Socialista Morena
Feminismo

O poema feminista que está fazendo a extrema direita querer cassar uma deputada

Sem entender poema, deputados de extrema direita incitam ódio contra deputada do PSOL nas redes sociais

A deputada Isa Penna na tribuna. Foto: reprodução
Cynara Menezes
04 de outubro de 2019, 16h26

É, para quem tem mais que dois neurônios, um protesto feminista sobre como o machismo vê a mulher. Mas a leitura do poema da mineira Helena Ferreira pela deputada estadual Isa Penna, do PSOL, na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo, levou um deputado de extrema direita a pedir a cassação da colega por “quebra de decoro”.

Isa recebeu o apoio imediato de lideranças do PSOL.

O deputado Douglas Garcia (PSL), o mesmo que insultou uma colega trans, Erica Malunguinho, também do PSOL, e levou uma advertência do Conselho de Ética, é o autor do pedido de cassação. Na manhã desta sexta-feira, ele incitou seguidores no twitter ao ódio em massa contra a deputada, utilizando a hashtag #IsaPennaQuebrouDecoro.

Outro nome da jovem extrema direita, o deputado federal Filipe Barros, também do PSL, se somou aos ataques contra Isa Penna no twitter, de forma machista e ofensiva.

O problema, no fundo, é que os deputados não entenderam o poema. Ao falar “sou puta”, o que a poeta Helena denuncia, na verdade, é o ponto de vista do homem em relação à mulher e ao direito dela de ser LIVRE. É claro como água. Foi isso que a deputada, que é feminista, quis transmitir. Onde está a quebra de decoro nisso?

Isa Penna contou ao site que se sente “identificada” com o poema, que leu num livreto durante um congresso do partido e ficou na memória. “Eu amo poemas, e este super me chamou a atenção. É um poema forte, né? Impactante.”

Encontrei essa outra leitura do poema no youtube da Ana Clara Preta. Bonito, não?

Leia você mesmo e entenda como a indignação e o escândalo da extrema direita em torno do poema lido pela deputada Isa Penna não passam de um misto de falso moralismo, antifeminismo –e burrice.

Sou puta, sou mulher (Helena Ferreira)

Quando uso a boca vermelha
Meu salto agulha
E meu vestido preto.
Sou puta
Mordo no final do beijo
Não fico reprimindo desejo
E nem me escondo na aparência de menina.
Sou uma puta de primeira
Acordo às 6:30
Pego ônibus debaixo de chuva
Não dependo de salário de macho
E compro a pílula no final do mês.
Sou uma puta com P maiúsculo
Dispenso o compromisso
Opto pela independência
Não morro de amor
Acordo sozinha
Cresço sozinha
Vivo na minha
Bebo em um bar de esquina
Vomito no chão da cozinha.
Sou uma putinha
Passo a noite em seus braços
Mas não me prendo no laço
Que você quer me prender.
Sou puta
Você tem o meu corpo
Porque eu quis te dar
E quando essa noite acabar
Eu não vou te pertencer
E se de mim você falar
Eu não vou me importar
Porque um homem que não me faz gozar
Nunca terá meu endereço.
E não é gozo de buceta
É gozo de alma
É gozo de vida
É me fazer sentir amada
Valorizada
E merecida
E se de puta você me chamar
Eu vou agradecer.
Porque a puta aqui foi criada
Por uma puta brasileira
Que ralava pra sustentar os filhos
E sofria de racismo na feira
Foi espancada e desmerecida
E mesmo sofrida
Sorria o dia inteiro
Uma puta mulher ela foi
E puta também eu quero ser.
Porque ser mulher independente
Resolvida
Segura
Divertida
Colorida
E verdadeira
Assusta os homens
E os machos
Faz acontecer um alvoroço.
Onde já se viu mulher com voz?
Tem que ser prendada e educada
E se por acaso for “amada”
Tem direito de ser morta pelo parceiro
Cachorra adestrada pelo povo brasileiro
Sai pelada na revista
Excita
Dança
Bate uma
Cai de boca
Mama ele e os amigos
E depois vai ser encontrada num bueiro
Num beco
Estuprada
Porque tava de batom vermelho
Tava pedindo
Foi merecido
E se foi crime “passional”
Pobre do rapaz
Apaixonado estragou a própria vida.
Por isso que eu sou puta
Porque sou forte
Sou guerreira
Não sou reprimida
Nem calada
Sou feminista
Sou revoltada
Indignada
E sou rotulada assim
Como PUTA!
Então que eu seja puta
E não menos do que isso.

 


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(17) comentários Escrever comentário

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Luci Cléa Soalheiro em 05/10/2019 - 12h04 comentou:

No meu entendimento, putas não podem ser feministas, pois sobrevivem do homem, e, consequentemente, do machismo.

Responder

Sandra em 06/10/2019 - 11h39 comentou:

Entendo que este tipo de comportamento pode, também, ter como um dos elementos fundantes uma educação nacional baseada em valores distantes dos valores civilizatórios de outras matrizes que compõem a sociedade brasileira. Não somos nórdicos, mas os dominadores se colocam como se os valores civilizatórios ocidentais fossem a única visão de mundo possivel. E aí da estes nós, não, estrangulamentos. As populações negras e indigenas sempre foram usadas física, emocional e culturalmente. A chamada “rigidez das carnes”, a mulher “fogosa e voluptuosa”, a “ou tinha fácil que tá querendo…” São conceitos construídos usando o corpo da mulher escravizada que era violada pelo sistema escravista que perpetua na cabeça, corações e poder político dos agora, mas desde sempre, conservadores, estes que enchem os bordéis e grupos pedofilia.
Voltando a educação. Eles não sabem interpretar por serem fruto de uma alfabetização funcional desprovida de contextualizacao sociohistorica.
A tal “bribria” usada como condicionador mental, fisico e cultural, visa a manutencao do que está posto: dominação, escravidão, capitalismo, neopentecostalismo, neoliberalismo, camisa de força, mordaça, correntes mentais.
Acorda povo, um dia acordara e verá que pagará um aluguel pelo meio fio que descansará seu corpo moído.

Responder

Paulo em 06/10/2019 - 12h28 comentou:

É um desserviço à causa da esquerda. Não é preciso ser de direita para contestar esse “poema”, basta ter senso de ridículo. Não gostei dessa forma de protesto. Para mim, é algo abjeto, sujo e sem sentido. Não sou direitista, mas não me sinto obrigado a aceitar qualquer porcaria que se faz em nome da esquerda ou seja lá do que for.

Responder

    Cynara Menezes em 06/10/2019 - 19h51 comentou:

    a ignorância não é exclusividade da extrema direita, já sabemos disso

Maria Amelia em 07/10/2019 - 12h22 comentou:

Tem gente com tão baixa capacidade de compreensão do que lê, que nem devia abrir a boca, para não passar vergonha.
Mas, por outro lado, serve para mostrar que o nosso sistema educacional ainda é muito fraco…

Responder

jonathan em 07/10/2019 - 15h06 comentou:

Cara Luci Cléa Soalheiro, se hoje voce aqui pode escrever, é porque em algum momento alguem lutou por voce. Para entender, devemos ir a origem da palavra PUTA, que outrora era relacionado feminilidade SAGRADA, pitonisas. Com o modificação do domínio de Roma, a adoradoras de APOLO, Deus do SOL, a Pitonisas foram “profanadas”, e as Sacerdotisas de Apolo, foram varridas do sagrado, assim como as mulheres em geral “se tornam” a desgraça dos homens, (leia Martelo das Feiticeiras). No momento que as mulheres se unem e emergem de um contexto de repressões ocorre uma coisa chamada polarização. E isto me leva a ter fé que o ato da Deputada eh necessário, por ser apenas uma manifestação de yng/yang, e que quando os conservadores, herdeiros de velhos habitos e costumes: por conveniencia , hipocrisia, medo, culpa, conseguirem se libertar, talvez, a manifestação com poetas tipos SOU PUTA SOU MULHER não farão mais sentido.

Responder

Evaldo em 08/10/2019 - 17h42 comentou:

Pois, diferentemente da maioria dos comentários que me precederam, achei o poema lindo, forte, marcante! Mais: moderno, contemporâneo, desafiante! Rompeu como o senso comum, foi extravagante como é necessário para superar os tabus cotidianos…
Parabéns à autora pelos versos em “papo reto”, à deputada pela coragem de tê-lo lido num lugar tão dominado pelo machismo, formalismo, tão hipócrita…
Não se preocupe com quebra de decoro. Isso é choro do atraso e mesmo vindo de gente tão conservadora é só choro. E o choro é livre! Assim como é livre e imune o direito de falar o que pensa no parlatório!

Responder

HELIO em 08/10/2019 - 22h38 comentou:

Esses bolsonaristas são um bando de hipócritas. O deputado fica cheio de pruridos pela declamação de um poema. Poema pesado, contra o machismo. Um dos chingamentos mais comuns do mundo mais machista contra qualquer mulher que cruze a frente é : “sua puta”. Mas a hipocrisia maior é de seu líder maior o Bolsonaro, postou no carnaval desse ano, no twitter presidencial, cenas escatológicas de sexo(Golden shower), e nesse caso, o Sr deputado teria toda razão em pedir a cassação de seu “mito”.

Responder

JOSUE CARNEIRO em 09/10/2019 - 21h51 comentou:

Eu entendi!
Ela quis dizer que é uma PUTA MULHER!!! A mulher MAIOR. Sem comparações. Só isso!

Responder

Núbia em 10/10/2019 - 01h21 comentou:

E esquecer que o maior reflexo do machismo é a violência contra a mulher , que ceifa inúmeras vidas todos os dias. E não um poema declamado em uma casa legislativa. Não me representa.

Responder

Luci Cléa Soalheiro em 10/10/2019 - 16h46 comentou:

E acho mais: que as putas exploram a carência dos homens.

Responder

Luci Cléa Soalheiro em 10/10/2019 - 17h15 comentou:

Jonathan, você é tão chato, que só mesmo putas pra te aguentar.

Responder

Denis em 17/10/2019 - 11h16 comentou:

bobinhos. Ficaram “constrangidos” com as palavras fortes….
Sintomático.
E diz muito.
Não aprendemos NADA. E nem temos coragem de admitir(“nao me representa”, “nao precisa ser de direita pra não gostar”) = PIOR DO QUE SER DE DIREITA.

Responder

Denis em 17/10/2019 - 11h19 comentou:

“E acho mais: que as putas exploram a carência dos homens.”
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Inacreditável!
Mas se frequenta e lê esse blog, deve ter algum resquício que mereça ser salvo.

Responder

Denis em 17/10/2019 - 11h30 comentou:

Tb sou “feminista” da boca pra fora. Eu tb fiquei “incomodado” com o tom forte das afirmações. mas tenho plena consciência disso e desse machismo arraigado em mim. Daí a luta diária e desconstrução dos meus (pré)conceitos.
Simples assim. Meu “incômodo” é resultado do preconceito ainda existente em mim, agora inegável. Mas tenho total consciência disso e luto diariamente comigo mesmo. Eu me digo de esquerda, simpático á causa das mulheres e LGBT, mas fico “constrangido” com uma poema dessas. só me dá mais a certeza de que a mudança está em mim.
Aliás de esquerda e simpático á causa eu sempre fui.
Mas se um poema desse me causa “incômodo”, ainda tenho muiiiiito que aprender.

Responder

Denis em 17/10/2019 - 11h33 comentou:

exatamente, jonathan!!!!
O dia em que esse poema não fizer mais sentifdo, O DIA EM QUE ELE NÃO ME CAUSAR ESSE “CONSTRAGIMENTO MASCULINO”, aí sim teremos avançado nessa questão!!!

Responder

Rodolpho em 07/11/2019 - 13h52 comentou:

Poema ridículo. Se eu fizesse um poema declarando morte aos negros e de supremacia branca, eu poderia declamá- lo lá só porque ele é arte?

Ser arte torna uma coisa inatacável? Não.

Sem contar a falta de consciência crítica do poema. Está claro q o eu poético se põe com objeto sexual e por isso nunca poderia ser amada apenas usada.

O amor verdadeiro é sempre compromissado.

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