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Agenda cultural Socialista Morena: estréia Sacco & Vanzetti, a peça, no Rio

No dia 15 de abril de 1920, dois ladrões armados invadiram uma fábrica de calçados na cidade norte-americana de Braintree, Massachussetts. O caixa e o vigilante morreram baleados. Semanas mais tarde, em 5 de maio, dois imigrantes italianos –um vendedor de peixe e um sapateiro– foram presos acusados do crime. A principal prova: Sacco estava […]

Cynara Menezes
10 de abril de 2015, 23h03
saccovanzetti

(Bartolomeo Vanzetti e Nicola Sacco pelo pintor norte-americano de origem lituana Ben Shahn, 1931-32)

No dia 15 de abril de 1920, dois ladrões armados invadiram uma fábrica de calçados na cidade norte-americana de Braintree, Massachussetts. O caixa e o vigilante morreram baleados. Semanas mais tarde, em 5 de maio, dois imigrantes italianos –um vendedor de peixe e um sapateiro– foram presos acusados do crime. A principal prova: Sacco estava armado, como muitos norte-americanos de então (e ainda hoje). A principal evidência, na verdade: eram estrangeiros e anarquistas, duas características que faziam de alguém naqueles anos um suspeito imediato, assim como são os muçulmanos atualmente.

Nicola Sacco (1891-1927), o sapateiro, tinha 28 anos. Bartolomeo Vanzetti (1888-1927), o peixeiro, tinha 31. Ambos atuavam no sindicalismo, como boa parte dos imigrantes italianos. No início do século 1920, o mundo operário dos Estados Unidos estava em plena ebulição, com a exploração capitalista por um lado, e, por outro, a consequente reação de um sindicalismo atuante e de forte inspiração anarquista e socialista. A perseguição não tardaria a vir. Milhares de sindicalistas foram presos, torturados e executados pelo “crime” de lutar contra as condições desumanas das fábricas, que empregavam mulheres e crianças em jornadas de até 18 horas diárias, de segunda a domingo (leia aqui outro post do blog sobre este período).

Os fortes indícios de que eram inocentes –inclusive a confissão de outro homem, em 1925–, e os protestos de trabalhadores e intelectuais que se seguiram em todo o mundo, foram incapazes de deter a condenação de Sacco & Vanzetti em um julgamento sem provas, com álibis desprezados e cercado de sensacionalismo midiático. Em 23 de agosto de 1927, a dupla de amigos foi executada na cadeira elétrica. Uma frase de Sacco soa bastante atual neste momento que o Brasil vive, de ressurgimento do fascismo e do anti-comunismo:

“Debs (Eugene V. Debs, sindicalista norte-americano), um grande homem em seu país, está preso por ser socialista. Ele queria que as classes trabalhadoras tivessem melhores condições de vida, mais educação, mas puseram-no na prisão. Por quê? Porque a classe capitalista é contra isto; a classe capitalista não quer que nossos filhos tenham educação superior ou que entrem em Harvard, não quer que os trabalhadores se eduquem; querem que os trabalhadores fiquem sempre por baixo e não andem de cabeça erguida”.

funeral

(A Paixão de Sacco e Vanzetti, Ben Shahn)

50 anos depois da execução, em 1977, o governador de Massachussetts, Michael Dukakis, proclamou a absolvição de Sacco & Vanzetti e reconheceu o erro do Estado no julgamento. A história dos dois anarquistas se transformou em um filme italiano de sucesso em 1971, com o astro Gian Maria Volonté no papel de Vanzetti, e a canção Balada Para Sacco & Vanzetti, de Joan Baez e Ennio Morriconne se tornou um hino contra a repressão em todo o mundo. O filme foi proibido no Brasil pela censura durante a ditadura militar.

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Em agosto do ano passado foram reveladas na Itália cenas inéditas do funeral da dupla de anarquistas, acompanhado por uma multidão nas ruas de Boston em 1927.

A partir deste final de semana, no Rio de Janeiro, a Companhia Ensaio Aberto encena a peça do argentino Mauricio Kartun inteiramente baseada no processo de Sacco e Vanzetti, desde a prisão e o julgamento até a execução. É a primeira vez que o texto é montado no Brasil –e, até onde sabemos, a primeira em que a história do sapateiro Sacco e do peixeiro Vanzetti é levada ao palco por aqui. A companhia, que tem um trabalho “assumidamente marxista”, segundo seu diretor Luiz Fernando Lobo, é um dos bons grupos teatrais do País que segue uma trajetória de esquerda, com origem no teatro operário.

A peça estreou no Armazém da Utopia, sede do grupo, no ano passado, e foi interrompida em virtude das obras para a Copa do Mundo na região do porto. “A ideia de montar o espetáculo surgiu da vontade da Companhia de discutir os grandes julgamentos midiáticos e de exceção, sem provas. Tudo a ver com o mensalão”, diz Lobo. “Com o passar dos anos a manipulação fica clara. Julgamento de exceção é sempre assim.”

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De acordo com o diretor, também houve a intenção de homenagear os portuários (o Armazém fica no Cais do Porto), que, ao lado dos operários têxteis, foram os que mais se mobilizaram na defesa de Sacco e Vanzetti no Brasil. “Nós nos dedicamos a estudar o teatro dos trabalhadores. Da maneira como os estudiosos burgueses do teatro falam, parece que Brecht surgiu do nada. Não é bem assim, é um movimento muito bonito que começa com o partido socialista alemão no final do século 19. Por isso o teatro político nasce na Alemanha”, explica Lobo. “Com Sacco & Vanzetti homenageamos a memória desse teatro e também os anarquistas, socialistas e comunistas que foram perseguidos por suas ideias ao longo da história.”

VÃO LÁ:

Sacco & Vanzetti

Companhia Ensaio Aberto/Armazém da Utopia

Av. Rodrigues Alves, Armazém 6 – Cais do Porto

Sextas às 21 horas; sábados e domingos às 19h

Ingressos: R$40 (R$20 estudantes)

Telefones: (21) 2516-4893/4857

 


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