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Mino Carta e a alma do jornalismo brasileiro que se foi junto com ele

A morte de Mino Carta deixa o jornalismo brasileiro mais pobre porque sua morte nos dá a exata dimensão da pobreza em que o jornalismo brasileiro se encontra

O jornalista Mino Carta. Detalhe de foto de Olga Vlahou/Carta Capital
Cynara Menezes
09 de setembro de 2025, 15h18

É possível que Mino Carta tenha morrido sem conhecer o termo clickbait. Os clickbaits, ou caça-cliques, são títulos, muitas vezes sensacionalistas, feitos para aguçar a curiosidade do leitor, obrigando-o a clicar para ver o conteúdo e com isso gerar tráfego para o veículo digital. Os clickbaits são hoje uma das principais fontes de renda do jornalismo online, em detrimento da qualidade do texto. E é por isso que eu acho que Mino não conhecia o termo, apesar de falar inglês fluentemente: os clickbaits são o exato oposto do jornalismo que Mino Carta praticou a vida toda.

Celulares e computadores não interessavam a Mino. Batucou os pensamentos numa velha máquina de datilografar Olivetti até o fim. Era um romântico, na vida e na profissão. Fico pensando no apego que Mino tinha por sua Olivetti e percebo que não podia largar dela porque era um símbolo do jornalismo em estado puro, artesanal, que pregou e praticou. Era preciso apurar com diversas fontes, era preciso sentar para escrever e era preciso rasurar, amassar papéis em direção à lata do lixo, reescrever e reescrever. A Olivetti representava o jornalismo de sangue, suor e lágrimas, o jornalismo com alma em que acreditava. Mino se foi e o jornalismo brasileiro ficou sem sua alma.

Não se trata de ser nostálgico, mas que jornalismo fazemos hoje? O jornalismo cultural morreu. Qual foi a última vez que você leu uma matéria deliciosa sobre livros, cinema, música? E mesmo o jornalismo político –que agora domina todos os espaços noticiosos em disputa encarniçada com as fofocas de celebridades–, que qualidade há nele? O “jornalismo declaratório”, tão condenado por nossos raros críticos de mídia, tomou conta do noticiário: “fulano disse isso”, “beltrano disse aquilo”. Detalhe: com “fulanos” e “beltranos” cada vez menores em termos de personagens dignos de serem ouvidos por um jornalismo que se preze.

Mino foi um jornalista com opinião numa época em que jornalistas, os empregados, não podiam ter opinião, só o patrão. E ele sempre teve opinião, embora certamente não visse vantagem alguma em jornalistas que só têm opiniões e nenhuma informação como ocorre atualmente, com o objetivo nem um pouco disfarçado de fazer “viralizar” nas redes sociais suas participações em programas de TV, lives e podcasts. Clickbait.

“Os jornalistas se levam muito a sério, cada vez mais a sério. E são levados a sério, conforme demonstram as pesquisas”, escreveu Mino em seu derradeiro texto para Carta Capital. “É estranho, no entanto: nunca o jornalismo brasileiro foi tão pobre de ideias, tão primário na letra, tão incompleto e inconsequente na informação. Tão banal. Tão provinciano. Tão patético.” E quem há de discordar dele? Eu é que não.

“Nunca o jornalismo brasileiro foi tão pobre de ideias, tão primário na letra, tão incompleto e inconsequente na informação. Tão banal. Tão provinciano. Tão patético”, escreveu Mino em seu último texto. E quem há de discordar dele? Eu é que não

Muito antes de conhecê-lo e de trabalhar sob a batuta dele, Mino Carta já havia me contaminado com sua inesgotável capacidade de se indignar, sua ira santa, ou melhor, sua revolta do proletariado santa. Muitos colegas não gostavam quando ele apontava a extrema sabujice com que se comportavam em relação aos empregadores. “Só no Brasil jornalista chama patrão de colega”; era só sua provocação mais célebre soar para que caíssem ao lado coleguinhas fuzilados, envergonhados da própria carapuça.

Sentiam raiva de Mino por ser tão ácido, mas é preciso mesmo ser puxa-saco de patrão para subir nesta profissão? Me provocou engulhos, dia desses, assistir colegas parabenizando O Globo por seus 100 anos de História, sendo que, se os Marinho não tivessem apoiado a ditadura militar, o jornal teria acabado aos 39! Nestes momentos penso quanta razão tinha Mino… Sinto desprezo por jornalistas assim, bonecos de ventríloquo da voz do dono. Aprendi com o mestre.

Mino Carta e sua Olivetti. Foto: Olga Vlahou/Carta Capital

A morte de Mino Carta deixa o jornalismo brasileiro mais pobre porque a morte dele nos dá a exata dimensão da pobreza em que o jornalismo brasileiro se encontra. A arte de contar boas histórias já não se vê mais nele; o apuro no texto, a ourivesaria da palavra, tornou-se um luxo; e a indignação virou uma pantomima, uma encenação em busca de visualizações e likes nas redes sociais. Clickbait.

Pessoalmente, o jornalismo digital me trouxe a ilusão de que afinal poderia escrever o quanto quisesse, sem a limitação de tamanho imposta pelo papel, cada vez mais caro, o que sacrificava os textos, cortados a facão para economizar. Mas o que aconteceu é que ninguém escreve mais, ninguém lê mais, ninguém compartilha textos mais. Os jornais impressos estão em extinção e o jornalismo escrito, no formato digital, é um relatório: quanto mais curto, melhor, mais clicável.

Com sorte e algum apoio técnico e financeiro, um bom jornalista poderá produzir um conteúdo importante para ser reproduzido nas redes sociais –em vídeo. Mas o jornalismo, aquele do sangue, do suor e das lágrimas, aquele da indignação genuína, aquele dos textos que a gente gostava tanto que guardava, aquele da alma, da Olivetti, se foi com Mino Carta.

E agora? Para quem conviveu com Mino, para quem aprendeu com ele, é tentar fazer o jornalismo mais honesto possível, é tentar transmitir aos mais novos o amor pelo texto, pela artesania das palavras além da fórmula batida do lide e sublide que aprendemos na faculdade (alguém ainda faz faculdade depois do fim da exigência do diploma?). Como sobreviver dentro da lógica do clickbait, dos cliques que atraem anúncios, e os anúncios, dinheiro, é o grande desafio que se impõe. Não vai ser fácil.

Saudades, Mino.

 


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