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De olho nas terras indígenas, Bolsonaro ilude eleitor com “corrida do nióbio”

Audiência pública na Câmara colocou o nióbio em pratas limpas: o Brasil já faz uma exploração racional do minério, que não "vale mais que o ouro"

"Meu nome é nióbio". Bolsonaro e Enéas em um dos sites que propagam fake news do minério
Cynara Menezes
05 de setembro de 2017, 11h10

O nióbio não é uma mina de ouro que o Brasil tem nas mãos e não sabe explorar, ao contrário do que prega Jair Bolsonaro (PEN-RJ) inspirado no falecido fundador do PRONA, Enéas Carneiro (aquele do bordão “meu nome é Enéas). Uma audiência pública na Câmara colocou o nióbio em pratas limpas: o Brasil já faz uma exploração racional do minério. O presidenciável direitista, a propósito, não deu as caras na reunião.

O nióbio, ao contrário do que diz Bolsonaro, não “vale mais que o ouro”. O ouro custa quase 1000 vezes mais que o nióbio (cerca de US$57 mil contra US$62 o quilo)

Como se fosse um especialista, Bolsonaro vem pregando aos incautos por aí que o nióbio “vale mais que o ouro”, como disse na palestra da Hebraica em que insultou os povos quilombolas. E é esta, aliás, a razão para o insulto: o deputado de extrema-direita está de olho nas terras indígenas e quilombolas para exploração mineral e usa o nióbio para convencer as pessoas de que acabar com as reservas será bom para o país. Na mesma palestra, Bolsonaro disse literalmente que, se eleito presidente, “todo mundo terá uma arma de fogo em casa, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”.

Em setembro do ano passado, o deputado chegou a subir na tribuna da Câmara para prestar homenagem a Enéas e denunciar que estão roubando nosso nióbio.

Acontece que o nióbio não vale mais que o ouro. Pelo contrário, o ouro custa quase 1000 vezes mais que o nióbio (cerca de US$57 mil contra US$62 o quilo). Uma empresa brasileira produz 75% do nióbio consumido no mundo. Outro mito que o “mito” espalha sobre o nióbio é que só o Brasil possui o minério. Não é verdade: o país de fato possui cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio, mas existem reservas do metal no Canadá, na Rússia, na Groenlândia, em Angola e no Malaui.

Mesmo que só houvesse nióbio aqui, ele também não é insubstituível. O nióbio é apenas mais resistente e também mais caro. “Existem vários outros elementos como vanádio, molibdênio, cromo, níquel, manganês, que fazem um papel semelhante. Então a indústria siderúrgica vai observar: quanto eu gasto de nióbio para ter essa propriedade e quanto eu gasto dos outros? Então, quando nós vamos buscar negociar preço, é preciso verificar qual o maior preço que eu consigo para que o cliente ainda busque a solução nióbio”, explicou Eduardo Ribeiro, presidente da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração) na audiência da Comissão de Minas e Energia.

O diretor de planejamento e desenvolvimento da mineração do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), Wagner Fernandes Ribeiro, inclusive acrescentou inclusive que não vale a pena explorar mais porque o preço vai cair. “Quando você começa a explorar demais, o preço cai e fica inviável. Então o nióbio é praticamente usado por tonelada de minério de ferro em 400 gramas. Então você vê que é um trabalho que tem que ser cuidadoso porque se você começa a explorar de uma forma muito ampla, você vai fazer o preço cair e ele fica inviável”, disse.

O físico Rogério Cézar de Cerqueira Leite havia feito o mesmo alerta em artigo publicado há mais de dez anos na Folha de S.Paulo, em 2006, com o título O Nióbio e o Besteirol Nacionalista. “O fato de o Brasil ter posição dominante no mercado mundial e mais que 90% das reservas em exploração é antes um obstáculo, e não uma vantagem, pois nenhum país ou empresa aceita uma dependência exagerada em relação a um único fornecedor”, escreveu o cientista. “Em conseqüência, muitas empresas preferem sucedâneos ao nióbio, cujas produções são dispersas em vários países, mesmo quando os substitutos são mais dispendiosos.”

Mesmo que só houvesse nióbio no Brasil, ele não é insubstituível. O nióbio é apenas mais resistente e também mais caro

Segundo o diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral da Secretaria de Geologia do Ministério de Minas e Energia, José Luiz Amarante, a política de exportação das empresas brasileiras e canadenses consegue abastecer o mercado mundial com sobras. No mundo, a produção de aço no ano passado foi 1,6 bilhão de toneladas. No mesmo período, a produção de nióbio alcançou 85 mil toneladas. Menos de meio quilo de nióbio é usado para dar resistência a uma tonelada de minério de ferro.

“O nióbio tem alto valor agregado e ninguém compra o segundo quilo. Você compra o quilo que você precisa comprar. Ninguém vende em condições normais qualquer mercadoria a preço inferior a preço de mercado, isso não existe”, afirmou Amarante.

Se Bolsonaro não se importa de viajar no nióbio para iludir seus eleitores, os brasileiros progressistas precisam ficar de olho no discurso do presidenciável, porque o objetivo dele é convencer as pessoas de que os índios precisam sair de suas terras para dar lugar à incrível corrida do nióbio que não existe.

Mas a mineração em terras indígenas e quilombolas não é a menina dos olhos apenas de Bolsonaro. Três medidas provisórias (MPS 789/17 790/17 e 791/17) que mudam regras no setor foram editadas em julho pelo governo ilegítimo de Temer. Elas alteram 23 pontos no Código de Mineração.

Com informações da Agência Agência Câmara

 

 


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(14) comentários Escrever comentário

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Lucas Garcia Gomes em 05/09/2017 - 11h58 comentou:

Olá, por favor, você poderia ceder as fontes que você usou para discriminar no texto a respeito do nióbio? Muito obrigado!

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    Cynara Menezes em 05/09/2017 - 14h28 comentou:

    todos os links estão em destaque, basta clicar

Regina em 05/09/2017 - 13h04 comentou:

Excelente e providencial esclarecimento. Parabéns! Fica a certeza de onde surgem as deturpações e mentiras que os bolsominions propagam em comentários de revistas e blogs: seguem ordens aí do chefe

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Rodrigo Dias em 05/09/2017 - 13h12 comentou:

Sempre bom lembrar que o Brasil é campeão mundial de biodiversidade, e também que nossas terras indígenas são campeãs em proteção à biodiversidade, protegem bem mais que as UCs.

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Sandro Gonçalves Silva em 06/09/2017 - 02h22 comentou:

O negócio é que onde tem nióbio tem lantanídeos, vulgo Terras Raras que valem muito mais! Ale de Ouro, prata e platina. Realmente, vanádio é mais caro e mais eficiente do que nióbio para aumentar a resistência mecânica do aço.
Att. Sandro
Eng. Metalúrgico.

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ALEX GOMES em 06/09/2017 - 08h12 comentou:

Ok, mesmo assim o Bolsanaro é o meu candidato a Presidência em 2018, até porque acredito que o Brasil deva explorar seus recursos minerais a favor da população, ao contrário do que está fazendo o governo Temer e fez o governo Dilma, Lula e FHC.
Não veja candidato hoje melhor do que o Bolsanaro ou o Dória.

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    Cynara Menezes em 06/09/2017 - 16h24 comentou:

    “mesmo o bolsonaro mentindo descaradamente, ele é meu candidato”

Ximbinha em 06/09/2017 - 09h44 comentou:

Será que isso tem fundamento ou é mais uma notícia tendenciosa?

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Caíque em 06/09/2017 - 12h54 comentou:

Você perder todo o argumento quando simplesmente fala que no Brasil produz 75% do nióbio consumido no mundo, de fato o ouro vale mais hoje, mas se a forma de comercialização for mudada o nióbio dispara fácil! Lei da oferta e da procura! Hoje ta barato pois deve ter algo errado! Quanto a preservação da biodiversidade das nossas florestas vamos sinceros, toda hora as florestas são derrubadas, os “índios” entregam nossas riquezas por meros trocados, ou é mentira?

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    Cynara Menezes em 06/09/2017 - 16h23 comentou:

    é mentira, sim. como tudo que o bolsonaro diz, só burro acredita

Marcus em 06/09/2017 - 17h19 comentou:

Vcs tendem a criticar bolsonaro, tenho notado que não existe imparcialidade.

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    Cynara Menezes em 07/09/2017 - 18h01 comentou:

    este site nunca prometeu imparcialidade. atacar bolsonaro é um dos nossos esportes favoritos

José Roberto Guedes em 06/09/2017 - 17h39 comentou:

Sou contra as idéias do Bolsonaro e óbvio não voto nele, mas quando uma pessoa, numa discussão educada chama aos outros de “burros” perde tanto em razão quanto em credibilidade.

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Anonimo em 12/09/2017 - 02h37 comentou:

O Bolsonaro é o Olavo de Carvalho da política. Mente descaradamente o tempo todo igual seu guru espiritual que é tão “nacionalista” que mora escondido lá na Virgínia nos EUA. Coxinha é tão burro que acredita que Bolsonaro se preocupa com os trabalhadores. Vai nessa, ele está é preocupado só com os militares e com a elite. O resto do povo que se exploda. Nacionalista? Passa longe, ele é um entreguista isso sim. Imagino que se o Enéas fosse vivo, iria discordar radicalmente dele em vários pontos. Principalmente no que diz respeito à economia liberal que Bolsonaro tanto defende. Enéas podia ter muitos defeitos mas sempre defendeu a soberania do Brasil perante às potências imperialistas. E curiosamente Bolsonaro se diz seu “seguidor e só sabe falar em nióbio e grafeno. Vale frisar aqui, que Enéas ao contrário de Bolsonaro era a favor da justiça social, lógico que sem o conceito de esquerda. E o mais estranho é os bolsominions falando bem de Enéas sendo que o mesmo era admirador da política de Getúlio Vargas, odiado pelos seguidores do Bolsonaro que o consideram “o Lula com ensino fundamental completo”.

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