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Os sintomas de que os EUA estão transicionando para uma violenta oligarquia

O contínuo e crescente uso de violência e ameaças de violência se tornou uma epidemia por todo o país desde 2016 e não é por causa de frustração com a pandemia

Seguidora de Donald Trump em Illinois em 2018. Foto: Zachary McGee/CC
Do Alternet
06 de outubro de 2021, 11h31

Por Thom Hartmann, no Alternet
Tradução Maurício Búrigo

Estou sentado no escritório de casa, trabalhando no Daily Rant (uma seção do meu blog) da manhã seguinte, quando ouço o que parece ser um homem na rampa de entrada de casa berrando, a plenos pulmões “sua vaca escrota!” e outras obscenidades utilizadas especificamente em relação às mulheres. Indo até à janela, vi um sujeito de uns 40 anos, com o rosto vermelho de raiva, mostrando o dedo do meio à minha esposa com ambas as mãos e xingando-a enquanto subia no carro e saía cantando os pneus.

Isso é o que acontece em todo país que começa a fazer a transição de ser uma cultura democrática e em geral bem-educada e respeitosa para uma que abraça o autoritarismo ou o fascismo. E sempre começa de cima para baixo: o líder estabelece o tom inicial nos países, assim como nas companhias e famílias

Louise havia chamado um pedreiro local para nos fazer um orçamento de alguns reparos, e muito gentilmente lhe perguntou, antes de deixá-lo entrar na casa, se estava vacinado. Ele explodiu e marchou de volta ao carro berrando impropérios. Em todos os seus anos neste planeta, inclusive como CEO de três empresas diferentes, aquela foi a primeira vez na vida em que um homem se comportou de forma tão babaca em relação a ela.

No Tennessee, um estudante de segundo grau declara em uma reunião do conselho escolar que sua avó acabou de morrer de Covid-19 e implora que sua escola exija o uso de máscaras para que sua outra avó não seja a próxima; ele é silenciado aos berros por adultos que riem sem máscara, zombando e fazendo chacota dele.

Na JetBlue, o que se tornou um novo rito de passagem dos comissários de bordo ganha vida inesperadamente no momento em que um homem grita obscenidades quando lhe pedem que saia do avião porque se recusava a usar sua máscara adequadamente.

Em Tacoma, Washington, um grupo de arruaceiros sai à procura de confusão quando “antifas” deixam de dar as caras para a briga que os “Garotos” tinham anunciado. Desimpedidos, marcham pela cidade com porretes, bandeiras e tacos de beisebol, procurando pessoas para puxar briga até que um cidadão local (não antifa), aparentemente muito incomodado e se sentindo ameaçado pelo seu comportamento, acaba sacando uma arma e atira no pé de um deles (a história ainda está sendo esclarecida; é possível que o sujeito tenha atirado no próprio pé).

Em Fort Collins, Colorado, um homem assedia um grupo de mulheres que se bronzeiam na praia por usarem roupas de banho “pornográficas”, se recusando a ir embora quando elas lhe pedem para dar o fora porque, diz ele, “Isso é a América!”

Por toda a nação, centenas de trabalhadores de empresas de pesquisa e funcionários eleitorais sofrem ameaças de morte e assédio violento diariamente, apenas por cumprirem seu dever cívico. E conselhos de classe estão sob ataque constante de maneira semelhante.

E estas são apenas as histórias da semana passada. Este contínuo e crescente uso de violência e ameaças de violência se tornou uma epidemia nos Estados Unidos desde 2016 e não é por causa de frustração com a pandemia. Isso é o que acontece em todo país que começa a fazer a transição de ser uma cultura democrática e em geral bem-educada e respeitosa para uma que abraça o autoritarismo ou o fascismo. E sempre começa de cima para baixo: o líder estabelece o tom inicial nos países, assim como nas companhias e famílias.

No nosso caso, estas pessoas estão imitando Donald Trump; nossa esperança é que o exemplo razoável e compassivo do presidente Biden possa ajudar a nação a se voltar contra isso, embora governadores e outros funcionários eleitos, que imitam Trump, estejam tornando a coisa muito difícil.

A liderança republicana do Texas, por exemplo, acabou de adotar legalmente o vigilantismo contra mulheres, e uma dúzia de estados controlados pelo partido republicano está planejando seguir na mesma corrente este mês. É assim que a coisa começa.

Na Hungria, bandos de arruaceiros com tochas em punho ameaçavam queimar as casas de ciganos roma quando Viktor Orbán subiu ao poder há pouco mais de uma década.

Estamos testemunhando nos EUA os sintomas de uma cultura em transição de democracia pluralista para uma oligarquia violenta. Começa com “pessoas comuns” explodindo e sendo babacas, enquanto políticos demagogos promovem milícias, ilegalidade e vigilantismo

Nas Filipinas, o presidente “Donaldinho Trump” Duterte elogiava justiceiros que rondassem pelas ruas com porretes e armas para surrar ou matar pessoas “ligadas às drogas”, inclusive “mais de 150 juízes, prefeitos, legisladores, pessoal policial e militar” que ele considerasse adversários políticos. Duterte dizia aos seus seguidores: “Por favor, sintam-se à vontade para nos chamar, a polícia, ou façam vocês mesmos se tiverem uma arma. Vocês têm o meu apoio.”

Na Rússia, bandos organizados atacam e matam pessoas suspeitas de serem LGBTQs de acordo com o que a liderança do governo esbraveja, numa linguagem de discriminação contra seus próprios cidadãos. Por todas as ex-províncias soviéticas, defensores da democracia ou dos direitos dos gays são rotineiramente perseguidos, surrados, e com frequência mortos.

Quando Mussolini chegou ao poder na Itália no começo dos anos 1920, seus justiceiros civis, conhecidos como Camisas Negras pelos trajes desta cor, tomavam conta das ruas com regularidade. O historiador Michael R. Ebner escreve: “Assim, a vida para os líderes trabalhistas ficou apavorante, sobretudo porque os fascistas não limitavam seus ataques à esfera pública. Nenhum lugar era seguro. Tarde da noite, 10, 30, ou até mesmo cem Camisas Negras, como esses membros de esquadrão ficaram conhecidos, às vezes deslocando-se de cidades vizinhas, podiam cercar uma casa, pedindo a um socialista, anarquista ou comunista que viesse conversar ali fora. Se algum recusasse, os fascistas entrariam à força ou ameaçariam fazer mal à família inteira tocando fogo na casa.”

Caixa de brinquedos com Mussolini e os “camisas negras”

Na Alemanha, em 1921, Hitler organizou uma milícia civil voluntária, não paga, que ele chamou de Sturmabteilung (Unidade de Assalto), que rondava por toda a Alemanha procurando líderes trabalhistas, gays e judeus para dar uma surra.

No Brasil atual, bandos de capangas em ronda, chamados de “milicianos”, surram e até matam pessoas que acreditam serem inimigas políticas do homem-forte e imitador de Trump, o presidente Jair Bolsonaro. Segundo reportagens no The Intercept e The Guardian, eles têm ligações com o filho mais velho de Bolsonaro, Flávio.

Em cada caso, ao redor do mundo e por toda a História, os cidadãos comuns ficaram primeiro surpresos, em seguida chocados, depois intimidados, e ao final dominados pelos movimentos autoritários ou neofascistas emergentes, liderados ou encorajados por políticos ambiciosos de suas nações.

Os milicianos de Hitler em 1926. Foto: Bundesarchiv Bild

Em cada caso, interações cotidianas como viajar de trem, ônibus ou avião, contratar um pedreiro, ou simplesmente andar pela cidade se tornaram um campo minado cheio de erupções imprevisíveis de ameaça, intimidação e violência.

Como escreveu o repórter de Chicago, Milton Mayer, depois de voltar da Alemanha, logo após a Segunda Guerra Mundial: “Se eu –e meus conterrâneos– em algum momento sucumbíssemos àquela concatenação de condições, nenhuma Constituição, nenhuma lei, nenhuma polícia, e certamente nenhum exército seria capaz de nos proteger do dano.”

Estamos testemunhando hoje nos EUA os sintomas de uma cultura que está passando pelos primeiros estágios de transição de uma democracia pluralista para uma oligarquia violenta, conforme eu exponho com muito mais detalhes em meu livro A História Oculta da Oligarquia Norte-Americana.

Começa literalmente com “pessoas comuns” explodindo e se comportando como babacas ao acaso, enquanto políticos demagogos promovem milícias, ilegalidade e vigilantismo.

Nós os ignoramos ou os minimizamos por nossa própria conta e risco.

*Este artigo foi produzido pelo Economy for All, um projeto do Independent Media Institute.

*APOIE O TRADUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o tradutor. Todas as doações para este post irão para o tradutor Maurício Búrigo. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Maurício Búrigo Mendes Pinto, Banco do Brasil, agência 2881-9, conta corrente 11983-0, CPF 480.450.551-20. PIX: [email protected] Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 


(3) comentários Escrever comentário

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Pedro de Alcântara em 07/10/2021 - 23h06 comentou:

Como disse Brecht, dizer verdades sobre o fascismo e não se referir à sua matriz, a decadência capitalista, é chover no molhado.

Responder

Pedro de Alcântara em 07/10/2021 - 23h21 comentou:

Aliás, não tratar prioritariamente da débacle capitalista e suas consequências pouco contribui para o entendimento da história atual.
É o caso concreto da transformação do capital produtivo em dinheiro estéril, este, por exemplo, que o Guedes mantém num “esconderijo” fiscal. Já se calcula que essa forma de destruição de vidas atinge um montante de 30 trilhões de dólares. Como afirma muito corretamente o Papa Francisco, “este sistema econômico mata”. Ziegler, alto funcionário da ONU, classifica as mortes pela fome como genocídio, e em seu último livro afirma categoricamente que “É preciso destruir o capitalismo”.

Responder

Pedro de Alcântara em 09/10/2021 - 13h38 comentou:

Aqui a frase original de Brecht:
“De que adianta dizer a verdade sobre o fascismo, se não se diz nada contra o capitalismo que o origina”

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