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Carlinhos Marighella: “vejo a História se repetir em círculos; vejo o mesmo contexto pré-1964”

Para filho do líder guerrilheiro, Bolsonaro é o resultado de o Brasil não ter sepultado a ditadura militar "por medo"

Carlinhos Marighella. Foto: reprodução facebook
André Uzêda
08 de agosto de 2019, 11h49

O herdeiro do “inimigo número 1 do regime” nos recebeu em casa numa manhã quente de quarta-feira. Em seu apartamento, uma enorme janela desponta para o Largo do Campo Grande, onde repousa o monumento do Caboclo, alegoria que representa a participação heroica e popular nas lutas da Independência do Brasil na Bahia, em 1823.

Livros sobre a ditadura e os movimentos contrários ao regime autoritário ocupam a maior parte de sua estante, na entrada da sala. Um painel com insígnias remetendo aos orixás, entidades do Candomblé, completa a decoração simples e austera do cômodo.

Bem humorado e falante, Carlos Augusto Marighella, a quem todo mundo na Bahia sempre tratou por “Carlinhos”, conversou por mais de duas horas, passeando por importantes fatos da vida política do Brasil. “A história da minha vida gira em torno do golpe militar e de tudo que veio depois disso. Agora vejo a história se repetir em ciclos e o mesmo contexto pré-1964 colocado, com perseguição à esquerda e a democracia ameaçada”, diz.

Carlinhos com o repórter André Uzêda. Foto: Hugo Dantas

Hoje com 71 anos, Carlinhos tinha 21 quando o pai foi assassinado. Carlos Marighella morreria em 4 de novembro de 1969, aos 57 anos, numa emboscada na alameda Casa Branca, em São Paulo, coordenada por Sérgio Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS. Primogênito dos oito filhos da negra baiana Maria Rita do Nascimento e do imigrante italiano Augusto Marighella, o líder guerrilheiro nasceu na Baixa dos Sapateiros, em Salvador, em dezembro de 1911.

Este ano completam-se 50 anos da morte de Marighella, ex-deputado federal pelo PCB e membro-fundador do grupo Ação Libertadora Nacional (ALN), que resistiu à ditadura militar através da luta armada. A recente declaração do presidente Jair Bolsonaro sobre Fernando Santa Cruz, militante da AP (Ação Popular), também morto pelo Estado brasileiro, analisa Carlinhos, é reflexo da “ineficiência no combate” a este tipo de discurso.

Perdemos o pênalti para sepultar a ditadura militar. E era isso que não permitiria a chegada de alguém como Jair Bolsonaro ao poder. Jogamos a bola para fora, porque faltou coragem

“O fato é que a gente não superou a ditadura de 1964. E tivemos boas oportunidades de superá-la. A gente ficou pedindo ao diabo para ele aparecer novamente. Assim que acabou a ditadura na Argentina, eles prenderam os generais. Fizeram um trabalho para expor à sociedade o horror dos crimes cometidos por lá e, acima de tudo, que quem os cometeu fosse corretamente punido. No Brasil, não houve isso. Por medo, não sei. Hoje qualquer general golpista continua comandando o Exército. Foi isso que permitiu a chegada de Bolsonaro e a volta desse tipo de pensamento. A gente deixou o outro time gostar do jogo. Não dá pra ser tolerante com fascista, golpista e torturador”, diz o único filho de Marighella.

A mãe de Marighella, Maria Rita, e o pai, Augusto, avós de Carlinhos

Bolsonaro atacou Fernando Santa Cruz para fustigar seu filho, o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz. Ao questionar a atuação da ordem nas investigações sobre Adélio Bispo, autor da facada contra o então candidato do PSL, em Juiz de Fora, Minas Gerais, Bolsonaro declarou: “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele”.

Assim que acabou a ditadura na Argentina, eles prenderam os generais. No Brasil, não houve isso. Hoje qualquer general golpista continua comandando o Exército. Não dá pra ser tolerante com fascista, golpista e torturador

Horas depois, emendou: “O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco e veio a desaparecer no Rio de Janeiro”. Só que a AP, grupo esquerdista originário da juventude Católica, nunca teve vínculos com as guerrilhas armadas de resistência à Ditadura. Estudante de Direito, Fernando desapareceu após ser capturado pelo DOI-CODI, no Rio de Janeiro, em 1974. Felipe não tinha nem dois anos. No livro Memórias de uma guerra suja, o ex-delegado Cláudio Guerra narra que o corpo de Fernando foi incinerado em uma usina de açúcar, na cidade fluminense de Campos.

Marighella quando deputado federal, em 1946 ou 1947. Foto: Aperj

Para o filho de Marighella, que também viria a se filiar ao Partido Comunista na década de 1970, mas sem participar da luta armada, “faltou coragem para encarar o passado da forma correta”. E lança mão de uma metáfora futebolística para sintetizar as consequências do fraquejo.

A história da minha vida gira em torno do golpe militar e de tudo que veio depois. Agora vejo a história se repetir em ciclos e o mesmo contexto pré-1964 colocado, com perseguição à esquerda e a democracia ameaçada

“Nós perdemos o pênalti para sepultar a ditadura militar. E era isso que não permitiria a chegada de alguém como Jair Bolsonaro ao poder. Jogamos a bola para fora, porque faltou coragem. Na democracia, a gente tinha todo o aparato legal para passar esse período a limpo. O Brasil criou os mecanismos de transição. Mas não tratou isso como uma questão central. A linha era da verdade, memória e Justiça. Verdade para mostrar à população os crimes cometidos pelo Estado. A partir disso, criar uma memória social que, por meio da educação, as pessoas jamais quisessem retornar a esta condição degradante. E a Justiça para criar leis que punissem declarações como estas dadas pelo Bolsonaro. A democracia precisa, sim, criar mecanismos que protejam sua própria existência e com adesão popular a isso. Isso só vem com consciência social. O que vivemos hoje é um prolongamento daquela época, porque não resolvemos quando podíamos.”

Durante muito tempo prevaleceu sobre a morte de Marighella uma versão falaciosa de que os guarda-costas do militante teriam começado a atirar contra os policiais assim que avistaram a tocaia armada. A farsa teria dupla finalidade: justificar a morte de uma policial, Estela Morato, atingida com um disparo na cabeça, e de um civil, o alemão Friedrich Rohmann, que passava desavisado pela alameda; e amparar a falsa narrativa de que o comunista não fora executado, mas rendido durante a operação.

Em seu livro Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012), o jornalista Mário Magalhães narra que o “DOPS costurou sua ficção histórica” e a “imprensa endossou a lorota” momentos após a execução, forjando depoimentos e falsificando relatórios. Em um dos trechos da biografia, Magalhães destaca: “Comandante na década de 1970 do maior centro urbano de tortura e morte de oposicionistas, o DOI do II Exército, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra viria a elaborar uma lista de ‘vítimas do terror’. Eternizando o embuste, incluiu Estela e Rohmann”.

Com ajuda de Ustra, herói de Bolsonaro, montou-se a farsa de que guarda-costas de Marighella atiraram contra policiais, para justificar a morte de uma policial e um civil. Em 1996, um policial que participou da ação confirmou: o guerrilheiro foi executado

Vinte e sete anos após a morte de Marighella, em entrevista à Folha de S. Paulo, um dos policiais que participaram da ação negou que ele estivesse com guarda-costas na chegada ao local que viria a ser seu calvário. Nesse mesmo ano, perito Nelson Massini, em reconstituição do crime por meio de fotografias, remontou a versão de que o guerrilheiro fora abatido à queima-roupa pelos agentes do Dops. Em 1996, o Ministério da Justiça reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro na morte de Marighella. Em 2008, a família foi indenizada.

Brilhante Ustra foi saudado pelo então deputado federal Jair Bolsonaro no Congresso Nacional durante o processo de votação do relatório de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em abril de 2016.  Militante política, Dilma foi torturada por Ustra durante o regime militar, que assumiu o país, em 1º de abril de 1964, a partir de tropas que vindas de Juiz de Fora, Minas Gerais.

Documento da Aeronáutica que comprova prisão de Santa Cruz

Bolsonaro ironizou a Comissão da Verdade instalada por Dilma em 2011, dizendo que “não existem” documentos provando a prisão de Santa Cruz ou os crimes da ditadura, um truque da pós-verdade que ele tanto utiliza para tentar recontar a História a seu bel-prazer. “A questão de 1964, não existem documentos se matou, não matou, isso aí é balela. Você quer documento pra isso? Meu Deus do céu! Documento é quando você casa, você se divorcia. Eles têm documentos dizendo o contrário?”.

Fora da realidade paralela bolsonarista, documentos oficiais da Aeronáutica, de 1978, constatam que Fernando Santa Cruz foi preso em 22 de fevereiro de 1974. Depois, seu paradeiro é descrito como “desaparecido”.

 

 


(3) comentários Escrever comentário

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José Roberto Alonso em 08/08/2019 - 13h59 comentou:

Muito preciso o comentário do Carlos, também acrddito que foi por medo que não se levou adiante a criminalização das barbàries cometidas pelos militares, e o resultado dessa impunidade são os tempos arbitrários que estamos vivenciando no país.

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Mario em 08/08/2019 - 16h56 comentou:

Toda ação precisa ter consequências.

Responder

yared em 19/08/2019 - 13h48 comentou:

um governo ou regime onde não há espaço para opiniões contrárias,oposição, correntes que pensam diferente, é ditadura puro-sangue!! com bolsonaro já estamos vivendo isto ,pois quando se refere aos opositores como “esquerdalha”,ele revela toda seu ódio aos partidos de esquerda ,e representa um sério perigo para a democracia.

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