sou uma liberal, esse discurso da Marilena sempre me incomodou, não pela crítica em si, mas pelo tom desnecessário. E hoje, em outubro de 2018 vejo como a Cynara estava correta, tudo o que o PT faz é tentar desconstruir esse viés impositivo e excessivamente crítico do discurso, aprendeu, por meio da ascensão de uma oposição forte e perigosa, o valor da união.

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Adriano Magalhães em 23/10/2018 - 22h35 comentou:

Hoje vejo, mais que nunca, que ela tava era coberta de razão.

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Aline em 02/11/2018 - 16h42 comentou:

Creio que suas definições de Classe Média estão um pouco afetadas….

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Rita de Cassia Furtado em 17/02/2019 - 15h29 comentou:

Gostaria de saber qual a classe social de uma professora da USP, com douturado, faz parte! Marilena Chaui parece mais uma atriz fazendo uma encenação. Demorei a acreditar que era uma professora!
Alguém pode me dizer: qual a classe social que está senhora faz parte?

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Marcelo em 06/05/2019 - 16h22 comentou:

Eu odeio boa parte da classe média, uma abominação política porque é fascista, uma abominação ética porque é violenta, e uma abominação cognitiva porque é ignorante

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Bruno em 18/05/2019 - 00h27 comentou:

Oi Cynara, to comentando depois de anos pq só vi agora.

Em primeiro lugar te adoro.
Em segundo eu tb sou de classe média.

Mas justamente por conhecer tanto a classe média, nascido e crescido em seu seio e ter formação tb nas ciencias sociais que dou meu total apoio a este discurso da Chauí.

E primeiro lugar por seu compromisso não ser com a estratégia politica da esquerda mas sim com a academia.
E Galileu não esperou para dizer que a terra é redonda por conta da Igreja.
Ela é pesquisadora da àrea e seu conhecimento não deve aguardar cenários nem responder à estratégias.

Em segundo lugar por que é pra doer mesmo.

A classe média da qual ela fala é a classe média histórica e social e não a que recentemente ascendeu economicamente.

Existe uma divisão bem clara quanto a isso no discurso das madames que se incomodam com o povo com “cara de pobre” nos espaços que antes eram elitistas ou com a “médica com cara de empregada”.

A classe média que apoiou e financiou os grupos de caça aos comunistas durante a ditadura.

E que hoje continua sendo as três abominações listadas pela Chauí.

As manifestações contra Dilma que vimos, os panelaços, pato inflável, anti-petismo, ascenção de um MBL neo-liberal de um lado em conluio com um bolsonarismo miliciano de outro tem muita coisa em comum. O conservadorismo.
E o conservadorismo dialoga diretamente com essa classe média histórica que trabalha em prol da manutenção do privilégio de não se definir como parte da classe trabalhadora e se sentir elite sem de fato ser.

Não foi o discurso da Chauí que contribuiu para o afastamento desta classe média das esquerdas.
Ela só apontou o que estava lá… e doeu pois era velado.
Que não ocorre afastamento de quem nunca nunca esteve conosco.

Todas essas manifestações de ódio vindas desta classe média foram previstas pelo discurso da Chauí.

Num contexto mais atual, o eleitor de Bolsonaro que hoje reclama do corte de verbas para a educação pois será afetado não é nosso aliado só porque cobra a mesma pauta.
E munir um sujeito desse de relevância e poder de voz é o que vai realmente trazer mais queda para a esquerda.
Pois aliado oportunista e individualista não está ali no amor e na dor… não pensou nas minorias e nem foi empatia que lhe mudou a opinião.
E na primeira oportunidade irá pegar toda a relevancia que ganhou dentro do mov. e vender à concorrencia.

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Luiz Henrique em 04/09/2019 - 09h32 comentou:

Ela acertou. Rsrsrs

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Germano em 04/10/2019 - 10h58 comentou:

Acredito que a confusão dá-se pelo uso da metonímia. E não se pode confundir conceitos: classe média enquanto faixas de renda e classe média enquanto ideologia. Por isso, entendo que Chauí condena a ideologia da classe média, portanto odeia o pecado e não o pecador porque a classe média é também vítima e, pelos seus atributos, é mais que ignorante, é estúpida.
A direita se aproveitou do discurso para dizer que Chauí dissemina o ódio. Argumento utilizado pelos cinismo dos que procuram esconde que é exatamente a semeadura, a adubação e o regadio do ódio e preconceito conta os menos favorecidos que faz essa classe odienta e odiada. Quem planta, colhe.
Para nós, de cultura latina, quem quiser entender a origem da coisa, que é antiga, procure se informar sobre o clientelismo na Roma antiga. Como estamentos originariamente antagônicos, patrícios e plebeus, se compõem para conservarem seus poderes e privilégios, em detrimento da maioria da população formada de escravos.

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Marco Aurélio em 06/05/2020 - 14h52 comentou:

Convenhamos, não conheço o autor, mas o posicionamento do Bruno (em 18/05/2019 – 00h27) nos comentários aí de cima, lacrou a discussão.

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Breno em 14/05/2020 - 19h38 comentou:

Hoje, maio de 2020, vejo o quanto a filósofa acertou. Concordo com o comentário do Germano e me identifico muito com o comentário do Bruno.

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adao em 20/05/2020 - 18h38 comentou:

Eu acho que qualquer tipo de intolerância é nociva, a democracia verdadeira permite existir todas as classes sociais , opiniões políticas, etc

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José Macedo em 29/10/2020 - 19h41 comentou:

A análise da Profa Chauí é crítica, sob o ponto de vista dialético, considerando o anseio, o desejo de ascensão, numa postura de frustração, quando então a classe média prática seus atos, mesclados de ódio e preconceito. Assim, é nada mais, senão a imitação da postura preconceituosa, querendo superar de qualquer jeito suas frustações, então é o vale tudo, o ódio ou qualquer ato que sinalize possibilidade de acesso à classe superior, seu fetiche. A Profa faz essa crítica sob o ângulo sociológico, uma análise desses segnentos, sabendo de que há indivíduos que possuem hábitos e poder de consumo idênticos aos dessa classe, mas têm poder crítico para ultrapassar as variáveis desse pernicioso paradigma.

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Cristiano Rogério Candido em 29/12/2020 - 21h28 comentou:

Exemplo clássico de como gênios também se comportam, as vezes, com completos idiotas… principalmente quando suas falas são isoladas e interpretadas fora do contexto de sua obra. De qualquer forma, o elitismo da esquerda sempre vêm à tona.

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