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Cultura

O século 20 nos Estados Unidos, em três recortes diferentes através dos quadrinhos

HQ's inspiradas em fatos reais têm como pano de fundo três momentos da história norte-americana: a Grande Depressão, o Vietnã e o surgimento do hip hop

Detalhe de Dias de Areia, de Aymée de Jongh
Piu Gomes
15 de maio de 2023, 15h51

O século 20 em três recortes diferentes através dos quadrinhos, em acontecimentos marcantes que dialogam de alguma maneira com os dias de hoje. No passado mais distante, Aimée de Jongh cria personagens fictícios em Dias de Areia, para contar a saga de John Clark, fotojornalista de Nova York nos anos 30 que é contratado pela FSA (Administração de Segurança Agrícola), para documentar a vida dos fazendeiros duramente atingidos pela Grande Depressão, resultado do crack da Bolsa de 1929.

John é enviado para o Oklahoma, Estado que fazia parte do Dust Bowl, uma região inóspita castigada pela seca e por tempestades de poeira. A poeira não é como a areia, ela se comporta como água. Imagine um oceano sacudido por ondas, cobrindo casas e automóveis, se infiltrando nas frestas de madeira das construções e nos pulmões, causando a morte através da “pneumonia da poeira”.

A poeira não é como a areia, ela se comporta como água. Imagine um oceano sacudido por ondas, cobrindo casas e automóveis, se infiltrando nas frestas de madeira e nos pulmões, causando a morte através da “pneumonia da poeira”. Os Watsons são negros que fugiram dos linchamentos cada vez mais frequentes no Sul para perder as duas filhas para essa doença

Os Watsons são uma das famílias retratadas por John, negros que fugiram dos linchamentos cada vez mais frequentes no Sul para perder as duas filhas para essa doença. Eles planejam migrar para a Califórnia, como fizeram milhares nesse período. Além de tentar melhorar a vida, eles fogem de outra triste síndrome: os habitantes do Dust Bowl começam a ver os rostos das pessoas que perderam nos turbilhões de poeira e têm medo de enlouquecer.

A arte de Aimée é realista e usa uma paleta de cores ocres para narrar o envolvimento cada vez maior de John com seus personagens, num processo em que ele se questiona constantemente: afinal, “quando um fotógrafo se aproxima demais do seu ‘objeto’, ele perde sua objetividade”. A holandesa se vale de pranchas de página inteira, às vezes compondo duplas para expressar os momentos de maior emoção. Ela também fez vasta pesquisa, financiada por uma bolsa da Academia Neerlandesa de Letras, onde pesquisou as fotos originais da FSA.

Num final surpreendente e poético, John não tem mais certeza do valor da fotografia em realmente mudar a vida das pessoas. Planícies paradisíacas, relva verde e ar puro formavam a região do Dust Bowl, mas a chegada de cada vez mais fazendeiros implicou em exploração desmedida e na tragédia climática que se abateu por lá. A chuva voltou em 1939, e as modernas técnicas agrícolas permitem limitar a quantidade de poeira hoje, mas ambientalistas temem um novo Dust Bowl, devido à expansão das terras usadas na agricultura, à frequência das secas e ao aquecimento global.

Kent State – Quatro Mortes em Ohio


Num salto de quatro décadas, Derf Backderf nos leva a Kent State – Quatro Mortes em Ohio. Baseado em sólida pesquisa e em entrevistas com personagens reais, ele constrói um thriller que descreve os cinco dias que culminaram num massacre na Universidade de Kent em 1970, no auge dos protestos contra a guerra do Vietnã. Em 4 de maio, a Guarda Nacional abriu fogo contra os estudantes, matando quatro jovens entre 19 e 20 anos e ferindo outros nove.

No prólogo da HQ, vemos Derf aos 10 anos na sua cidade, próxima da universidade, onde a Guarda Nacional reprime uma greve de caminhoneiros. O clima nos EUA está tenso, após 15 anos de uma guerra no Oriente distante que vai ceifando a juventude norte-americana. O movimento estudantil, liderado pela SDS, a maior organização do momento, convoca manifestações contra o conflito por todo o país. Em Kent State, universidade que passava por um boom de crescimento, os estudantes eram em sua maioria de origem proletária, inconformistas que mantinham uma agitada cena cultural e que são objeto de forte hostilidade dos habitantes conservadores da cidade.

Kent State – Quatro Mortes em Ohio

Em 1970, os EUA espionavam a si próprios: a CIA, através da operação CAOS, criou 300 mil dossiês de cidadãos e organizações durante o Vietnã. Lembrou da ABIN do Jair? O Pentágono tinha mais militares espionando cidadãos “suspeitos” do que governos estrangeiros; o FBI se infiltrava nas universidades e atacava movimentos de esquerda usando métodos ilegais que chegaram ao homicídio de Fred Hampton, líder dos Panteras Negras. Boatos e mentiras alimentavam a paranóia nacional, num ensaio das atuais fake news.

Em 1970, os EUA espionavam a si próprios: a CIA, através da operação CAOS, criou 300 mil dossiês de cidadãos e organizações durante o Vietnã. Lembrou da ABIN do Jair? O Pentágono tinha mais militares espionando cidadãos “suspeitos” do que governos estrangeiros; o FBI se infiltrava nas universidades e atacava movimentos de esquerda

Em 30 de abril, Nixon surpreende a todos quando anuncia a invasão do Camboja, duas semanas depois de dizer que traria as tropas de volta. No dia seguinte, uma sexta à noite, a tensão se instala em Kent após um confronto entre estudantes e a polícia local. O prefeito decide chamar a Guarda Nacional, devido ao temor infundado que exista a participação de “weathermen” no movimento: esse grupo radical estudantil são os terroristas esquecidos da década, que com seus atentados à bomba visando delegacias, prédios públicos e de grandes empresas provocavam o mesmo medo na população e no Estado que os jihadistas hoje. Mas o que ninguém esperava era a sucessão de erros que a Guarda iria cometer.

Num traço P&B realista, Derf vai envolvendo o leitor num crescendo de emoção, abrindo espaço para quadros grandes e pranchas de uma ou duas páginas inteiras, até o violento clímax dos acontecimentos. Uma sequência de texto nos mostra os inacreditáveis desdobramentos do tiroteio, e o epílogo, como Nixon reagiu à tragédia. Sim, você vai lembrar do Jair novamente.

Kent State – Quatro Mortes em Ohio

Outro salto no tempo e chegamos a 1983, ano em que Ed Piskor situa o terceiro volume da sua Hip Hop Genealogia, dando sequência à série que conta as origens do ritmo responsável hoje pelos mais altos números da indústria musical. No início, haviam as gangues de Afrika Bambaataa, as block parties de Kool Herc, passando pela teoria da mixagem de Grandmaster Flash e pelas mutretas da Sugarhilll Records.

As cenas aqui bem poderiam fazer parte de “Get Down”, a série da Netflix dirigida por Baz Luhrmann, que teve o próprio Flash como consultor, fez pouco sucesso e foi cancelada após uma frustrante segunda temporada. Se você ficou órfão dessa história, acompanhe a saga de Piskor. Na segunda parte, em 1981, o hip hop invade as respeitáveis lojas de discos e clubes descolados de Manhattan. Vários rappers começam a ser tratados como pop stars, distanciam-se das origens, dos parques e salões do Bronx, flertam com o mainstream. É então que surge uma jovem dupla do Queens, chamada Run-DMC, para retomar a tradição da rua.

Agora Piskor nos leva para dois anos muito especiais: 1983 e 1984, o momento em que o rap invade o sistema. O Run-DMC bate 250 mil cópias do primeiro single, “It´s like that/Sucker MCS”, e apresentam Jam Master Jay, “o bolado do batidão”, no lado B do segundo single. Os Beastie Boys trocam o punk pelo rap e seu produtor Rick Rubin cria a Def Jam Records ao lado do empresário Russel Simmons, quem transformou três garotos gordinhos nos lendários Fat Boys. Ele também alavancou a carreira de Whodini, que teve disco na Europa produzido, entre outros, por Thomas Dolby.

Hip Hop Genealogia – Vol. 3

Nem só de música vive a HQ, pois o grafitti tem destaque: a lenda Dondi White faz breve aparição, e Martha Cooper e Henry Chalfant, fotógrafos, lançam “Subway Art”, que apesar de vender mais de 500 mil cópias é considerado o livro mais roubado da história. Michael Holman, produtor de TV, realiza o piloto de um programa: “Graffiti Rock” não emplaca nas conservadoras redes americanas mas vira referência no movimento, assim como “Style Wars”, documentário co-produzido pelo Channel 4 inglês, que ao ser exibido num cinema de Nova York ao lado de “Wild Style” (outro filme histórico do movimento), provocam talvez a mais caótica sessão de cinema da história.

Charlie Stettler, um improvável empresário de hip hop –era um branco suíço– produz uma batalha de rap no templo elitista Radio City Music Hall, o que serve de ensaio para “Swatch Watch New York City Fresh Fest”, primeira turnê nacional do gênero. Sim, ele descolou o patrocínio com a marca suíça de relógios que batizou o rolê.

Um  salto no tempo e chegamos a 1983, ano em que Ed Piskor situa o terceiro volume da sua Hip Hop Genealogia, série que conta as origens do ritmo responsável hoje pelos mais altos números da indústria musical. Agora Piskor nos leva para dois anos muito especiais: 1983 e 1984, o momento em que o rap invade o sistema

A arte de Ed Piskor traz um quê de caricatura em cores vibrantes e diagramação mais convencional, para dar ritmo a tantos eventos abordados. Destaque para  incorporar a linguagem das ruas, mesmo que isso implique no falar errado ou na língua presa de Russel Simmons, num dos muito toques de humor encontrados. Até a tradução brasileira tira onda, ao citar a dupla Hermes e Renato num momento importante. A caprichada pesquisa vem no fim do livro, com bibliografia, referências, índice e comentários sobre as letras originais citadas.

Acompanhar como o maior império da atual música norte-americana surgiu dos escombros de uma Nova York quebrada financeiramente e de centros comunitários da Costa Oeste é fascinante, mas novamente o passado nos revisita, uma vez que a intolerância racial parece estar se fortalecendo, ao mesmo tempo em que negros e negras estão no topo da Billboard. Como mostram os quadrinhos, revisitar a história é fundamental para construir o futuro.

Dias de Areia
AUTOR: Aimée de Jongh
Editora Nemo, 288 págs., R$ 84,90

Kent State – Quatro Mortes em Ohio
AUTOR: Derf Backderf
Editora Veneta, 288 págs., R$ 134,90

Hip Hop Genealogia – Vol.3
AUTOR: Ed Piskor
Editora Veneta, 120 págs., R$ 129,90

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