Nise, o gato e eu. Por José Carlos Peliano

Publicado em 8 de abril de 2016
(Nise da Silveira. Foto: Sebastião Barbosa)

(A psiquiatra Nise da Silveira. Foto: Sebastião Barbosa)

O economista José Carlos Peliano conta com exclusividade para o blog sobre sua amizade com a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), que passou à história por se rebelar contra as “terapias” agressivas que eram utilizadas para “tratar” pessoas com distúrbios mentais: eletrochoques, camisa de força, isolamento. “Isto é tortura”, denunciou Nise, que partiu para abordagens alternativas, como a terapia ocupacional e a arte.

Os ateliês de pintura e modelagem fizeram com que muitos artistas fossem descobertos entre os “loucos” que eram tratados por ela no Centro Psiquiátrico do Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro. No final da década de 1940, grandes exposições de arte apresentaram ao país nomes descobertos nos ateliês, como o do pintor Emygdio de Barros (1895-1986). A pioneira Nise, única mulher em sua turma de 157 formandos da Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, foi a grande inspiradora do movimento antimanicomial e da reforma psiquiátrica.

Além das artes, Nise da Silveira também introduziu cães e gatos na vida de seus pacientes, para que se apegassem a eles, criando um elo com o mundo real. “Observei que os resultados terapêuticos das relações afetivas entre o animal e o doente eram excelentes. Mas era difícil que essa idéia tivesse campo para desenvolver-se. No Brasil a aproximação entre doente e animal, infelizmente, ainda não era cultivada. Amigos distantes foram solidários: Boris Levinson, psicanalista americano, comentou por carta: ‘Sem dúvida, para muitos desses doentes, os animais eram a sua única linha de vida para a saúde mental'”, escreveu Nise no livro Gatos, A Emoção de Lidar, dedicado ao último dos seus bichanos, Carlinhos (em homenagem a Carl Jung) e atualmente fora de catálogo. Uma pena.

Ela dizia que os gatos são “excelentes companheiros de estudos, amam o silêncio e cultivam a concentração” e admirava a independência dos felinos, sempre ronronando ao seu redor no escritório. “Cultivo muito a independência. Por isso gosto do gato. Muita gente não gosta pela liberdade de que ele precisa para viver. No circo você vê tigre e urso, mas não vê um gato. O gato é altivo, e o ser humano não gosta de quem é altivo.” Em 1934, durante o governo Getúlio Vargas, Nise da Silveira chegou a ser presa durante 15 meses, acusada de comunismo, e ficaria oito anos na clandestinidade.

Neste post, além do texto de Peliano e fac-símiles de duas cartas enviadas por Nise da Silveira ao amigo, algumas fotos da psiquiatra com os gatos que tanto amava (se vocês souberem os autores de todas, me ajudem a identificar). Boa leitura.

***

Encontros com Nise
Por José Carlos Peliano

Segui o que queria e ganhei o que alumia. Foi desse jeito que cheguei a Nise da Silveira e dela fiquei amigo por alguns anos de encontros, aprendizados e encantamentos.

Meados dos anos 1980 até fins dos 1990. Vivia meus saudosos 30 e 40 anos. Trabalhava no IPEA na área social, que cuidava do mercado de trabalho. Em 1992 defenderia minha tese de doutorado em economia pela Unicamp/Campinas.

Conheci primeiro o marido de Nise, Mário Magalhães da Silveira, de fato seu primo, médico sanitarista, vigoroso marxista, humanista de primeira hora. Com ele aprofundei meus conhecimentos do marxismo, história da humanidade e importância da relação entre o ser humano e o ter humano.

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(Foto: Sebastião Barbosa)

Fui pela primeira vez à casa de Mário na rua Marquês de Abranches no Rio de Janeiro, perto do Largo do Machado, a seu convite, para estar mais uma vez com ele, jogar conversa fora ou dentro, dependendo do assunto. Ao lhe perguntar como ia passando, ele respondeu “atravessando”.

Pois atravessamos oceanos, países, regimes políticos, sistemas econômicos, desde a perspectiva marxista, abrangente, histórica, materialista. Aprendi tanto com ele quanto com meu curso de doutorado na Unicamp em 1982/83, guardadas evidentemente as justas proporções. Sua visão ainda clareia as alamedas por onde atravesso diariamente minhas perguntas e respostas.

Numa dessas visitas a sua casa eis que surge Nise, pequenina em tamanho, imensa em presença. Apresentados por ele, exibi meus parcos conhecimentos de psicologia, matéria que sempre me interessou. Ele se ausentava quando ela começava a abordar o tema. Ou não gostava ou não devia se sentir confortável. Não sei se era assim, mas a mim parecia, pois nunca lhe perguntei.

Sempre que chegava ao Rio fazia o que tinha de fazer e ia para a casa deles. Não, melhor dizendo, dela, porque, de repente, a partir da apresentação, ficava conversando mais com ela -ou só com ela, a depender da ocasião. Para mim, era uma apoteose, estar com uma gigante da psicologia analítica, mais escutando e aprendendo do que dando opiniões ou palpites.

A pequena grande mulher me tomou pelo afeto, desprendido, generoso e disponível, embora fosse direta, objetiva, sem rodeios. Ela sempre me teve como amigo de coração, conforme a dedicatória feita em seu livro Imagens do Inconsciente estampa para a minha vida afora: “Ao querido amigo Peliano sempre bem perto do coração”, em 13 de janeiro de 1983.

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Marx combina com Jung? Um marxista junguiano ou um junguiano marxista? Sim, mais ou menos isso. E se encaixa bem. Seja nas contradições da ordem capitalista, seja nos eventos numinosos do marxismo. O fato é que é uma combinação saudável de vida e trabalho. Principalmente a maneira de ver e ir desvelando o segredo da vida.

Minha amizade com ela era e foi uma imensa bênção espalhada em pelo menos quatro grande momentos distintos. Resumirei brevemente sem sequenciar em ordem datada. Encontros tidos sempre em seu apartamento do segundo andar ou em seu escritório logo acima no terceiro andar, o gatil, onde moravam seus gatos prediletos, segundo ela, amigos e conselheiros.

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Depois de algum tempo e vários encontros, um dia ela me perguntou se eu não gostaria de ficar no Rio trabalhando com ela e aprendendo a lidar com os meandros da psicologia analítica. Não só na Casa das Palmeiras e no Museu de Imagens do Inconsciente, mas também nas aulas por ela ministradas aos seus alunos no escritório do terceiro andar.

Emoção como essa nunca me bateu tão forte, querida e tentadora, na área vocacional ou profissional. Abracei-a emocionado, agradeci-lhe imensamente, mas não lhe respondi na hora. Ela sabia de minhas dificuldades e não me pressionou. Disse-me que pensasse com calma.

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Eu poderia ser hoje um psicólogo analítico junguiano. Poderia. Não aceitei, lamentavelmente, o maravilhoso convite porque, recém-separado, cabia-me dar uma pensão para minha filha e não poderia ficar sem o trabalho que tinha fora do Rio. Busquei alternativas, mas nada consegui. Perdi o bonde, mas não a esperança.

Por conta desse acontecimento dediquei a ela um poema feito em 1985, Estrela Guia, como agradecimento, admiração e encantamento:

estrela, estrela guia
estrela que me alumia
tem a mim como aprendiz


curva-se a sua guia
o universo que se cria
milhões de anos luz feliz

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Uma outra vez, às voltas com meu processo de individuação, sem saber como coordenar as coisas dentro e ao meu redor, falei com ela sobre isso. Calma e mansamente, ela me olhava dentro dos olhos procurando uma guia. Foi, então, que me disse para eu deixar de levar a vida só nos pensamentos. Mais ou menos assim: “deixe a mente de lado, siga em frente, toque nas coisas, faça sempre algo com as mãos, construa seu lado de dentro pelo lado de fora”.

Não sei se foi o que ela me disse ou se sua forte presença, mesmo à distância, o fato foi que aos poucos as coisas começaram a se encaixar, a tomarem outras formas, a me deixarem liberto. Na época, construía minha casa e passei a ajudar os pedreiros, carpinteiros e pintores. As mãos de minha casa me acolheram e me puseram em pé.

Uma terceira vez, enquanto ela me jogava o I Ching (quando conheci o oráculo), um de seus gatos prediletos pulou em meu colo e ficou amassando pão, como fazem. Ela se encantou e comentou: “não se mexa, não tire-o do colo, o gato só vem a você se ele percebe seus sentimentos. Ele gostou de você”.

Durante todo o tempo em que estive com ela aquele dia, o gato permaneceu comigo, ronronando. O resultado do oráculo foi igualmente surpreendente, deu o hexagrama número 1, as 6 linhas inteiras, chamado O Criativo. A mensagem fundamental é “o criativo opera sublime sucesso, amplia-se pela perseverança”. Pensativa, ela adicionou: “pode ter sido o gato que influenciou o I Ching ou este ao gato, mas é ainda possível que os dois se juntaram aqui por você”.

(Foto: Nilton Claudino/CorreioBraziliense)

De fato, o oráculo foi consultado por conta de um sonho que tive, onde caixas coloridas de vários tamanhos se movimentavam sozinhas em minha direção. Eu, menino, me assustava de medo até que uma mulher me dizia: “por que você vê as coisas pelo lado errado?”. Nise disse que o oráculo me apontava abrir as caixas que me chegassem na vida sem temor. Devia sempre crer para ver para só então ver para crer.

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A última vez foi dias antes de sua despedida desta vida. Fiquei pouco tempo com ela, no quarto, em cadeira de rodas, ela bem abatida, mal falou. De tempos em tempos, no entanto, me olhava profundamente como fizera outras vezes e apenas pronunciava meu nome: Peliano. Um agradecimento, um lamento, um acolhimento, uma exclamação, um adeus?

Pois eu agradeço incansavelmente sua amizade, lamento irreparavelmente sua perda, exclamo abertamente sua sabedoria, mas não lhe aceno um adeus por ela estar sempre comigo, em imagens e no inconsciente.

***

Vai estrear agora uma cinebio dirigida por Roberto Berliner sobre Nise da Silveira com Gloria Pires no papel principal: Nise- O Coração da Loucura. Veja o trailer:

Tem também um documentário inédito de Jorge Oliveira, Olhar de Nise:

 

 

 

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Jornalista tem complexo de elite

Publicado em 6 de junho de 2013

(Te cuida, Peninha, que o sobrinho do patrão é o Donald)

Quando eu trabalhei na Folha de S.Paulo pela primeira vez, em 1989, fui demitida porque confundi fisicamente o irmão de PC Farias, Luiz Romero, com o cientista político Bolívar Lamounier (parece bizarro, mas eles eram de fato parecidos). Na época, fiquei muito triste porque me pareceu uma bobagem diante dos furos que tinha dado em minha passagem-relâmpago por lá, e me senti como a namorada que é chutada no auge da paixão. Depois, refletindo, vi que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido ao meu ego de fedelha de 22 anos que já estava se achando, em pleno início de carreira, uma das maiores jornalistas do país. Também foi importante por me fazer perder rapidamente a ilusão de ser imprescindível e não apenas um parafuso na engrenagem deste grande negócio que se chama imprensa. Descobri cedo qual era o meu lugar.

Quatro anos mais tarde, quando o jornal me convidou para voltar, eu era outra. Meu entusiasmo e a vontade de fazer reportagens interessantes continuavam intactos, mas havia morrido dentro de mim aquela sensação de “pertencer” a alguma empresa que contratasse os meus serviços, de ser “querida” na casa ou de integrar uma “família”. Para mim, meu empregador passara a ser apenas meu empregador. E eu, uma mera operária da palavra, que estava por ali fazendo o meu melhor, mas que tinha claro que podia ser descartada a qualquer momento. Até porque, no Brasil, quanto mais você se torna experiente e se destaca numa empresa jornalística, e consequentemente ganha mais, não passa a ser o menos visado na hora dos “cortes”, e sim o oposto.

Esta visão pragmática não me tornou, entretanto, insensível ao descarte de vários contemporâneos que presenciei ao longo dos anos. Cada vez que um deles é chutado, ao contrário, sinto uma revolta ainda maior do que senti naquela primeira (e felizmente única) demissão. É como se fosse comigo. Sinto raiva quando lembro da vez que um amigo, excelente texto, foi dispensado, após 13 anos como repórter, e o primeiro que comentou foi: “Puxa, e olha que nunca dei um ‘erramos'”. Ou do que aconteceu recentemente com um fotógrafo querido, que comemorou pela manhã no Facebook os 20 anos de jornal e, à noite, voltou para publicar em seu mural que havia sido demitido. A empresa certamente nem se deu conta de que o fazia justo naquele dia. Na planilha de custos, aquele profissional impecável se resumia a alguns dígitos numa folha de pagamentos.

A esmagadora maioria dos jornalistas que conheci na minha já longa carreira são, como eu mesma, pés-rapados que ascenderam socialmente em virtude do seu trabalho, apurando, entrevistando, escrevendo, editando, fotografando. Infelizmente, com a ascensão social (somada ao convívio com o poder), os mal nascidos jornalistas se iludem de que passaram a integrar a elite, senão financeira, intelectual do País. É por isso que, como diz Mino Carta, “o Brasil é o único lugar onde jornalista trata patrão como colega”. Boa parte dos jornalistas acha mesmo que os patrões são colegas: colegas de classe. Patrões e jornalistas estariam lado a lado na elite. Não é à toa que tantos não se constrangem em escrever reportagens que representam uma classe a qual não pertencem de origem: se mimetizaram com ela.

É claro que jornalistas ficam abalados e tristes, sim, quando um companheiro de redação é demitido, mas não a ponto de fazer protestos ou de se organizarem para questionar as “reestruturações”.  E por que é assim? Eu acho que, no fundo, os jornalistas não reagem quando alguém vai parar no olho da rua porque, de certa maneira, se sentem solidários também com o dono, seu “colega”, na fria e corriqueira justificativa de de que “era preciso cortar os custos”. Como se a empresa onde batem ponto diariamente fosse um pouco sua, ao mesmo tempo que sabem que serão os próximos. Aquela bendita demissão 24 anos atrás me livrou de sentir esta síndrome de Estocolmo.

Não sei o que vai acontecer, no futuro, com o jornalismo impresso, em crise no mundo –e mais em um país de pouca leitura como o nosso. Não acredito que as demissões que se tornarão cotidianas sejam capazes de provocar na categoria uma consciência de classe que nunca teve e que, ao meu ver, nunca terá. A minha esperança é que a mesma internet que tem causado a fuga de leitores e os consecutivos cortes nos jornais proporcione um novo modelo de empresa de comunicação, alguma experiência individual, quiçá conjunta ou até cooperativa, em que possamos ser patrões de nós mesmos, para variar. As crises costumam ser boas para reconstruir. Oxalá nasça daí um jornalismo onde saibamos melhor nosso lugar na sociedade e a quem estamos servindo ao ganhar, com a notícia, o pão de cada dia.

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Por que entrei na Veja. E por que saí

Publicado em 5 de novembro de 2012

(Brenda Starr, repórter da HQ de Dale Messick)

No final de 1997, após minha aventura espanhola –economizei um dinheirinho e fui estudar Literatura Espanhola e Hispanoamericana em Madri–, voltei ao Brasil para morar em São Paulo. Desempregada, fui convidada por uma grande amiga a fazer um frila para a revista Marie Claire, onde ela era editora: uma entrevista com o pré-candidato a presidente Ciro Gomes que acabou sendo um dos mais marcantes trabalhos da minha carreira. Ciro abriu a alma, talvez mais do que gostaria, e a matéria de uma revista feminina surpreendentemente repercutiu em todos os jornais.

O sucesso foi tão grande que aquela entrevista, publicada na edição de janeiro do ano seguinte, foi a responsável por minha reinserção no mercado brasileiro após dois anos fora. Fui sondada por alguns veículos e acabei sendo convidada para voltar à Folha de S.Paulo, onde havia trabalhado na sucursal de Brasília, para ocupar uma vaga na editoria de Cotidiano. Meses depois, mudei para a Ilustrada, que almejava quando fui para a Espanha. (Qualquer hora tiro um tempinho para digitar a entrevista com o Ciro e postar aqui para vocês. É muito divertida.)

Sete anos mais tarde, em maio de 2004, eu estava havia apenas três meses trabalhando no Estadão quando a mesma querida amiga me procurou para fazer um convite: iria assumir a editoria de Brasil da revista Veja e queria que eu fosse para lá fazer coisas bacanas, reportagens especiais, entrevistas. “Quem você gostaria de entrevistar?”, ela perguntou. Respondi que sempre quis entrevistar Diego Maradona sobre política. Até hoje acho que seria uma entrevista e tanto. Ela ficou entusiasmada e eu também. Mas e hard news?, perguntei. Este nunca foi meu forte. “Ah, você vai ter que fazer, mas ocasionalmente”. Pensei uns dias e topei. Lembro que até comprei, num sebo de São Paulo, um livro de Oriana Falacci, a grande entrevistadora italiana, para me inspirar…

Costumo dizer que existem dois tipos de repórteres: os que têm boas fontes e apuram muito, mas têm um texto apenas razoável, e os que não têm tantas fontes nem são incríveis apuradores, mas escrevem bem. Eu não tenho fonte nenhuma e apuro o suficiente; o texto é o diferencial. Portanto, o primeiro choque para mim após a estreia na Veja foi que a alentada matéria de capa sobre corrupção que eu e dois colegas apuramos não foi escrita por nós. Eu escrevi o texto inteirinho. E ele foi inteirinho modificado para publicação. Obviamente não recebi aquilo de bom grado, mas uma colega que estava lá há mais tempo me acalmou dizendo que logo eu “pegaria o jeito” para escrever no estilo da revista e não mexeriam tanto no texto.

Bom, hoje sei que nunca iria “pegar o jeito” de escrever da Veja porque, para começo de conversa, não é o meu. Meus textos em geral têm bastante aspas, adoro colocar frases boas de entrevistados e especialistas para dar um colorido. Na Veja, podem reparar, os textos quase não têm aspas, é tudo assumido pelo redator. Além disso, tem uns clichês do tipo “os números impressionam” que eu não conseguiria incluir num texto meu nem que trabalhasse lá durante 100 anos.

Vi, de cara, que tinha entrado numa enrascada, que só piorou quando me destacaram para cobrir a campanha de Marta Suplicy à reeleição em São Paulo. Não havia ninguém no PT que aceitasse falar com a Veja. As fontes das reportagens tinham que ser pessoas, mesmo dentro do partido, de oposição à prefeita. Eu fazia a apuração possível, mas absolutamente nenhum daqueles textos foi escrito por mim. Àquela altura, eu só pensava num jeito de sair da Veja sem ficar desempregada –afinal, eu acabara de entrar no Estadão quando decidi ir para lá. E tinha um filho para criar, não sou nenhuma filhinha-de-papai para me dar ao luxo de ficar sem trabalhar.

Para driblar as dificuldades, minha amiga e chefe escalou outra repórter para trabalhar em parceria comigo: eu fazia a apuração pelo lado petista a partir de uma pauta sugerida por mim e ela redigia o texto e apurava o lado do PSDB, incluindo os obrigatórios elogios ao tucanato, como na reportagem dos políticos “picolés de chuchu”. Quem acompanha meu trabalho há mais tempo sabe que essa é uma pauta tipicamente minha, para tirar sarro de políticos. Foi transformada por Veja em uma peça de bajulação a Geraldo Alckmin –reparem que a reportagem em questão é assinada em dupla com outra pessoa, assim como várias outras do meu curto período na revista.

Algumas alterações foram menos dramáticas: o perfil do advogado Kakay, apesar de nenhuma frase do texto ter sido escrita por mim, pelo menos manteve-se fiel ao que apurei, não tem nada do que me envergonhe ali. A hilária história do “embargo auricular” foi descoberta minha, e já foi citada em vários perfis dele depois. Mas o único texto integralmente meu, desde o título, é a ótima entrevista que fiz com a namorada do senador Eduardo Suplicy, Mônica Dallari. Um furo. Sou, antes de tudo, uma repórter. E minha maior especialidade (é a segunda vez que volto a elas neste texto) sempre foram as entrevistas. Tenho um belo portfólio, modéstia à parte: escritores, políticos, atletas, cineastas.

Em revista, mais do que em jornal, pode acontecer de o redator-chefe modificar um pouco seu texto, isso não é incomum. Mas o difícil de tolerar em Veja, para mim, além de eles mexerem no texto todo, eram as torcidas de raciocínio. Certa vez, fui convocada a colaborar em uma reportagem sobre educação e me pediram alguém para falar sobre cotas. Lembrei de um antigo colega da faculdade que era do movimento negro, liguei para ele e peguei uma frase favorável às cotas. Qual não foi a minha surpresa quando a autora do texto simplesmente transformou a frase dele em contrária às cotas! Fiquei furiosa e felizmente, neste caso, consegui reverter. Mas o pior estava por vir.

Quando as discussões com minha chefe começaram a desandar em gritaria na redação, decidi que estava na hora de sair. Escrevi um e-mail para ela dizendo que preferia manter sua amizade e me demiti da revista. Ela aceitou, me pediu um mês para arranjar outra pessoa e saiu de férias. Neste meio tempo, me pediram uma matéria sobre as dívidas que Marta Suplicy deixaria a seu sucessor na prefeitura de São Paulo, que não eram mesmo coisa pequena. Mas no texto aconteceu algo pelo qual nunca passei em mais de 20 anos de carreira: foi incluída uma frase, entre aspas, que não apurei.

Em 14 anos de Folha de S.Paulo, entre indas e vindas, como repórter fixa ou colaboradora, jamais modificaram um texto meu desta maneira. Em seis anos de CartaCapital, muito menos. Em nenhum lugar onde trabalhei aconteceu algo nem sequer parecido. Está lá a frase, no primeiro parágrafo da matéria: “Parece a madrasta de Cinderela”. Não sei quem disse isto. Eu não a ouvi de ninguém, mesmo porque não tenho ascendência italiana nem conheço ninguém em Roma. Quando minha chefe chegou de férias, me encontrou arrasada. Tenho certeza que, se ela estivesse ali, a frase não teria aparecido magicamente no texto. Detalhe: não me importaria de fazer uma reportagem crítica ao PT ou a quem quer que fosse, desde que eu a tivesse escrito –e que fosse verdade. Isso se chama profissionalismo.

Felizmente, almas boas me ajudaram a sair da Veja logo depois das férias coletivas de final de ano, e em fevereiro eu começaria na revista VIP, onde já havia atuado como colunista, no ano anterior. Passei dois anos e meio na VIP, de onde não tenho nenhuma queixa, pelo contrário. Voltei a ter a coluna, fiz matérias engraçadas e algumas entrevistas bobas com bonitonas da capa, mas também com pessoas interessantíssimas, como o cineasta Hector Babenco, o jogador Zico e o produtor musical Nelson Motta, entre outras. (Com o tempo, postarei elas aqui, na seção vintage do blog.) Ironia: enquanto na Veja o que escrevia era trucidado, na VIP uma coluna minha concorreu ao prêmio Abril de 2006 como melhor texto do ano na categoria artigo.

Uma tarde, na VIP, uma das advogadas da editora Abril entrou em contato comigo para me comunicar que Marta Suplicy estava processando a Veja por conta daquela reportagem, e me perguntou quem foi o “jornalista italiano” que me disse a frase. Perguntei se tinha conhecimento de que as matérias da Veja eram mexidas depois de escritas, e ela me disse que sim. Falei, então, que não fora eu quem apurara aquela história e não tinha falado com jornalista italiano algum. Nunca soube o resultado do processo.

Se você me perguntar: mas isso acontece com todos os jornalistas que trabalham na Veja e eles aceitam, são coniventes com essa prática? Não sei, só posso falar por mim. Não sou o tipo de jornalista que coleciona inimigos. Coleciono amigos, essa é minha natureza. Tenho amigos em todos os lugares em que atuei como repórter, inclusive na Veja. Posso dizer que tem vários jornalistas excelentes na revista, por quem tenho apreço genuíno – minha querida amiga, por exemplo. Mas desprezo o veículo onde trabalham. Tenho razões de sobra para isso. Sinto consideração e carinho por todas as redações por onde passei. Respeito a editora Abril. Veja, não.

E sabem o que é pior disso tudo? Nunca entrevistei Maradona.

 

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