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O golpe BBB

Uma das características dos golpes é, claro, prescindir do voto popular em favor de um colégio eleitoral, onde poucos escolhem em nome da maioria. As eleições são deslegitimadas e os votos que milhões de pessoas deram são jogados na lata do lixo. Nem mesmo o mais aloprado dos direitistas pode negar que é o que […]

Cynara Menezes
30 de abril de 2016, 13h22
dilmatemer

(Montagem @magnesio)

Uma das características dos golpes é, claro, prescindir do voto popular em favor de um colégio eleitoral, onde poucos escolhem em nome da maioria. As eleições são deslegitimadas e os votos que milhões de pessoas deram são jogados na lata do lixo. Nem mesmo o mais aloprado dos direitistas pode negar que é o que está acontecendo agora no Brasil: os 54,5 milhões de votos que Dilma Rousseff recebeu de nada valem diante dos 367 que foram dados pela sua derrubada do cargo na Câmara ou os que seguramente virão no Senado.

Era assim que acontecia na época da ditadura: deputados e senadores votavam para “eleger” ditadores em nome da população. Foi a maneira que os militares, com o apoio explícito da rede Globo, encontraram para dar uma cara de “democracia” ao regime autoritário em que generais se sucediam no comando do país. Enquanto o povo era subtraído do direito ao voto, a Globo tinha a função de iludi-lo, dando suporte à farsa da falsa democracia dos colégios eleitorais à medida que crescia e enriquecia bajulando os militares e chamando o golpe de “revolução”, assim como hoje apela ao eufemismo do “impeachment”. É uma característica dos covardes não assumir o que fazem.

Sob a influência nefasta da mídia hegemônica, muitos brasileiros defendem a queda de Dilma não com base em seu comportamento na presidência –mesmo porque não há uma prova sequer de corrupção contra ela–, mas com a desculpa de que é “impopular”. A honestidade da presidenta é tão evidente que tiveram de recorrer a um argumento contábil falacioso para justificar o pedido de impeachment. Mas, como o argumento das “pedaladas” tampouco pegou, os golpistas se aferram à falta de popularidade de Dilma, medida por pesquisas que nem sabemos se são realmente corretas e independentes o suficiente para que possamos confiar cegamente nelas.

Em entrevista à jornalista da CNN Christiane Amanpour, a presidenta se queixou de que retirar uma governante do cargo com base em pesquisas é antidemocrático. “Não pode ser simplesmente você fazer uma pesquisa. Um processo eleitoral é o momento de debate, não é uma fotografia congelada de um determinado momento em que um país passa. Você já imaginou se a moda do impeachment pega? Cada vez que um presidente tiver flutuação de popularidade, ele vai ser retirado do cargo”, criticou Dilma.

Ora, se as urnas valem menos do que pesquisas feitas por institutos de opinião, para que eleições? Podemos simplesmente trocar a eleição para presidente, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores por sondagens do Datafolha e do Ibope, que tal? Seria até mais econômico: quando chegar a época de substituir os governantes, encomendamos uma pesquisa aos institutos e damos posse a quem aparecer em primeiro lugar. O fato de Datafolha e Ibope terem errado várias vezes e suas metodologias serem contestadas ou a coincidência de eles estarem ligados a partes interessadas no processo é apenas um detalhe.

Melhor: que tal contratarmos a Globo para fazer um grande Big Brother em vez de eleições? Colocamos os candidatos dentro de uma casa e vamos eliminando um a um em paredões até chegar ao vencedor. Não seria mais prático e honesto dar à Globo o comando do processo de uma vez? Não é exatamente o que estamos vivendo, um golpe BBB, onde apenas uma ínfima parcela da população se manifesta para escolher quem deve governar o Brasil?

Os paralelos sobre nossa situação atual com o reality da Globo são inegáveis. Primeiro porque é a emissora quem está à frente da tentativa de derrubar uma presidente eleita, de olho nos lucros que terá com isso, como ocorre no programa. Depois, porque a Globo, como faz no BBB, manipula a opinião dos telespectadores contra este ou aquele participante utilizando edições tendenciosas, igualzinho ao que tem feito com Dilma e com Lula. Lula é o “bêbado” das festas lamentáveis promovidas pela Globo no BBB, sempre mostrado da pior forma possível. Dilma é a “burrinha” da casa, a que fala coisas sem nexo e que não se sabe como foi parar ali. Paredão neles!

Para completar a analogia, BBB é o apelido daqueles políticos “preocupadíssimos com o país” que estão à frente do processo de impeachment no Congresso. Os famosos parlamentares da bancada do Boi, da Bala e da Bíblia: ruralistas, lobistas da indústria das armas e fundamentalistas religiosos que não estão nem aí para a mensagem de Cristo, a não ser na hora de pedir o dízimo e se forrar de dinheiro ou quando é para perseguir homossexuais. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aliás, é um deles.

A ideia de democracia dos que querem derrubar Dilma é a mesma dos que derrubaram João Goulart ou, mais recentemente, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo: trata o povo como débil mental, que não sabe votar e por isso sua opinião pouco importa. Para que ouvir os cidadãos se a Globo e seus asseclas na política sabem o que é “melhor” para o país? A única diferença deste processo para o BBB é que o vencedor não ganhará apenas 1,5 milhão. Ganhará um país inteiro para dilapidar e vender, sob o olhar benevolente e cúmplice da emissora do plim-plim.

 

 


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