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Cultura

Na Itália, interdição a produtos de beleza faz refletir: o que é essencial?

Estamos forçados a viver, sem a leveza do conceito, a filosofia do Balu do Mogli –“somente o necessário”

A vedete Carmen Veronica em 1954. Fotos: Última Hora/Arquivo Público do Estado de SP
Cris Ramalho
30 de março de 2020, 14h50

A vedete Carmen Veronica e uma amiga de palco (acho que era Consuelo Leandro) saíram rebolando sossegadas por Copacabana no dia 31 de março de 1964 a caminho do salão de beleza. O Rio estava deserto, nem uma alma nas ruas, com exceção dos tanques de Guerra e soldados armados que patrulhavam a área –dia do golpe, ou da Revolução, como mais tarde ensinariam os livros de história da minha infância. O soldado esticou o fuzil na cara das duas beldades. “Daqui não passa”. Carmen se indignou com aquela voz molenga, irresistível: “Mas como não passa? Estamos indo fazer o pé e a mão”. “Ordens do comando, senhoritas”. Ela encarou: “E o senhor quer que a gente fique com os calcanhares rachados?”

Lembrei dessa história porque ontem, no passeio rápido com a Zara, minha labradora, as ruas aqui na Sicília desertas como manda a quarentena, vi na calçada uma lixa de pés. Para polir calcanhares rachados. Uma pequena amostra arqueológica de que a humanidade, essa escondida, está ainda por aí. Fiquei imaginando quem perdeu o objeto –seria uma mãe correndo com a sacola de compras para voltar para casa e fazer o almoço? Uma garota entediada que vai passar esmalte enquanto tá grudada no celular? Uma drag queen aprisionada na quitinete? Quem perdeu, ficou sem, porque além de todas as lojas fechadas, os supermercados não vendem mais esses itens. As prateleiras de cosméticos e produtos de beleza estão agora separadas com fitas de isolar a área em filme policial. “Ordens do governo. Não são itens essenciais, senhora”, me explica o moço do caixa.

Fita isolando produtos de beleza na Itália. Foto: Cris Ramalho

Não, não são, concordei. Estamos forçados a viver, sem a leveza do conceito, a filosofia do Balu do Mogli –“somente o necessário, o extraordinário é que é demais”. E com tamanha gravidade no mundo, homens no comando vão perder tempo pensando se alguém pode se preocupar em amaciar os pés, passar um batom, retocar a raiz dos cabelos? Há os que acreditam que essencial, mesmo, é a economia, estúpido!, muito mais do que as vidas dos que não produzem tanto quanto eles gostariam. Os que só veem a mão de Deus, e quer algo mais imprescindível? Nesses tempos de cativeiro, já é luxo ter um amor para dar as mãos, geladeira cheia e TV –o singelo ideal de felicidade de um amigo carioca quando me confidenciou, anos atrás, sobre sua incompreensão das inquietações femininas (“ela diz que a vida não pode ser só isso, mas se eu tô com ela, o Flamengo ganhou, o que falta?”).

E assim o significado de essencial para cada um vai pegando mais forte ou mais leve, sofrendo pequenas mutações, como o vírus que nos tirou os abraços, as mãos dadas, os empregos, as discussões e risadas nas mesas de bar. Levou junto tantas coisas nem tão importantes e cutucou indagações mais profundas: será que não podemos viver com menos? Bom, basta uma olhada nas estatísticas que mostram que um terço do mundo não tem nem água encanada que esse papo de less is more fica meio ridículo de óbvio. Mas também é verdade que até na escassez absoluta todo mundo precisa de uns devaneios. Uma cachacinha que seja, uma música, uma flor no cabelo, botar um pano legal, uns adjetivos para o corpo e para o espírito.

Há os que acreditam que essencial, mesmo, é a economia, estúpido! Mas até na escassez absoluta todo mundo precisa de uns devaneios. Uma cachacinha que seja, uma música, uma flor no cabelo, botar um pano legal

Na adolescência, eu era fascinada por uma mendiga que morava no caixa eletrônico perto da minha casa e vasculhava o lixo da rua catando restos de batom, blush, sombra, para dar um toque no visual. Sempre me encantei de ver que nos países em guerra as pessoas dão um jeito de continuar a diversão, inventam festas no porão, se arrumam como dá e vão dançar, promovem concurso de miss, como naquela canção do U2, Miss Sarajevo. Na atual guerra contra o vírus, talvez a fita que isolou a área da beleza no mercado isole ainda mais a gente do que imaginamos. Nos proíbe a fantasia. Pode ter efeitos imprevisíveis. Minha dentista uma vez me descreveu tudo o que fazia para estar sempre bonita. Depilava os braços, o cabelo precisava de tinta a cada 10 dias, na pele usava procedimentos x e y, então me olhou bem firme e pediu: “Olha, se um dia eu naufragar, ou ficar perdida dias na mata, por favor, não me resgatem”.

Faltou contar o que aconteceu com nossas vedetes, Carmen e Consuelo: o soldado, talvez besta diante do argumento, ou um sábio que compreende a natureza humana, deixou as duas passarem. Na volta, elas jogaram beijos para ele, felizes com as unhas feitas e os calcanhares polidos.

Cristina Ramalho é jornalista e mora na Sicília. Este e outros textos estão no Diário da Itália que ela está publicando em seu blog, Ramalhetes

 


(2) comentários Escrever comentário

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Celia Regina de Soyza em 31/03/2020 - 22h38 comentou:

Acho que é no filme O Baile que tem uma cena assim: na escassez da guerra e na falta de uma meia fina, uma mulher faz uns riscos atrás das pernas. Com um lápis de olho, imita uma costura em sua inexistente meia e sai feliz para dançar…

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Miranda em 01/04/2020 - 10h33 comentou:

Parabéns a Cristina pelo texto e a Cynara por sua publicação. É muito bom refletir sobre o não essencial, muitas vezes tão necessário. Certa vez li um texto de um cientista (não vou lembrar nome agora) em que ele dizia que coisas não essenciais para nossa sobrevivência, como por exemplo, a arte, são as que nos fazem humanos.

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