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O desfile da Chanel é a queda do muro de Berlim de Cuba

Quando a escocesa Stella Tennant, modelo-fetiche da Chanel, pisou o Paseo del Prado, em Havana, no último dia 3 de maio, foi como se os sapatos bicolores que usava tivessem o poder de trincar para sempre o chão sob seus pés. Cuba nunca mais será a mesma: é A.C. e D.C., antes e depois de […]

Cynara Menezes
10 de maio de 2016, 21h26
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(“Chenel”: a boina de Che com a marca da Chanel. Foto: Alexandre Meneghini/Reuters)

Quando a escocesa Stella Tennant, modelo-fetiche da Chanel, pisou o Paseo del Prado, em Havana, no último dia 3 de maio, foi como se os sapatos bicolores que usava tivessem o poder de trincar para sempre o chão sob seus pés. Cuba nunca mais será a mesma: é A.C. e D.C., antes e depois de Chanel. Talvez só daqui a algum tempo as pessoas se deem conta, mas o desfile de uma das mais caras grifes do planeta foi o muro de Berlim da ilha de Fidel Castro e Che Guevara.

Imaginem um lugar mantido isolado do capitalismo durante 57 anos e que é, de súbito, exposto diretamente ao luxo, a maior antítese do socialismo? Foi o que aconteceu em Havana naquela terça-feira. Na passarela, vestidos, shorts, saias, calças e acessórios comercializados por milhares de dólares passavam diante dos olhares de pessoas que ganham, em média, 25 dólares mensais. Um cubano comum teria que trabalhar dez anos para comprar um Chanel autêntico.

Isso para quem conseguiu ver, claro: os habaneros foram mantidos afastados do evento por seguranças particulares (contratados a 150 dólares, uma fortuna!) e pela polícia e só os moradores das imediações puderam assistir ao desfile dos balcões dos edifícios. Alguns, mais espertos, chegaram a alugar o espaço para quem quisesse ver.

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(Os cubanos não foram convidados e assistiram dos balcões.Foto: 14ymedio)

Como aconteceu com os alemães orientais com a queda do muro, em 1989, o cubano foi apresentado de supetão não só ao luxo, mas à desigualdade, à diferença entre classes, ao apartheid social, à segregação, à exclusão, ao consumismo e ao racismo, num país que se orgulha de não possui-lo: na passarela, três modelos cubanas representavam os nativos, enquanto na platéia os negros se contavam nos dedos, exatamente como acontece em outros países (capitalistas) em que Chanel desfila. Quem quisesse sentar nos bancos do Paseo del Prado tinha que ter “contatos” na Embaixada da França. Ah, esses conceitos novos…

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(“As cubanas de Chanel”, felicíssimas)

O que os cubanos puderam ver de perto mesmo é que todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros: Mariela Castro, a filha do presidente Raúl, estava entre os convidados para ver o desfile. Chegou a ser noticiado que o jovem Tony Castro, neto de Fidel, iria desfilar, mas ele só acompanhou tudo, também como VIP, ao lado do pai, Antonio. A “família real” cubana, diga-se de passagem, é branca. O significado da palavra “elite”deve ter ficado claríssimo para os habitantes da ilha agora.

Karl Lagerfeld, o diretor criativo da Chanel, explicou, sobre a coleção, que é a forma como ele vê Cuba e sua cultura. Pelo que se observou na passarela, a “forma” é pré-revolucionária, com um visual vintage, 50’s. Mais parecia uma homenagem à era Fulgencio Baptista. Há algo de muito errado quando os “almendrones”, os carros antigos fabricados nos Estados Unidos, são a maior atração turística de um país que vive há mais de 50 anos sob um regime dito socialista… Para transportar os convidados e as modelos, 170 conversíveis foram alugados. São magníficos, sem dúvida. Mas que “símbolo” de uma sociedade nova é este?

(Stephen Gan, diretor da Harper's Bazaar, em Cuba. Foto: NYmag)

(Stephen Gan, diretor da Harper’s Bazaar, em Cuba, no comboio de “almendrones”. Foto: Christopher Anderson/Magnum)

Não tinha nada no desfile que remetesse a trabalhadores e sim a cassinos, como os que havia na Cuba antes de Fidel, Che Guevara e Camilo Cienfuegos tomarem o poder. Todos os modelos masculinos fumavam charutos. As mulheres levavam chapéus Panamá. Havia uma clutch em forma de… caixa de charutos e, para sutilmente dar um toque na memória de que ali algum dia houve uma revolução comunista, as boinas de Che apareceram –sacrilégio!– cobertas de paetês e com o símbolo da Chanel no lugar da estrela. Chenel.

(Coco agora está libre para reinar em Cuba. Foto: Alexandre Meneghini/Reuters)

Nas camisetas, em vez de ¡Viva Cuba Libre!, o trocadilho cruel: ¡VivaCoco Libre!. Já não há mais barreiras, Coco Chanel chegou a Cuba. Mais Karl Lagerfeld, menos Karl Marx, diria um jovem neoliberal em júbilo. As jaquetas camufladas que os guerrilheiros usavam para se esconder na selva viraram peça de boutique cara. Até as típicas guayaberas caribenhas ganharam paetês. Um amontoado de clichês sobre a ilha, feito para vender.

Lagerfeld levou para lá 700 pessoas de sua entourage, estratagema perfeito para não se misturar aos locais. “Nunca pensei que isso fosse acontecer”, disse uma exultante Ana de Armas, atriz cubana que mora em Los Angeles desde os 17. “Minha família, meus amigos, nem sabem o que é Chanel. Estamos celebrando algo que deveria ter acontecido muito tempo atrás”. O muro caiu.

Terá a fotogenia vencido a revolução? 57 anos depois, Cuba voltou a ser um belo cenário para desfiles, filmes e celebridades e Chanel a alugou para um desfile. Cuba não se vende, mas se aluga?

O jornalista Sergio Alejandro Gómez, do Granma, jornal oficial do Partido Comunista Cubano, questionou em seu blog o que Cuba ganhou com a presença da grife. Literalmente: não se sabe quanto a casa de modas francesa pagou (se é que pagou) para “privatizar” áreas públicas em Havana, tanto o Paseo del Prado, local do desfile, quanto a Plaza de la Catedral, onde rolou o regabofes para celebrar o feito e Lagerfeld tentou dançar salsa com a atriz francesa Cecile Cassel.

“Alguns sentiram que o espetáculo, o primeiro deste tipo na América Latina, era um golpe baixo contra a austeridade revolucionária, que em mais de uma ocasião se tentou vender como virtude em vez de necessidade”, escreveu Gómez. “Havia muita gente no Prado tentando ver o desfile, mas havia mais gente ainda nas nos mercados tentando encontrar produtos básicos que recentemente baixaram de preço, como o frango e o óleo de cozinha.”

E continuou: “Todos sabem o que ganham Chanel e Hollywood ao escolher Havana –a cidade parada no tempo, com sua beleza em ruínas–; a capital proibida onde se misturam o art déco e a guerra fria. A pergunta é: o que nós ganhamos? Saber em que será utilizado o dinheiro arrecadado pode ser um alívio para quem sente que a cidade fez um sacrifício. Quem sabe um parque, um edifício multifamiliar ou pavimentar uma rua.” No Granma, aliás, não saiu uma só linha sobre o desfile.

Já os blogs de oposição fizeram a festa com a exclusão explícita do desfile –como se não fosse justamente isso que viessem reivindicando há tempos, sem se darem conta, ao clamar pela abertura do país. A conhecida blogueira cubana Yoani Sánchez denunciou que mendigos foram tirados pela polícia das imediações da Praça da Catedral para não “enfeiar” a vista, algo tão íntimo de nós, brasileiros, em eventos como a Copa do Mundo ou a próxima Olimpíada.

“Ainda que este contraste entre o que em Cuba chamam ‘socialismo’ e o luxo tenha saltado aos olhos da opinião pública por causa do desfile de Chanel, na verdade este paradoxo ocorre já há muitos anos”, diz o blogueiro oposicionista Yusnaby Pérez. “Para o cubano comum, a disparidade começou nos anos 1990, com o período especial. Desde o momento em que Fidel Castro abriu os hotéis somente para estrangeiros e as ‘diplotiendas’ (lojas exclusivas para a diplomacia), coexistiram em Cuba duas realidades: a dos turistas, rodeados de comodidades, com possibilidade de adquirir qualquer bem (importado, claro) e a dos cubanos, cujo poder aquisitivo lhes permitia somente alimentar-se.”

Depois que Raúl Castro subiu ao poder, segundo Yusnaby, a realidade dos turistas passou a ser acessível a alguns cubanos “da elite” (familiares dos governantes, militares de alta patente etc.), mas não ao povo em geral. Pergunto como ele vê que automóveis dos anos 1950 estejam entre os grandes “atrativos” turísticos da ilha. “Faz parte do fetiche, é como ir ao zoológico e ver uma espécie que vive enjaulada”, ironiza. “Eu adoro que os turistas venham a Cuba porque minha terra é um país maravilhoso, com uma grande riqueza natural e cultural, mas que ninguém se engane: nós, cubanos, não gostamos de viver ancorados no passado.”

Para um defensor do capitalismo, dá na mesma se Cuba se rendeu a Chanel ou não; é até uma vitória. Para um socialista, é melancólico ver que, após abrir-se ao mundo, Cuba esteja sendo reverenciada não pela igualdade entre os cidadãos e sua sociedade mais justa, mas por estar parada no tempo. Incomoda que os símbolos do país sejam imagens de meio século atrás, inclusive as pós-revolucionárias. É como se Cuba fosse a filha que, mantida durante anos escondida pelo pai, é finalmente apresentada à sociedade e todo mundo só repara em sua beleza e não no que ela tem a dizer.

“Todo mundo quer conhecer Cuba como a maçã proibida”, disse uma Mariela Castro algo deslumbrada à AFP. Então era isso?

Se o desfile de Chanel foi lindo? Claro, lindo. O toque final foi ver o “kaiser” Karl Lagerfeld, notório anticomunista, pisar triunfal sobre o centro de Havana, como um conquistador marcha sobre terra virgem, inexplorada.

Estarão os cubanos vacinados contra a cobiça, outra chaga do capitalismo? Duvido, mesmo porque a cobiça tem mais a ver com a natureza humana do que com ideologia. Ainda não é possível abrir uma loja de marca no país, mas no centro de Havana e no Malecón (a avenida a beira-mar da cidade) já se veem, como aqui, jovens usando imitações de Armani, Gucci, Calvin Klein, Hugo Boss… trazidas da América do Sul e vendidas no mercado negro. Logo, logo chegarão as de Chanel também.

 

 


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