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Os cascões e cebolinhas cresceram e viraram uns machistinhas gordofóbicos (com o apoio das carminhas frufrus)

Sempre fui fã de Mauricio de Sousa e de seus personagens. Mas ando relendo seus gibis com outros olhos, olhos do século 21. A maioria das trapalhadas da Turma da Mônica continua hilária. É impossível, porém, deixar de notar o quanto de gordofobia e machismo há impregnado nas historinhas, sobretudo as dos “planos infalíveis”. Acho […]

Cynara Menezes
04 de abril de 2016, 15h01
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(É isso que queremos ensinar para nossos meninos?)

Sempre fui fã de Mauricio de Sousa e de seus personagens. Mas ando relendo seus gibis com outros olhos, olhos do século 21. A maioria das trapalhadas da Turma da Mônica continua hilária. É impossível, porém, deixar de notar o quanto de gordofobia e machismo há impregnado nas historinhas, sobretudo as dos “planos infalíveis”. Acho até que o “plano infalível” é a perfeita metáfora para o que estamos vivendo no Brasil atualmente: misóginos tramando para tirar do poder a “baixinha, gorduça e dentuça”. Não à toa, é dessa forma que muitos nas ruas e redes sociais se referem à presidente. Entre outros “elogios”.

Desde que apareceu na mídia como candidata pela primeira vez, Dilma Rousseff foi comparada à Mônica dos gibis: era a personificação da menina marrenta, baixinha, gorducha e dentuça, e ainda por cima vestida de vermelho. O que a esquerda não percebeu na época foi o potencial de bullying machista embutido na brincadeira –e nos gibis. Mônica surgiu em 1963, quando as mulheres no mundo todo lutavam pela liberação feminina. Dilma era uma delas. Tinha 16 anos quando Mônica foi criada; pouco depois, se tornaria uma guerrilheira na luta contra a ditadura militar. Ambas, Dilma e Mônica, são “fortes”, ameaçam o poder masculino.

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Simbolicamente, Mônica é a mulher independente, que não precisa de homem. Pior: é capaz de bater neles quando desafiam o seu poder. O medo do macho de que a mulher queira não apenas se igualar, mas ser MELHOR do que ele é uma constante no discurso antifeminista –sendo que, na vida real, é o homem quem historicamente tem subjugado a mulher pela força. Cascão e Cebolinha, os machinhos da trama, lutam contra essa ficção com todas as forças. Seu objetivo é retomar a posição de superioridade perdida. Suas armas: apelar para a aparência física da adversária. “Gorducha”, “dentuça”, “baleia”. Uma rápida busca no twitter mostra as semelhanças com o que falam sobre Dilma.

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Ao mesmo tempo em que Mônica é mostrada como a menina superpoderosa que é preciso subjugar, as mulheres adultas da turma representam o clichê da mulher submissa. As mães de Cebolinha, Cascão, Mônica e Magali são todas donas-de-casa. A única exceção é a mãe do Xaveco, cujos pais são divorciados. A mãe do Cebolinha aparece de chilenos e avental quase o tempo inteiro, a não ser quando sai para ir ao supermercado ou à feira e volta cheia de sacolas. Os pais da turma, ao contrário, trabalham fora. O homem provedor, a mulher do lar. O subtexto machista é tão evidente que passa batido.

Ora, como é que uma menina ousa fugir desse padrão e se torna a manda-chuva do bairro? Como é que uma mulher ousa ser a manda-chuva deste país? É preciso derrotá-la, claro. O que mais incomoda é saber que Cebolinha e Cascão contam com uma aliada do lado oposto: Carminha Frufru, a riquinha do bairro do Limoeiro, que não se sente solidária com as outras meninas e se junta aos meninos contra seu próprio gênero. Carminha não sabe o que é “sororidade”.

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(Carminha Frufru. Não é a cara de certas jornalistas reaças?)

Quem nunca viu uma Carminha Frufru por aí, repetindo frases machistas contra a presidenta Dilma, atacando as feministas e anunciando voto em Jair Bolsonaro, um político homofóbico e misógino? Os cascões e cebolinhas cresceram e viraram uns machistinhas gordofóbicos, com a cumplicidade das carminhas frufrus da vida. Pelo que vimos na IstoÉ desta semana, tem carminha frufru até na imprensa…

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É inegável que existe um fundo machista nas críticas a Dilma (ou à Mônica). Alguém poderá dizer que, no gibi, é a personagem feminina quem leva a melhor, afinal espanca os meninos –como se isso fosse algo louvável. Imaginem se fosse o contrário, se os meninos espancassem a Mônica e ela aparecesse com os olhos roxos e toda arrebentada. Não seria considerado incentivo à violência de gênero? Pois então, não é porque se trata de uma menina repetindo o comportamento masculino que fica bonito de ver.

Como saber se uma crítica a uma mulher é machista ou não? É simples: se o ataque envolve aspecto físico, orientação sexual, vida sexual ou condição mental sem prévio laudo psiquiátrico (como ocorreu com a revista IstoÉ), é, sim, machismo. Aludir à atuação profissional, não. Podem chamar Dilma de “incompetente”, “inepta”, “fraca” à vontade, que não é machismo; mas chamar de “puta”, “vaca”, “gorda”, “baleia”, “feia”, “louca”, é ser machista e pronto.

Quanto aos gibis da Turma da Mônica, não estou aqui defendendo que as crianças deixem de lê-los. Mas, assim como aconteceu com os livros de Monteiro Lobato, cujo conteúdo racista hoje salta aos olhos, não se pode ficar cego quanto ao estereótipo de gênero embutido nas “inofensivas” historinhas da turma. Assim como com Lobato, não é preciso proibir, e sim contextualizar. Afinal, que tipo de menino você pretende criar para a vida? Um homem que ache normal e engraçado chamar mulheres de “gorda”, “dentuça” e “baleia”, ou um homem que ache estes termos ofensivos, desrespeitosos, com quem quer que seja?

Não dá mais para normalizar o machismo, a gordofobia e o bullying dizendo que é apenas “brincadeira”, coisa de criança. Este tipo de condescendência com o sexismo desde a infância tornou possível o que se vê nas ruas e nas redes sociais contra Dilma e as mulheres que a defendem.

 

 


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