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Argentinas celebram legalização do aborto na Câmara como final de Copa do Mundo

Por 129 a 125, Câmara aprova legalização da interrupção da gravidez não desejada, que será gratuita e segura; projeto vai agora ao Senado

Foto: Revista Cítrica/twitter
Martín Fernández Lorenzo
14 de junho de 2018, 14h59

Com Rocini Fernández

Enquanto no Brasil a direita quer proibir o aborto até mesmo em caso de estupro, na Argentina acaba de passar na Câmara um projeto que permite a legalização da interrupção da gravidez não desejada, que será gratuita e segura, na rede pública de saúde. A vitória foi apertada, por 129 votos a favor e 125 contra. Agora, o Senado irá definir se vira lei. Isso se tornou possível porque o feminismo é o movimento mais revolucionário da última década no país. Milhões de mulheres foram às ruas com seus lenços verdes, o símbolo que as caracteriza, apoiar a legalização.

Houve surpresas, incluindo o voto favorável dos deputados Fernando Iglesias e Daniel Lipovetzky, defensores intransigentes do PRO (Proposta Republicana), de direita, que foram até aplaudidos pelo kirchnerismo, uma situação que raramente voltará a acontecer. Do outro lado, Jose Luis Gioja, da Frente para a Vitória e ex-presidente do PJ (Partido Justicialista), votou contra por ser “peronista” e por ser “uma lei contraditória”. Má jogada política.

Uma das líderes do PRO, Elisa Carrió, que votou contra, questionada pela imprensa se sabia que as mulheres morrem em decorrência de abortos clandestinos, respondeu: “Eu sei disso, mas vou votar não e pronto”. Para a vice-presidente da nação, Gabriela Michetti, os países ricos vão mais uma vez criminalizar o aborto porque “nascem poucas crianças”. Não é de surpreender que a bandeira pedindo esta penalidade congregue o catolicismo mais conservador, o mesmo que defendeu exterminar os índios considerados “hereges”.

O debate foi feroz, 24 horas. Algumas barbaridades foram ditas, como o deputado do PRO Alfredo Olmedo, que disparou: “Se você, como mulher, ‘lembrar’, oito meses, depois que foi estuprada, este projeto vai lhe permitir matar o menino”. Depois, declarou à imprensa que, se a lei for aprovada, ele proporia “fazer um cemitério para as vítimas de abortos”.

Mas essa afirmação não foi a mais aberrante. Estela Regidor, do UCR,  disse: “Certamente muitos de vocês têm animais de estimação. O que acontece quando uma cadela engravida? Não a levamos ao veterinário para fazer um aborto.” Mas o mais perverso foi o chefe do bloco PRO, Nicolás Massot, cuja família tinha laços com a ditadura, no bate-boca com o deputado Juan Cabandié, filho de desaparecidos: “Nunca em uma democracia fomos tão longe, Juan”. A deputada Mayra Mendoza rebateu: “Mas vocês foram incentivados durante a ditadura”. E ele respondeu:
“Nem naquela época, Mayra, nem naquela época fomos tão longe”, respondeu Massot, que escolheu falar sobre a ditadura na primeira pessoa do plural: “nós”. Vileza é pouco.

Elisa Carrió, que votou contra, declarou: “Sei que as mulheres morrem, mas eu votarei não”. Estela Regidor, do UCR,  disse: “Muitos de vocês têm animais de estimação. O que acontece quando uma cadela engravida? Não a levamos ao veterinário para fazer um aborto”

Antes da votação, Diego Maradona enviou uma mensagem aos deputados. Em um móvel com o jornalista Victor Hugo Morales, da Rússia, o treinador disse:” Temos de proteger a mulher. A mulher não pode que arriscar sua vida toda vez que precisa ir a um açougueiro tirar um bebê. Isso é criminoso. O que eu gostaria de pedir aos votantes é que deem uma chance a essa mulher de escolher democraticamente “. Recorde-se que Maradona tem uma tatuagem de “Che” Guevara, e coincidentemente hoje são os 90 anos do nascimento de Che. Yo no creo en las brujas, pero…

Em uma economia devastada, com um povo extremamente empobrecido, hoje os argentinos podem cantar a vitória, mesmo que por um momento. As mulheres transformaram o sistema. O projeto promovido por Macri, que não só não participou em nenhum momento do debate como declarou publicamente que não estava a favor, hoje deve ser uma dor de cabeça para o presidente. Poucos pensaram que ele ia passar, e que esta era uma cortina de fumaça para desviar o foco sobre o problema fundamental que nós, argentinos temos, que é não poder chegar a pagar as contas no fim do mês. Estávamos errados. Foi aprovado.

Estima-se que cerca de 500 mil abortos sejam realizados por ano na Argentina. A ideia da proposta de legalizar o aborto é melhorar este problema em termos de saúde. Não é uma questão ética ou moral: não existe mulher que goste de realizar abortos. “A comunidade científica internacional diz que, para cada aborto que provoca internação em países onde o aborto é criminalizado, mais de dez que foram feitas sem complicações. Na Argentina, temos cerca de 60 mil internações em hospitais públicos por abortos inseguros. Basta fazer as contas”, diz o médico Mario Sebastiani, um obstetra com 40 anos de profissão. “Na minha primeira prática em Larcade Hospital, San Miguel, eu vi mulheres morrerem de abortos inseguros. Percorri o país e posso garantir que, ainda hoje, embora tenha se difundido o uso do misoprostol para o aborto, ainda se usa , em desespero, agulha de tricô, o talo da salsa ou pílula de permanganato, que causa uma terrível úlcera vaginal.”

Estima-se que cerca de 500 mil abortos sejam realizados por ano na Argentina. A ideia da proposta de legalizar o aborto é melhorar este problema em termos de saúde. Não é uma questão ética ou moral: não existe mulher que goste de realizar abortos

De acordo com o Ministério da Saúde, desde a volta da democracia na Argentina, 3030 mulheres morreram devido a abortos inseguros e, em 2013, cerca de 49 mil foram internadas em hospitais públicos por complicações relacionadas à interrupção da gravidez. Mais precisamente, cerca de 135 mulheres foram hospitalizadas por dia sobre este assunto. Destas, duas em cada 10 tinham 19 anos ou menos e três em cada 10 tinham entre 20 e 24 anos de idade. Em 2016 –o último dado disponível–, 245 mulheres grávidas morreram; em 43 desses casos, inclui diretamente o “aborto” como causa da morte

Veremos se, quando a lei for aprovada, o presidente será incentivado a vetá-la como fez com o veto à lei que eliminava as taxas sobre os serviços básicos. A dúvida é se Macri terá coragem de enfrentar essas guerreiras de rua com seus “pañuelos” verdes. Se ousar fazê-lo, prepare-se para que virem o congresso de cabeça para baixo. Com essas mulheres não se brinca. Hoje ganhou o feminismo, ganhou a saúde, ganhou a igualdade, ganhou todo o país, mas também ganhou a América do Sul, enquanto nos aproximamos da lei já em vigor no Uruguai, e esperamos que se espalhe para toda a região. Obrigado, senhoras. Orgulho nacional.

 

 


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Omar Dario em 19/06/2018 - 23h01 comentou:

Até que enfim! Mas como sempre aqui na república das bananas, aposto que seremos o
último país do mundo a legalizar o aborto. Se na argentina o número de mulheres mortas ou seqüeladas é este, então aqui é muito pior com certeza.

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