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Fora Temer, uma cerveja louca para virar Diretas Já

Quem procura a cerveja artesanal do MST “é curioso e minimamente progressista”. A marca virou um sucesso, mas os fãs não veem a hora de o rótulo com o "vampiro" ser trocado por algo melhor

Beatriz Amaro
01 de agosto de 2017, 14h45

A 480 quilômetros da capital do Paraná, Curitiba, entre as cidades de Centenário do Sul e Porecatu, escondida atrás de uma plantação de milho, fica a casa 26 de julho, onde mora uma das 350 famílias que vivem no Assentamento Maria Lara. O nome da casa faz alusão ao assalto ao Quartel Moncada, em Cuba, executado nesta data, em 1953, por Fidel Castro.

A recepção de quem chega é tarefa de Margareth, uma gata magra que deu à luz seis filhotes prestes a desmamar. Ela deixa a cria e conduz os visitantes a um barracão, logo atrás, que exibe imagens do comunista cubano e bandeiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e exala um cheiro forte de fermentação. O aroma sai de uma panela com capacidade para 30 litros, na qual os grãos de cevada moídos serão fervidos durante seis horas.

Foto: Beatriz Amaro

Igor de Nadai, biólogo e militante do MST, está em plena produção. O “mestre cervejeiro” trabalha com cerveja artesanal há pouco mais de um ano, quando decidiu vender parte do que produzia para ao menos pagar os custos da produção. “Tenho uns amigos que se aventuraram nessa onda de cerveja artesanal. Pedi que me ensinassem a fazer e comecei ao lado de um amigo colombiano – por isso chamamos nosso projeto de Cervejaria Latino Americana”, conta.

A cervejaria fica no barracão e é lá que toda a produção acontece. O biólogo não mora na 26 de julho – o espaço foi cedido por companheiros de militância para que ele pudesse abrigar todos os equipamentos. Atualmente, a Latino Americana dedica-se à produção exclusiva de uma cerveja: a Fora Temer, fabricada nos estilos American Pale Ale, Indian Pale Ale, Stout e Red Ale. O nome peculiar surgiu em maio do ano passado, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a posse de seu vice, o atual presidente Michel Temer.

Além do nome, o rótulo chama a atenção: um Temer com dentes de vampiro e olhar penetrante estampa o adesivo, no qual o nome da cerveja é escrito em letras garrafais

Segundo Nadai, “pensamos em colocar um nome diferente e, de uma hora para outra, decidimos que seria Fora Temer, uma ideia da minha cunhada. Não foi um projeto; foi instantâneo e rapidamente viralizou. Coloquei uma foto nas redes sociais e muita gente veio procurar”. Além do nome, o rótulo chama a atenção: um Temer com dentes de vampiro e olhar penetrante estampa o adesivo, no qual o nome da cerveja é escrito em letras garrafais em uma tipografia que remete às dos filmes de terror. “Foi feito por uma amiga, sem nenhuma pretensão, mais pela graça. Quando vi, alguns famosos já tinham compartilhado a imagem.”

Detalhe do barracão onde é feita a cerveja. Foto: Beatriz Amaro

Apesar da alta demanda, a produção é limitada à quantidade de litros das panelas e à capacidade de armazenamento das geladeiras. O barracão é pequeno, os recursos são escassos e Nadai é o único produtor. “Se eu fizesse só isso da vida, acho que o lucro seria bom, mas tenho as tarefas da militância. Fomos à Feira da Reforma Agrária em São Paulo e vendemos tudo em questão de minutos – se tivéssemos levado dez vezes mais, venderíamos  dez vezes mais”, afirma. Hoje, não há ponto de vendas na região do assentamento, e a Fora Temer é entregue em mãos por Igor ou sua companheira, Viviane Leal. O único lugar no qual a cerveja é encontrada a pronta entrega é o Armazém do Campo, em São Paulo, onde vendem-se produtos fabricados pelo MST.

O cervejeiro do MST, Igor de Nadai. Foto: Wellington Lenon

A produção “exige esforço, mas não é difícil”, afirma o biólogo. “Se eu consegui, qualquer um consegue.” A Fora Temer dispensa os cereais não-maltados, como o milho, e é feita basicamente de água, malte e lúpulo. O MST ainda não produz estes insumos, que vêm do Rio Grande do Sul e de São Paulo. “É por isso que não digo que a cerveja é 100% do movimento.” Enquanto compartilha detalhes do processo produtivo, Nadai controla cada passo: mede a quantidade de grãos em uma mini balança digital, cronometra os processos, mantém um termômetro dentro das panelas e não deixa que ninguém experimente as cervejas das quais ele ainda não tirou a prova. “O que a gente quer é fazer um produto de qualidade, que vai muito além do nome.”

O intuito do cervejeiro é que a Latino Americana seja mais que a Fora Temer: uma cervejaria da esquerda, dos trabalhadores.

A clientela fiel aprova a cerveja, cuja garrafa de 600ml custa 16 reais. “Calculei o preço com base em outras. Cervejas artesanais de grandes cervejarias custam muito mais caro e são produzidas de maneira bem mais automatizada. No cálculo, quis cobrir os gastos e tentar tirar algum lucro, mas o preço é bem menor que o do mercado. Eu reveria alguma coisa se a turma reclamasse, mas ninguém disse nada.” Quem procura a Fora Temer, diz Nadai, “é curioso e minimamente progressista”. O intuito do cervejeiro é que a Latino Americana seja mais que a Fora Temer: uma cervejaria da esquerda, dos trabalhadores. “Quando a cerveja fica pronta, a turma vem atrás. Eles querem coisa boa. Dificilmente sobra para mim. Eu prefiro e preciso vender.”

Foto: Beatriz Amaro

A dialética entre a fabricação de um produto considerado gourmet e a ideologia do MST foi, durante algum tempo, uma preocupação. Na internet, a Fora Temer foi alvo de duras críticas. “Muita gente pensa que só quem pode fazer cerveja artesanal são as pessoas lá de cima. Produto gourmet, para mim, é produto de qualidade. O problema é que, na nossa sociedade, só compra coisa boa quem tem dinheiro, mas isso também é cultural. Faz parte do brasileiro tomar muita cerveja para ficar embriagado. Uma Fora Temer sacia muito mais”, opina o cervejeiro, que não costuma abaixar o preço da cerveja para ninguém. Para ele, “este é um discurso perigoso. Querem sequestrar o que é de qualidade só para a pequena burguesia”.

Nadai reforça que “qualquer um” pode fazer a própria cerveja, desde que haja estudo e dedicação. “Eu penso em ampliar as forças produtivas, chamar a turma para aprender. Funcionamos como uma cooperativa pequena por aqui: as meninas fazem bolos, vendem ovos caipiras, fabricamos nossa cachaça, que é exportada para a França, e melaço também.” Por ora, enquanto é o único responsável pela Fora Temer, o biólogo faz experimentos com os quatro estilos: adiciona gengibre, mistura grãos e testa quantidades diferentes. “Vou estudando. É fundamental saber de onde vem aquele lúpulo, entender que é mais que o simples arroz-e-feijão.”

Apesar de ser o motivo pelo qual a cerveja fez sucesso, Nadai mal pode esperar para que Fora Temer deixe de ser o nome do produto. “Começou como uma edição especial. Vou manter até que o golpista caia – e espero que não demore a acontecer. Quero que a Latino Americana seja mais que somente a Fora Temer.” Se acontecer, a “turma” já tem um plano: “Aí, quem sabe, lançaremos a edição especial Diretas Já.”

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Felipe em 01/08/2017 - 19h12 comentou:

Excelente matéria, Beatriz.

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eric nepomuceno em 01/08/2017 - 19h34 comentou:

muito bom texto, boa pauta, boa reportagem.
irei colaborar direto com a autora.
parabéns.

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Renata em 02/08/2017 - 00h46 comentou:

Ótima a história, bem contada. Deu vontade de experimentar a Fora Temer, rs

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Guilherme em 02/08/2017 - 14h35 comentou:

Gostaria de saber como faço para encomendar algumas dessas cervejas.

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