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Cultura

O Capital para preguiçosos

Paul Lafargue, autor de O Direito à Preguiça e genro de Marx, fez uma versão de O Capital com 160 páginas

A sesta, Vincent Van Gogh
Cynara Menezes
27 de maio de 2013, 19h07

Quando digo que sou socialista, enfrento duas arrogâncias, uma à direita e outra à esquerda. A primeira é óbvia: os direitistas acham que, depois da queda da União Soviética e do muro de Berlim, ser socialista se tornou anacrônico. Como se as ideias socialistas não existissem antes da revolução comunista de 1917 e não tivessem sido as responsáveis por muitas das conquistas trabalhistas do homem moderno, regimes falidos à parte.

Do lado esquerdo, a arrogância parte dos que se arvoram proprietários do socialismo, tão muquiranas do conhecimento quanto a direita mais tacanha. “O que você leu para se considerar socialista?”, perguntam. Como se só a uma elite intelectual fosse concedida a dádiva de sentir-se socialista. Não se dão conta de como espantam jovens que poderiam se sentir atraídos pelo socialismo agindo assim. Curioso: nunca vi fazerem o mesmo com defensores do capitalismo. Até porque capitalistas em geral não costumam ser muito amigos da leitura, né?

Essas discussões me fizeram lembrar de um velho texto meu sobre O Capital, de Karl Marx, em versão reduzida por seu genro Paul Lafargue. Seria mesmo necessário ler O Capital para se dizer marxista? As opiniões divergem. Esta reportagem é a última que fiz para a Folha de S.Paulo e foi publicada originalmente em 14 de fevereiro de 2004. Eu acho muito divertida.

***

O Capital para preguiçosos

Só mesmo o autor de uma obra chamada O Direito à Preguiça parecia capaz de transformar O Capital, de Karl Marx (1818-1883), tido como o livro menos lido e mais comentado da história, em algo para se devorar “de uma sentada”. E foi o que aconteceu: empenhado em popularizar o catatau marxista de quase 600 páginas, sob o olhar vigilante de Friedrich Engels (1820-1895), Paul Lafargue (1842-1911) enxugou daqui, cortou dali, e chegou ao mágico número de 130 páginas de texto.

Prova de que Lafargue, ao contrário do que se imagina, era um genro e tanto. Francês de origem cubana, casado com uma das três filhas de Marx, Laura, ele se tornou célebre com seu Direito à Preguiça, de 1880, um dos símbolos da luta pela jornada de oito horas de trabalho. Há quem diga que defendeu o ócio à revelia do sogro comunista; outros, que o panfleto foi elaborado a partir de anotações do próprio filósofo alemão.

A compilação de O Capital por Lafargue, publicada originalmente em 1893 e que está sendo editada agora no Brasil, reúne os mais importantes tópicos do primeiro volume -são três ao todo. Leitor ávido de romances, Marx sabia ser espinhoso o capítulo inicial de sua obra, em que analisa a mercadoria, mas garantia, no prefácio à primeira edição, em 1867: “Não se poderá alegar contra esse livro dificuldade de compreensão”.

Nisso o barbudo que inspirou socialistas do mundo inteiro se equivocou: O Capital é considerado difícil até por marxistas. “Eu não li. Não entendo de economia e matemática o suficiente. Além disso, não acho que para ser marxista é preciso ler O Capital“, defende o deputado federal Roberto Freire, presidente do PPS (Partido Popular Socialista), que um dia já foi PCB (Partido Comunista do Brasil).

“Discordo inteiramente”, diz a cientista política Maria Victoria Benevides, que não leu e por isso prefere não se afirmar marxista. “Para ser marxista, no sentido de adepto de uma corrente de pensamento, é óbvio que tem que se ler O Capital. Não todinho, que eu nem com água-benta em cima consigo, só com intérprete de economia. Aquela linguagem matemática me é estranha, tenho muita dificuldade.”

“Tem que ler inteiro, sim. Um clássico diluído é como vinho com água, perde o sabor”, defende o filósofo Denis Rosenfield, que leu e gostou. “Alguém disse que a partir de determinado momento os marxistas já não conheciam Marx, porque não tinham lido O Capital. Viraram marxistas de ouvido. Um marxista que se baseia apenas no Manifesto Comunista não sabe do que está falando.”

É incrível como um livro com quase 140 anos ainda acende discussões acaloradas. “É chato”, afirma o historiador Evaldo Cabral de Mello. “É muito melhor pegar um intérprete atual que o debulhe, que troque em miúdos para o leitor do século 20. Um bom autor moderno, como Raymond Aron (1905-1983), de quem foi publicado recentemente O Marxismo de Marx, aplaina o caminho.”

“Para quem não quer entender a história contemporânea, deve ser uma chatice, mas para quem quer decifrar o capitalismo não é. A chave do mundo contemporâneo continua estando lá”, rebate o sociólogo Emir Sader, que conta ter lido os três volumes durante os seminários que aconteceram na USP no final dos anos 60. E ainda assim reconhece a dificuldade. “A gente lia 50 páginas a cada 15 dias. Aí dava.”

O filósofo José Arthur Giannotti, que leu o original em alemão (“é mais fácil”, afirma), não quis dar entrevista, mas fechou questão: “O Capital é capital”. E parece ser mesmo, até para leitores insuspeitos como o compositor Tom Zé, que o enfrentou na adolescência. “A leitura de O Capital quando rapazinho provocou em mim um impacto tão profundo quanto o que tive, na maturidade, ao ler o Bhagavad Gita. Como se antes estivesse no ignoto, no desconhecido, e de repente encontrasse onde pisar”, diz. O cineasta Cláudio Assis, de Amarelo Manga, que estudou economia, não leu o livro todo, mas também gostou. “O Capital é muito bacana.”

Bacana ou chato, todo mundo concorda que os extratos de Paul Lafargue podem ser muito úteis, embora o leitor comum encontre prazer de fato é no apêndice “Recordações Pessoais sobre Karl Marx”, no final do livrinho. Lá ficamos sabendo que as filhas de Marx o chamavam de “Mouro”, por causa de sua tez morena, que prometera a elas escrever um drama sobre os tribunos romanos Caio e Tibério Graco, e que planejava fazer uma obra crítica sobre A Comédia Humana, de Balzac, logo que terminasse seus trabalhos econômicos. O Capital não permitiu que Marx se tornasse um literato.

O LIVRO:

O Capital de Karl Marx – Extratos Por Paul Lafargue. Tradução de Abguar Bastos. Conrad Editora, 160 págs.

 

 

 

 


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(13) comentários Escrever comentário

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Rafael em 27/05/2013 - 19h29 comentou:

Nossa, depois a direita que é arrogante… "Até porque capitalistas em geral não costumam ser muito amigos da leitura, né?". Telhado de vidro, não?

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    ted tarantula em 28/05/2013 - 11h46 comentou:

    capitalistas só são amigos do capital..

RLdO em 27/05/2013 - 19h41 comentou:

Lembrei desta frase de Orwell: "Tornei-me pró-socialista mais por desgosto com a maneira como os setores mais pobres dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a qualquer admiração teórica por uma sociedade planificada." (Do prefácio da edição ucraniana de "A revolução dos bichos".)

Sobre "O capital", o capítulo da acumulação primitiva é lindo no conteúdo e no estilo, e nem tem esse economês todo… Não dá pra não ler…

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Ionara em 27/05/2013 - 20h45 comentou:

Estou lendo Amor e Capital, e amando! Acho que pode ser uma boa porta de entrada.

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Caio em 27/05/2013 - 21h54 comentou:

Sinceramente, não acho que seja realmente necessário ter lido "O Capital" para ser socialista/marxista, é um livro muito denso, complexo e técnico. Se fosse assim, todo físico teria de ler a obra de Newton para saber física clássica e todo biólogo teria de ler "A Origem das Espécies" para entender a evolução. O essencial mesmo seria ter contato com as ideias gerais do livro, mas ler também não faz mal.

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Miguel em 28/05/2013 - 09h52 comentou:

Tornei me socialista assim que tomei consciência de que não era dono nem dos modos e nem dos meios de produção e percebi que a renda da produção ficava concentrada ficava nas mãos de poucos, gerando grandes desigualdades sociais. A leitura de O Capital foi feita aos poucos, nunca sei se o terminei de verdade.Conheço Marx mais por seus comentadores e pelas aulas na Escola de Sociologia..

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Malvina Cruela em 28/05/2013 - 11h48 comentou:

Todos os grandes patriarcas judeus (Moises, Cristo, Marx, Freud) são mesmo – alguém já disse com muito mais propriedade – são mesmo é criadores de religiões..seculares ou transcendentais pouco importa. Naturalmente dessas religiões todas as mais estranhas são o Freudismo e o Marxismo, mas ambos tem tanto de religião quanto o judaísmo e o cristianismo, até mais as vezes. Todas dependem essencialmente de crentes, de seguidores, profetas, sacerdotes,sub seitas, heresias, inquisições, igrejas, cleros, fanáticos e malucos em geral.

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    Martins em 05/05/2018 - 13h42 comentou:

    Freud te expica

damastor dagobé em 28/05/2013 - 11h49 comentou:

vou esperar o filme…

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Felipe Martins em 29/05/2013 - 12h40 comentou:

Já fui muito mais socialista do que hoje. Acredito que, dada a complexidade da sociedade atual, fica difícil o estabelecimento de uma sociedade plenamente socialista. Sou mais adepto do revisionismo das teorias de Marx, inclusive acredito que sua obra mais interessante, do ponto de vista filosófico, seja "A Ideologia Alemã", grande obra que sempre visito na minha estante. O "Manifesto" é um mero panfleto. "O Capital" é a perfeita análise do capitalismo, naquele momento histórico. Rever a teoria de Marx a adaptá-la no combate ao instinto predatório do capitalismo será o grande desafio dos socialistas. Excelente tópico Cynara.

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Lucas em 17/11/2013 - 14h58 comentou:

Bom, queria apenas apontar um pequeno/grande erro no texto. PCB é o Partido Comunista Brasileiro, o Partido Comunista do Brasil possui a sigla PCdoB. Bjo grande.

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Euclides em 06/05/2018 - 01h51 comentou:

Comecei aos 16, 17, com a leitura de “Os socialistas utópicos”. Não precisa de sincronia para ser socialista, mas de muita sincronia com o próprio tempo. Parabéns, Cynara.

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Moises Marques Minato em 04/05/2019 - 10h44 comentou:

O comunismo marxista na teoria é exelente, mas na prática é um desastre.

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