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O Fla-Flu dos EUA: não adianta espernear, a polarização existe e está em toda parte

Acho superestimada essa discussão, ou melhor, essa queixa frequente sobre o Fla-Flu que vivemos. Vejo muita gente dizendo que está cansada, que o Brasil está polarizado demais, que não existe mais esquerda e direita e que devíamos nos dedicar a acabar com essa divisão. Mas até que ponto isto não é uma ilusão e uma […]

Cynara Menezes
19 de junho de 2016, 11h15
berniet

(Bernie Sanders e Donald Trump no traço de Keith Tucker)

Acho superestimada essa discussão, ou melhor, essa queixa frequente sobre o Fla-Flu que vivemos. Vejo muita gente dizendo que está cansada, que o Brasil está polarizado demais, que não existe mais esquerda e direita e que devíamos nos dedicar a acabar com essa divisão. Mas até que ponto isto não é uma ilusão e uma tentativa vã de fazer de conta que os conflitos não existem? Esta reclamação é irmã gêmea do blá-blá-blá de que o PT inventou a luta de classes, algo que existe desde que o primeiro rico explorou o primeiro pobre. Tanto quanto no futebol, o Fla-Flu é um clássico.

Enquanto estas pessoas vivem num mando paralelo, a briga entre esquerda e direita dá sinais de que voltou com força total no dito mundo civilizado –se é que algum dia ela foi embora. A disputa entre conservadorismo e progressismo está em alta na Europa, por exemplo, onde também está em alta o fascismo, a xenofobia, a extrema-direita. É natural que haja reação.

Examinemos o caso dos Estados Unidos, onde dois candidatos à presidência se destacam: Bernie Sanders, que se autointitula socialista, e Donald Trump, o bilionário misógino que excita os defensores da supremacia branca. Quer mais Fla-Flu do que isso? Por fora, corre Hillary Clinton, a real candidata do establishment financeiro, que periga ser derrotada pelo fascista, claro, porque contra fascistas não há “neutralidade” que dê jeito, ainda mais quando ela é falsa.

Traduzi para vocês um texto excelente do escritor Steve Fraser, autor do livro The Age of Acquiescence, que tenta explicar neste artigo o Fla-Flu norte-americano, que, no fundo, tem uma parecença com o que vivemos hoje no Brasil. Inclusive as semelhanças da era Lula com o New Deal, já observada por André Singer. Fraser se dedica a responder sobretudo uma questão que nos interessa muito também: por que em determinados momentos históricos nos submetemos e noutros nos rebelamos? Desde 2013 o Brasil, como ocorre com os EUA, não vive exatamente uma era de submissão… E ele decreta: “a era da submissão acabou”.

O autor aborda ainda a incapacidade de ambos os partidos, Republicano e Democrata, de realmente mexer nos privilégios do 1% da população mais rico, como promete Bernie Sanders. Alguém aí lembrou do PT e sua incapacidade de criar o imposto sobre grandes fortunas? Leia, vale muito a pena.

Nota: o “liberalismo” do texto de Fraser se refere ao liberalismo dos EUA, ou seja, mais para progressismo, bem oposta à acepção que o termo tem no Brasil.

***

Bernie, The Donald e os Pecados do Liberalismo

Steve Fraser, no Tom Dispatch

Erguendo-se das sombras da América reprimida, Bernie Sanders e Donald Trump enviam um sopro gelado através dos corredores do establishment. Quem imaginaria uma coisa dessas? Dois homens, ambos surpreendentes, embora de formas totalmente distintas, parecem liderar rebeliões contra os mestres de nosso destino nos dois partidos; e isto após décadas em que até mesmo imaginar uma possibilidade destas seria visto como ingênuo, na melhor das hipóteses, ou delirante, na pior. A permanência heróica deles no palco nacional pode ser o mais improvável acontecimento político do último meio século nos Estados Unidos. Sugere que estamos entrando em uma nova fase de nossa vida pública.

Um ano atrás, em meu livro The Age of Acquiescence, tentei resolver um mistério sugerido em seu subtítulo: “A ascensão e queda da resistência norte-americana à riqueza e ao poder organizados”. Dito de forma simples, o mistério era: por que as pessoas se rebelam em certos momentos e se submetem em outros?

Resistir a todas as humilhações, insultos, ameaças ao bem-estar, exclusão, degradação, desigualdade sistêmica, feudalismo, indignidades e à impotência que são a essência da vida cotidiana de milhões pareceria bastante natural, até inescapável, se não inevitável. Como discordar disso?

Historicamente falando, no entanto, o impulso de ceder também tem se provado não menos natural. Afinal de contas, resistir é frequentemente arriscar a si próprio, seus meios de subsistência e seu modo de viver. Rebelar-se significa silenciar aquelas vozes internas intimidantes que dizem que os poderosos têm o direito de governar em virtude de sua sabedoria, riqueza e tudo que o costume imemorial decreta. O medo naturalmente vence.

Neste contexto, então, por que em determinados momentos históricos os norte-americanos mostram uma impressionante habilidade para se rebelar e em outros, de se submeter?

Para responder esta questão, explorei aqueles anos da primeira era dourada do século 19 em que milhões de norte-americanos tomaram as ruas para protestar, com frequência diante do poder armado do Estado, e o período da última parte do século 20 e os primeiros anos deste século, quando o selo “a era da submissão” parece fazer todo sentido –até que, em 2016, já não faz.

Considere este ensaio um pós-escrito daquele trabalho, minha talvez tardia  conclusão de que a era da submissão chegou a fim. Milhões estão agora sentindo o Bern e torcendo por The Donald. Talvez eu devesse ter prestado mais atenção aos primeiros sinais do que estava por vir quando terminei meu livro: o Tea Party na direita e, na esquerda, Occupy Wall Street, greves de trabalhadores mal pagos, movimentos pelo salário mínimo e pela renda mínima, vitórias eleitorais de progressistas urbanos, o surgimento do ativismo ambiental e a erupção do movimento Black Lives Matter na tarde de sua publicação.

Mas quando você vive tanto tempo à sombra da submissão, onde as esperanças vão morrer ou no mínimo crescer de forma doentia, você não se dá conta dessas coisas. Afinal, se a história tem uma lógica, pode permanecer tão profundamente escondida que pode ser indecifrável… até que morde. Então, por exemplo, se alguém tivesse feito um raio-X da sociedade norte-americana em 1932, no fundo da Grande Depressão, aquela imagem iria revelar um corpo político invadido por desespero, cinismo, fatalismo e medo –em uma palavra, submissão, um comportamento que jogara sombras sobre a terra desde a “black Tuesday” e o colapso da bolsa de valores em 1929.

blacktuesday

(Crianças pedem emprego para os pais na Grande Depressão, em 1937. Foto: Minnesota Historical Society)

Se o mesmo raio-X fosse tomado em 1934, apenas dois anos depois, revelaria uma tempestade de greves massivas, greves gerais, operações tartaruga, greves de aluguel, ocupações de minas de carvão e utensílios por pessoas que estavam com frio e sem luz, marchas de desempregados, e uma urgência geral de derrubar o ancien régime; em uma palavra, rebelião. Sendo assim, o equilíbrio de uma sociedade pode alternar fases em uma piscada de olho e sem aparente aviso (apesar de, em retrospectiva, historiadores e outros explorarem as razões pelas quais todo mundo deveria ter visto a coisa se aproximando).

Liberalismo vs. Liberalismo

Prevista ou não, a nova era de rebelião começou e ameaça o status quo à esquerda e à direita. Talvez seu mais chocante aspecto seja que as pessoas estão com armas na mão contra o liberalismo (no sentido norte-americano, mais para “progressismo).

Isto não faz sentido, certo? Como pode ser assim se, quando novembro chegar, a rainha do liberalismo enfrentará o bilionário porta-estandarte do republicanismo? No final é a mesma velha história, certo? Progressista contra conservador.

Bem, não exatamente. Se você pensa em Hillary como a “liberal de limousine” (algo como “esquerda caviar”) desta campanha eleitoral, e The Donald como o direitista “populista em terno de risca de giz”, e considera como cada um deles galgou seu caminho ao topo e quem eles tiveram que impedir que chegasse lá, um retrato diferente emerge. Clinton herdou o manto de um liberalismo que tem esburacado a economia americana e metastizado o estado de segurança nacional. Isto tem confinado os remanescentes de qualquer igualitarismo genuíno no sótão do Partido Democrata, para proteger os interesses ocultos da oligarquia dominante. Esta elite não se incomoda com igualdade racial e de gênero desde que não prejudiquem o lucro, que é, afinal de contas, a característica definidora dos campeões do liberalismo de limousine de Hillary. Trump canaliza a hostilidade gerada pela indiferença neoliberal com o bem-estar da classe trabalhadora e seu desprezo pouco oculto pela América profunda, em um anti-establishmentismo racialmente impregnado. Enquanto isso, Bernie Sanders ataca o liberalismo de Clinton por outro ângulo. O liberalismo está, em outras palavras, sitiado.

NYC action in solidarity with Ferguson. Mo, encouraging a boycott of Black Friday Consumerism.

O olhar dos 1960’s sobre o Liberalismo

Que esquisito! Durante décadas os “progressistas” estiveram defendendo as conquistas da reforma liberal do assalto impiedoso de um ascendente conservadorismo. É duro lembrar que a equação Liberal vs. Conservador nem sempre foi aplicada (e pode não ser novamente).

Volte à metade dos anos 1960, entretanto, e o campo de batalha não parece tão diferente do de hoje. Era um período em que o movimento contra a Guerra do Vietnã denunciaram o liberalismo por seu imperialismo em nome da democracia, enquanto os movimentos pelos direitos civis e o black power o denunciaram por sua aliança política com segregacionistas do Sul.

Naqueles anos, a Nova Esquerda mantinha seus postos avançados em vizinhanças castigadas, onde o orgulho liberal sobre os EUA serem uma “sociedade promissora” parecia uma piada cruel. Estudantes ocupavam os campos universitários para dizer não à burocratização da educação superior e à submissão da universidade a outra potência liberal, o complexo industrial militar. As mulheres desfizeram o nó do conceito liberal que amarrava o núcleo familiar em uma hierarquia de gênero. A contracultura exibiu seu desprezo pelo sentido de decência do liberalismo em milhares de formas. Cortes de cabelo convencionais, contratos maritais, inibições sexuais, ambições profissionais, ortodoxias religiosas, protocolos sobre a forma de vestir, tabus raciais, proibições químicas… Nada escapou ileso.

O liberalismo, porém, se reviu. E, desde então, levou o crédito pela maioria das reformas associadas com aquela época. As leis dos direitos civis, a guerra contra a pobreza (incluindo Medicare e Medicaid), os direitos das mulheres, as políticas de ação afirmativa e o fim da discriminação cultural são agora parte de rigueur dos currículos dos presidentes democratas e dos mais importantes políticos do partido, dos que dirigem a mídia hegemônica, dos diretores das fundações liberais, dos presidentes das universidades da Ivy League, de teólogos e clérigos sofisticados, e de muitos outros que carregam orgulhosamente a bandeira do liberalismo. E eles de fato merecem parte do crédito, genuinamente representam aquele “Bern” do passado, clamando por direitos iguais antes da lei.

Mais importante: aquelas elites liberais foram espertas o suficiente ou maleáveis o suficiente, ou ambas as coisas, para surfar na onda de rebelião daquela época. Esperteza e flexibilidade, contudo, são apenas parte da resposta à questão: por que o liberalismo da metade do século 20 conseguiu se reformar a si mesmo em vez de se esfacelar sob a pressão dos 1960’s? Uma explicação mais profunda pode ser que as insurreições daqueles anos atacaram o liberalismo – mas no final das contas em seu favor. Explicitamente algumas vezes (como no Discurso de Port Huron, aquele documento fundador da Nova Esquerda, Estudantes Por Uma Sociedade Democrática), outras vezes em consequência, as rebeliões daquele momento demandaram que a ordem liberal vivesse de acordo com sua própria crença sagrada de liberdade, igualdade e busca da felicidade.

A demanda para fazer a abertura do sistema tornou-se o coração e a alma da próxima fase do liberalismo, a urgência de empoderar o livre indivíduo. Hoje temos que reconhecer isso como um clássico desejo clintonista para que todos desfrutassem da “corrida para o topo”.

Olhando em retrospectiva, frequentemente se trata os anos 1960 como uma era de rebelião jovem. Mas, mais do que isso, deveria ser entendido, em parte, como uma versão norte-americana de Pais e Filhos (para não falar de mães e filhas). Uma geração mais velha tinha criado o New Deal, por si só um ato de rebeldia histórica. Quando isso aconteceu, não combinou com um Partido Democrata cuja asa sulista, impregnada da antiga confederação segregacionista, repousava sobre as leis e crenças de Jim Crow. Nem as reformas de bem-estar social do New Deal –que previam um provedor/chefe de família masculino, enquanto excluía destas proteções as classes mais baixas, especialmente (mas não só) aquelas com a cor da pele “errada”–, combinam com um anseio por igualdade.

Além do mais, o New Deal salvou a economia capitalista decaída na Grande Depressão instalando uma política econômica de consumo de massas. Uma conquista material maravilhosa foi também um acontecimento incapacitante, nutrindo uma cultura de individualismo em busca de status e destruidora do senso de solidariedade social que tinha feito o New Deal possível.  Finalmente, nos anos da guerra fria, se tornou claro que a prosperidade e a democracia em casa dependiam de uma relação imperialista com o resto do mundo e a ocupação militar do planeta. Na famosa frase do publisher da revista Life, Henry Luce, um “Século Americano” havia nascido.

Levantes contra essa versão calcificante do liberalismo do New Deal fizeram dos 1960 “Os Anos 1960”. As emoções políticas ferviam enquanto os rebeldes enfrentavam um establishment liberal. Os assuntos se tornaram tão quentes que ameaçavam derreter a superfície da vida pública. E, não importa a temperatura, ainda havia uma questão que era difícil de resolver naquele instante: “E se o liberalismo não for o problema?”. Este pensamento estava assumidamente no ar então, colocado não só pela nova e velha e esquerda, mas por Martin Luther King, quem famosamente anunciou seus novos pensamentos sobre capitalismo, pobreza, raça e guerra em discursos como “Beyond Vietnam: A Time to Break Silence.”

A maioria dos rebeldes daquele momento, porém, se agarrou à fé ancestral. No final, foram convencidos de que, uma vez que o equilíbrio fosse restaurado, um liberalismo mais moderno, despojado de suas imperfeições, poderia se tornar um refúgio seguro, sem excluir ninguém. Rejeitados naqueles anos por sua hipocrisia e má fé, ele poderia ser purificado.

Graças a essas rebeliões em massa e os persistentes senão ferozes esforços que se seguiram por décadas, a hipocrisia da exclusão, seja de negros, mulheres, gays ou outros, seria de fato em grande parte encerrada. Ou assim parecia. O liberalismo herdado do New Deal tinha sido purificado –não inteiramente, claro, e não sem aguerrida resistência, mas de novo: nada é perfeito, não é mesmo? Fim da hipocrisia. Fim da estória.

O Elo Perdido

Contudo, no alvorecer do novo milênio, um paradoxo começou a emergir. A sociedade liberal tinha se provado compatível com justiça e oportunidades iguais para todos. Estranhamente, porém, neste subsequente glorioso novo mundo, aquele presidido por Bill Clinton, liberdade, justiça e igualdade pareciam vir em pequenas rações.

Se não era a ordem liberal, alguma coisa estava estragando tudo. As vidas cotidianas do norte-americano comum estavam cada vez mais limitadas pela ansiedade econômica e uma vertiginosa sensação de queda livre social. Eles sentiam estar sendo excluídos e desprezados, privados dos direitos políticos de uma maneira difícil de definir, vigiados no trabalho (se é que tinham um) e provavelmente em outra parte se não tinham, e temerosos do futuro em vez de esperançosos sobre onde este caminho deveria levar.

Corajosos e audazes como foram, raramente os movimentos rebeldes dos fabulosos 1960’s ou aqueles que os seguiram contestaram explicitamente a distribuição de propriedade e poder na sociedade norte-americana. Porque ainda que o liberalismo tenha se provado compatível o suficiente com liberdade, igualdade e democracia, o capitalismo era outro problema.

A elite liberal que levou o crédito pela abertura daquela corrida para o topo tinha também chefiado o capitalismo neoliberal que tinha, por décadas, prejudicado a vida da classe trabalhadora de todas as raças. (Inclusive, hoje em dia, Hillary gasta um enorme esforço tentando diminuir o legado do encarceramento em massa promovido por seu marido) Mas os republicanos têm mais do que participação nisso; na realidade, eles frequentemente lideraram a implantação de um sistema econômico conduzido pelo mercado e pelas finanças que produziram poucos “vencedores” e legiões de “perdedores”. Ambos os partidos advogaram um mercado desregulado, o livre comércio global, a terceirização da manufatura e de outras indústrias, a privatização dos serviços públicos e o desmantelamento da rede de proteção social. Tudo isso junto estrangulou pequenas e grandes cidades, assim como regiões inteiras (pense no chamado “cinturão da ferrugem” norte-americano) e modos de vida.

Neste processo, a tradição do Partido Democrata do New Deal de resistir à exploração econômica e à desigualdade se evaporou, enquanto os “novos Democratas” da era Clinton e posterior, assim como muitos dos ocupantes das salas de reuniões da Fortune 500 e dos fundos de investimento continuavam a defender direitos iguais para todos. Eles condenavam tentativas conservadoras de acabar com a proteção contra a discriminação sexual, racial e de gênero; mas uma coisa que eles não fizeram –nenhum deles– foi perturbar a tranquilidade do 1%.

E o que a liberdade e a igualdade significam diante disso? Para os que puderam –graças a esses avanços– participar da “corrida para o topo”, significa um monte. Para muitos milhões mais, no entanto, que estiveram na escada rolante para baixo ou que já estavam perto dos degraus mais baixos da sociedade, isto era uma gozação, uma promessa vã, algo (como George Carlin notou certa vez) que nós ainda chamamos de “sonho americano” porque “temos que estar dormindo para acreditar nele”.

Envoltos neste doloroso dilema, os novos democratas pareciam feitos para a alcunha já existente –um tipo de maldição inventada pela direita populista –de “liberal de limousine”. Um emblema da hipocrisia, este apelido foi concebido e usado pela primeira vez em 1969, não pela esquerda, mas pelo então nascente movimento de direita. A imagem de uma turma de meias de seda, nascida, alimentada e educada para liderar, envolta nos circuitos de poder e riqueza, professando uma preocupação pelos excluídos, mas não propensa a abrir mão de nenhum privilégio para aliviar seu sofrimento (ainda que disposta a exigir dos outros que o fizesse), apresentou-se no coração da política americana desde então. Atualmente, tem sido o norte magnético da direita populista.

Luta de classes, estilo americano

Em 1969, o presidente Richard Nixon invocou a “maioria silenciosa” para lutar contra aqueles que logo seriam conhecidos como “liberais de limousine”. Ele esperava mobilizar uma ampla faixa da classe trabalhadora branca e da classe média baixa para o Partido Republicano. Este grupo tinha sido leal ao Partido Democrata do New Deal, mas estava se sentindo crescentemente abandonado por ele e incomodado com a rebeldia daquela era.

Nas décadas que se seguiram, os liberais de limousine experimentariam uma perfeita “piñata”, ao enfrentar os ressentimentos deles sobre a turbulência racial, assim como a desindustrialização e o declínio, além das queixas sobre o desaparecimento da “família tradicional” e seus supostos valores morais. Dessa forma, o Partido Republicano ganhou uma parte substancial do voto da classe trabalhadora branca. É bastante claro, em retrospectiva, que este confronto entre a maioria silenciosa e o liberalismo de limousine sempre foi uma forma norte-americana de luta de classes.

Nixon provou ser uma espécie de gênio político e sua jogada funcionou espantosamente bem… até que não mais. Seguindo seu exemplo, o alto comando republicano logo entendeu que agitar a bandeira vermelha do “liberalismo de limousine” acendia paixões e conquistava votos. Eles, no entanto, nunca tiveram a menor intenção de realmente resolver as circunstâncias deteriorantes daquela maioria silenciosa. As figuras de liderança do partido estavam muito mais comprometidas com a defesa dos interesses da América corporativa e das classes altas.

Suas atitudes, a carne vermelha que atiraram a seus seguidores nas “guerras culturais”, somente intensificaram as paixões daquela era até que, no rescaldo da crise financeira de 2007 e da Grande Recessão, explodiram de uma maneira que a elite republicana não soube como lidar. O que começou como uma criatura deles, formada no cinismo e nos recalques e sentimentos sombrios do próprio Nixon sobre a forma como o establishment liberal o tinha desprezado, terminou se voltando contra seus fabricantes.

A “maioria silenciosa” não se manteve mais convenientemente silenciosa. O Tea Party uivou sobre todo tipo de establishment político na cama com Wall Street, os capitalistas de compadrio, os depravados culturais e sexuais, os livres comerciantes que nem piscaram diante dos postos de trabalho que incineraram, os anti-impostos que nunca tinham encontrado um incentivo fiscal que não amassem, e os detratores do Estado que viviam de subsídios estatais. Em um código postal bem distante, uma privilegiada fatia de norte-americanos que tinham jogado o jogo do sistema, olhava incrédula para a massa dos anteriormente crédulos e agora indignados.

Neste processo, o Partido Republicano se despedaçou e foi The Donald quem magicamente montou naquela escada rolante da Trump Tower e desceu até o chão para catar as peças. Sua falta de reverência para com a autoridade estabelecida funcionou. Sua misoginia e racismo funcionaram. Seus bilhões funcionaram para os milhões que tinham crescido sob a influência de todos aqueles celebrados conquistadores de Wall Street em sua segunda era dourada. Seu jeito de andar na ponta dos pés ao redor da seguridade social funcionou com aqueles cuja carência e falta de lógica foram capturadas pela pessoa que memoravelmente disse a um parlamentar do Partido Republicano: “tire as mãos do governo do meu Medicare”. Mais que tudo, seu estilo bombástico e fanfarrão funcionou para milhões fartos da desmoralização, da paralisia e da impotência. Eles sentiram The Donald.

No confronto entre o populismo de direita e o neoliberalismo, legiões de Tea Party e Trumpistas agora achavam os CEOs da Fortune 500 moralmente ofensivos e uma ameaça econômica, aumentaram sua ira contra os resgates do Federal Reserve, e se inflamaram com as múltiplas crises do livre comércio global e os tratados que vinham com ele. Ao lado de tais posições, está a fantasia de um velho capitalismo, mais amistoso com o jeito que eles acham que a América costumava ser. Eles podem ser chamados de “anti-capitalistas em nome do capitalismo”.

Outros –frequentemente seus vizinhos em comunidades esvaziadas de bons empregos e aparentemente sob ataque– estão sentindo o Bern. Isto também representa um outro ataque ao neoliberalismo da variedade limousine. Bernie Sanders orgulhosamente classifica a si mesmo como socialista, ainda que suas ideias programáticas ecoem como uma versão levemente esquerdista do New Deal. Ainda assim, ousar falar a palavra proibida “socialismo” em público, subir nela e sair correndo, excitando o engajamento fervoroso de milhões, é impressionante –na realidade, além da imaginação de qualquer América recente.

A campanha de Sanders marcou sua posição contra o liberalismo da elite de Clinton. Isso tocou tão fundo porque o candidato, com todo seu carisma e integridade de vovô, repetidamente insistindo que os americanos deveriam olhar sob a superfície de um capitalismo liberal que é econômica e eticamente falido, joga um jogo de confiança política, até mesmo quando condescende ao “homem esquecido”.

Até certo ponto, portanto, Trump e Sanders estão competindo pelas mesmos eleitores, o que não deveria surpreender ninguém, dada a forma como se espalharam os danos colaterais do neoliberalismo. Não esqueça que, durante a Grande Depressão, à medida que os Nazistas iam ficando mais poderosos, seu partido, os Nacional-Socialistas, não só incorporaram aquela palavra –“socialismo”– como competiram com os socialistas e comunistas pelo apoio e pelos votos dos sofridos trabalhadores alemães. Houve inclusive tempos (quando não estavam matando uns aos outros nas ruas) que realizaram manifestações conjuntas.

Trump é, naturalmente, um demagogo inconsequente, mentiroso serial, um niilista que não acredita em nada a não ser em si mesmo. Sanders, por outro lado, sabe do que fala. No campo da justiça econômica, ele tem sido um disco arranhado por mais de um quarto de século, mesmo que ninguém além dos limites de Vermont tenha prestado atenção nele até recentemente. Ele agora é largamente aprovado e aplaudido por suas visões.

Hillary Clinton é alvo da desconfiança generalizada. Sanders tem constantemente superado ela eleitoralmente nas pesquisas contra oponentes republicanos à presidência porque ela é uma liberal de limousine cuja carreira se queimou em termos de confiança em um nível impressionante. E, mais importante que isso, a rebelião que empurra Sanders para cima não tem medo de colocar o capitalismo no banco dos réus. Trump dificilmente irá fazê-lo, mas a enfermidade do status quo neoliberal também fez dele uma força a ser reconhecida. Para onde quer que se olhe, a era da submissão acabou.

 


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