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O médico e o monstro: no público, Dr. Jekyll; nos chats privados, Mr. Hyde

É mesmo possível possuir uma persona pública e uma persona privada que só se revela nos grupos fechados das redes sociais?

Cenas do clássico O Médico e o Monstro, de 1920
Cynara Menezes
28 de agosto de 2019, 18h05

A revelação, pelo The Intercept Brasil e pelo portal UOL, das macabras conversas entre os procuradores da Lava-Jato que zombavam do luto do ex-presidente Lula em relação às mortes de sua mulher, do irmão e do netinho de 7 anos, nos coloca em um dilema ético sobre os tempos em que vivemos. Poderia alguém possuir uma persona pública, onde se comporta como um cidadão de bem, cordato e cumpridor das leis, e uma persona privada, que só se revela em seus chats pessoais, onde é preconceituoso, desumano e cruel? Então somos todos, na intimidade, “tios do pavê”?

Temos direito a ser racistas, classistas, machistas, difamadores e canalhas em privado porque estamos num grupo fechado? Me parece extremamente contraditório. Não é entre quatro paredes que mostramos quem realmente somos?

Na verdade foram dois casos que me chamaram a atenção para a questão. No primeiro, no início da semana, um jornalista do grupo Globo publicou em um grupo privado no facebook a “suposição”, baseado sabe-se lá em quê, de que a escritora Fernanda Young, morta após uma crise asmática no último final de semana, na verdade teria falecido em consequência de uma overdose. Como o print veio à tona, e só após isso, o jornalista achou por bem se desculpar com a família da atingida destacando que o comentário canalha havia sido feito “em privado”.

O mesmo aconteceu com a procuradora Jerusa Viecili: uma das flagradas pela Vaza-Jato, Jerusa recorreu ao twitter para se desculpar com o ex-presidente Lula pelos comentários zombeteiros em relação à morte de Marisa (“querem que eu fique para o enterro?”) e o netinho Artur (“preparem para nova novela ida ao velório”) no grupo privado de conversas entre os procuradores da Lava-Jato –se é que cabe “privado” em um chat bancado com dinheiro público, já que até os celulares deles são pagos por nós.

Muitas pessoas vieram em socorro de ambos depois dos pedidos de desculpa, dizendo ser “louvável” reconhecer o erro. Verdade. É sempre nobre admitir ter errado, e, no caso da procuradora, ela foi a única do grupo a fazê-lo até agora.

Mas a maioria também ponderou que “todo mundo” já disse coisas das quais se arrepende em conversas privadas. Alto lá! Quer dizer que em situações privadas estamos autorizados a mostrar facetas que jamais teríamos coragem de mostrar em público? Temos direito a ser racistas, classistas, machistas, difamadores, homofóbicos e canalhas e isso não nos representa porque estamos num grupo fechado? Me parece extremamente contraditório. Não é entre quatro paredes que mostramos quem realmente somos?

Comentando o assunto no twitter, vários leitores trouxeram à memória duas frases clássicas. A primeira delas, do filósofo grego Epicuro, que diz que “caráter é aquilo que você é quando ninguém está olhando”; e quem há de negar a verdade destas palavras? A segunda foi o dito “vícios privados, virtudes públicas”, uma crítica contundente à hipocrisia dos políticos em todos os tempos, capazes de se comportar de uma forma à luz dos holofotes e de outra, completamente distinta, nas sombras.

A pessoa que se manifesta de forma torpe no privado é a mesma que se comporta como fidalgo em público. O fato de saber que não está sendo observada apenas faz com que esta pessoa se sinta à vontade para mostrar quem realmente é

Já virou lugar comum dizer que o anonimato das redes sociais fez vir à superfície o troll dentro de cada um de nós, mas a questão que coloco é a seguinte: a pessoa que se manifesta de forma abusiva em chats privados é diferente da pessoa que se manifesta de forma respeitosa em conversas públicas? É possível ser duas pessoas diferentes, como o Médico e o Monstro do romance de Robert Louis Stevenson, a depender se a conversa é pública ou não? Se for para todo mundo ver, Dr. Jekyll; escondido e protegido por seu grupo de iguais, aí se sente à vontade para colocar seu Mr. Hyde para fora, sem que jamais respingue no outro.

Não acredito nisso. Para mim, a pessoa que se manifesta de forma torpe no privado é a mesma que se comporta como fidalgo em público. O fato de saber que não está sendo observada apenas faz com que ela se sinta à vontade para mostrar quem realmente é, exatamente como observou Epicuro. Vejo um desvio de caráter gravíssimo em quem, flagrado dizendo barbaridades, recorre ao subterfúgio de dizer que só o fez por estar “num chat privado”. E pedir desculpas não é capaz de curar desvios de caráter.

 

 


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(3) comentários Escrever comentário

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Paulo Roberto Martins em 28/08/2019 - 18h47 comentou:

Só pedem desculpas por medo das indenizações.Não é por mudarem,de repente,assim no mais,de caráter.São crápulas,pulhas,que debocham e vomitam suas deficiências de formação usando dinheiro do povão que lhes serve de capacho.Que falta faz um muro e um Guevara que mandaria todos estes ordinários para o outro mundo!

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Lana em 29/08/2019 - 06h02 comentou:

Texto maravilhoso

Responder

Pedro Gabriel Portugal Junior em 30/08/2019 - 07h38 comentou:

Muito bom Cynara. Na verdade são uns hipócritas.

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