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Trabalho

Trabalhadores formam primeiro sindicato do Starbucks na história dos EUA

Um barista da rede teria que trabalhar cinco séculos para receber o salário de apenas um ano do fundador da empresa

A logo do sindicato dos trabalhadores da Starbucks. Foto: reprodução
Da Redação
09 de dezembro de 2021, 21h14

Os empregados de uma loja da Starbucks em Buffalo, a segunda cidade mais populosa do Estado de Nova York, votaram nesta quinta-feira, 9 de dezembro, a favor de formar o primeiro sindicato de trabalhadores em 50 anos de história da popular rede de cafés. É esperado que a decisão repercuta nas outras 8953 lojas da Starbucks nos EUA e entre os trabalhadores de lanchonetes e restaurantes em geral, que estão entre os menos sindicalizados do país: somente 1,2% dos trabalhadores no setor são membros de sindicatos, contra 6,3% dos demais trabalhadores no setor privado.

Embora solitária, a decisão é considerada histórica porque confirma a ascensão que vive o movimento por direitos trabalhistas nos EUA. Em outubro houve uma onda de greves no país, com 100 mil trabalhadores mobilizados na ação chamada de Striketober (“outubro de greve”, em tradução livre). A paralisação envolveu trabalhadores na indústria, no cinema e entretenimento, professores e enfermeiros. À frente do combate à pandemia de Covid-19, os enfermeiros reclamam de baixos salários, condições indignas e desvalorização no trabalho.

Três lojas da Starbucks em Buffalo tiveram eleições separadas para decidir sobre a sindicalização. Os baristas e os supervisores de uma loja aprovaram o sindicato por 19 a 8, enquanto os trabalhadores da segunda loja rejeitaram por 12 a 8. A terceira loja não conseguiu chegar a um veredito porque alguns dos trabalhadores que votaram a favor não eram empregados fixos do local. Três outras lojas de Buffalo e uma no Arizona também estão tentando formar sindicatos.

O grupo, assim como outras redes de fast food, vêm enfrentando denúncias de baixos salários e jornadas de trabalho abusivas. Os trabalhadores reivindicam melhores equipes, mais treinamento e melhor remuneração, incluindo aumentos salariais constantes para os empregados que permanecem na empresa durante anos e então descobrem que seu salário não é muito maior do que o dos recém contratados.

Uma das críticas dos trabalhadores à Starbucks, que se gaba de ser uma empresa “progressista”, é que um barista teria que trabalhar cinco séculos para receber a retirada média anual do fundador e ex-CEO da empresa, Howard Schultz. “Na minha opinião, a Starbucks –uma empresa com lucros astronômicos de mais de 8 bilhões de dólares somente neste trimestre– pode tranquilamente negociar com seus funcionários”, disse o senador democrata Bernie Sanders, que apoia a sindicalização à frente dos Socialistas Democráticos dos EUA.

Foto: reprodução

Temendo a repercussão da decisão, às vésperas da votação a direção da Starbucks fez de tudo para evitar que os trabalhadores de Buffalo optassem pela sindicalização. Horas antes, anunciou que reajustaria o salário inicial na empresa para 15 dólares a hora e também aumentaria os salários dos contratados há mais de dois anos, além de fazer mudanças em seu treinamento e jornada laboral.

Os trabalhadores de Buffalo fizeram uma queixa ao NLRB (Conselho Nacional de Relações Trabalhistas, na sigla em inglês), órgão que fiscaliza o processo de sindicalização, acusando a direção da empresa de tentar intimidar e ameaçar os funcionários que estavam se movimentando por direitos trabalhistas. Uma das tentativas de intimidação foi a visita pessoal da vice-presidenta da Starbucks, Rossann Williams, e de outros executivos à loja de Buffalo, em setembro. Williams justificou que queria ver “com os próprios olhos” as condições de trabalho dos “parceiros” (como os empregados são chamados).

“Mais uma vez, a Starbucks tentou impedir os parceiros de votarem e, mais uma vez, eles falharam. Neste aspecto, se afastou tanto de seus valores originais que é difícil reconhecer a empresa na qual comecei. É exatamente por isso que precisamos de um sindicato: para que nossas vozes possam ser ouvidas e possamos trabalhar para fazer da Starbucks a empresa que amávamos ”, disse Michelle Eisen, barista da loja de Buffalo e uma das líderes do movimento.

“Esta vitória é o primeiro passo para mudar o que significa ser um parceiro da Starbucks e o que significa trabalhar no setor de serviços de forma mais ampla”, disse Michelle. “Com um sindicato, agora temos a capacidade de negociar um contrato que fará a Starbucks se empenhar em ser a empresa que sabemos que pode ser e nos possibilita uma voz real em nosso local de trabalho”.

Em declarações antes da votação, o CEO da Starbucks, Kevin Johnson, reclamou que as votações estejam acontecendo em lojas separadamente (o que é permitido pela legislação norte-americana) e não em conjunto, mas disse que irá respeitar a decisão. “Respeitamos o processo em andamento e, independentemente de qualquer resultado nessas eleições, continuaremos a ser fiéis à nossa missão e aos nossos valores”, declarou.

Com informações da NPR e do Workers United


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(1) comentário Escrever comentário

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Eduardo Santana em 14/12/2021 - 19h59 comentou:

Excelente e alvissareira notícia!

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