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Gervásio Baptista e a história por trás da famosa foto de Tancredo “se recuperando”

Lendário fotógrafo, morto aos 95, é o autor da imagem feita para tranquilizar o país sobre a saúde do presidente e que surtiu efeito contrário

Foto: Gervásio Baptista
Da Redação
09 de abril de 2019, 08h38

Entre as incríveis imagens capturadas pelo fotógrafo baiano Gervásio Baptista em sua carreira de 80 anos no jornalismo, uma chama a atenção por uma peculiaridade: feita para tranquilizar o país, a foto de Tancredo Neves “se recuperando” suscitou ainda mais dúvidas quanto ao estado de saúde do então presidente eleito e gerou boatos sobre se estaria vivo ou morto no momento do clique. A célebre foto foi tirada por Gervásio no Hospital de Base de Brasília no dia 25 de março de 1985. Menos de um mês depois, a morte de Tancredo era anunciada, em 21 de abril.

O fotógrafo, falecido aos 95 anos neste domingo, se irritava com as lendas em torno da fotografia. Na época, até mesmo reportagens jornalísticas afirmaram que havia uma enfermeira agachada por trás do sofá, segurando frascos de soro. Uma matéria da revista Veja garantiu que o presidente, o último eleito pelo colégio eleitoral (e primeiro civil desde 1964), tinha duas sondas injetadas no braço. Os boatos de que Tancredo estava morto se espalharam pelo país, mas Gervásio sempre afirmou que era tudo mentira.

Até mesmo reportagens jornalísticas afirmaram que havia uma enfermeira agachada por trás do sofá, segurando frascos de soro. A revista Veja garantiu que o presidente tinha duas sondas injetadas no braço

“O sofá estava encostado na parede. A foto que falam era ele e dona Risoleta. A outra foto inclui os cinco médicos que estavam cuidando de Tancredo. Lembro que o principal médico dele estava abraçado, doutor Batista. Pedi ao doutor pra tirar a mão das costas do presidente para não dizerem que ele estava sendo amparado”, disse o fotógrafo em entrevista de 2008. Perguntado se houve alguma armação, respondeu peremptoriamente: “Não”.

Outra imagem da cena. Foto: Gervásio Baptista

“Eu estava no Rio, com uma dezena de profissionais, esperando o momento de voar, quando eu fui acionado por um policial que disse baixinho: ‘não comente nada. O senhor está indo ao apartamento do senhor Tancredo’. E lá eu fui”, contou Baptista ao jornal O Tempo em 2015. “Se eu não estivesse acompanhando a trajetória da doença, eu não acreditaria que ele sairia tão bem na foto. Ele estava bem. Fotografei ele e os médicos. E aí, pouco depois, aconteceu o que aconteceu.”

O “aconteceu o que aconteceu” de Gervásio foi uma hemorragia apenas três horas depois da foto, o que obrigou os médicos, a transferir o presidente enfermo de 75 anos para o Instituto do Coração, em São Paulo. Tancredo nunca chegaria a tomar posse: foi internado com suspeita de apendicite no Hospital de Base do Distrito Federal em 14 de março de 1985, na véspera de receber a faixa. Morto, seria substituído pelo vice, José Sarney, de quem Gervásio se tornaria fotógrafo oficial.

A comprovação de que não se tratava de um “morto-vivo” é uma terceira imagem capturada por Gervásio naquele dia. Nela, Tancredo aparece esboçando um sorriso ao lado de sua mulher, Risoleta.

Foto: Gervásio Baptista

Em mais uma das fotos feitas por Gervásio Baptista, aparecem Tancredo, Risoleta e os médicos.

Foto: Gervásio Baptista

“Morto? Que história é essa? Estava vivíssimo. Eu me negaria a fotografar se não fosse verdade”, disse, indignado, Gervásio, em 2015, ao canal Última Cortina.

Em Assim morreu Tancredo, o porta-voz Antonio Britto conta a Luís Cláudio Cunha que a única “armação” em torno da foto foi retirar o presidente do quarto e levá-lo para a sala onde posaria para as lentes de Gervásio. “O presidente vestiu o robe de chambre sobre o pijama e colocou uma echarpe para cobrir o pescoço, embora ali não tivesse nada. Ele tinha apenas duas sondas, uma de soro e outra de alimentação parenteral. Aí o presidente saiu de seu quarto, numa cadeira de rodas, acompanhado de dona Risoleta e enfermeira, que segurava os dois frascos de soro. O cenário estava pronto: tínhamos juntado dois sofás que estavam num canto da sala, e formamos um conjunto em forma de ‘U’: um sofá de três lugares no centro e dois jogos de dois lugares nas laterais. Colocamos uma mesa de um lado e trouxemos flores. Dona Risoleta mudou um pouco o jeito das flores.”

Britto continua: “Eu, que só tinha visto o presidente entrando e saindo do centro cirúrgico, falei pela primeira vez com ele desde a internação. ‘Como vai, Britto?’, saudou-me. ‘Tudo bem, presidente. Como vai o senhor? Vamos lhe incomodar um pouco’, disse-lhe. Ele parecia mais pálido, cansado e um pouco inchado. O Gervásio Batista se emocionou muito ao vê-lo, e não se cansava de repetir: ‘Mas, meu presidente, que bom lhe ver, meu presidente. Mas que bom!”. O dr. Tancredo se acomodou no sofá do centro, a enfermeira colocou os dois frascos de soro no chão, atrás do sofá, e saiu de cena.”

O presidente vestiu o robe de chambre e colocou uma echarpe no pescoço, embora ali não tivesse nada. Aí saiu de seu quarto, numa cadeira de rodas, acompanhado de d. Risoleta e enfermeira, que segurava os dois frascos de soro. O cenário estava pronto

Se houve alguma farsa na internação e morte de Tancredo, os responsáveis foram os médicos, não o fotógrafo. “Até o último momento, o dr. Henrique Walter Pinotti, que comandava a equipe que tratou de Tancredo Neves no InCor, mentiu aos jornais, aos jornalistas, à sociedade, a todos. Tudo em nome de um pretenso direito do Estado de tranquilizar a opinião pública e a Nova República. Foi divulgada, mantida e afiançada uma farsa perversa com a própria família, que acreditava na palavra da equipe médica de que ele sairia do hospital para tomar posse”, disse em 2010 o historiador Luis Mir, autor de um livro sobre a agonia de Tancredo. O laudo dizendo que se tratava de uma diverticulite era falso.

O fotógrafo Gervásio Baptista. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Segundo Mir, o que na verdade vitimou Tancredo foi um tumor, e os médicos, além de esconder da nação o real estado do paciente, cometeram uma barbeiragem ao decidir operá-lo. “A imagem é nítida quanto à existência de um tumor com necrose. De imediato, bastava entrar com antibioticoterapia, identificar o foco infeccioso e só depois operar. Na época, e ainda hoje, é esse o procedimento que deve ser adotado. Portanto, não havia urgência, não havia risco de vida, ele poderia ter tomado posse tranquilamente no dia 15.”

Apesar da fama das fotografias de Tancredo, as últimas do presidente com vida, Gervásio Baptista, que será sepultado nesta terça-feira em Brasília, considerava outra imagem presidencial a sua favorita: a também icônica fotografia em que Juscelino Kubitschek, de cartola na mão, inaugurava Brasília, em 1960.

Foto: Gervásio Baptista

Gervásio também fotografou o enterro de Getúlio Vargas, onde Tancredo aparece ao lado de João Goulart e de um emocionado Oswaldo Aranha, que discursa.

Foto: Gervásio Baptista

Veja outras fotos de Gervásio Baptista aqui.

 


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(1) comentário Escrever comentário

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James Winther em 09/04/2019 - 10h42 comentou:

Muito boa a matéria, obrigado e continue

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