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Morre Gilberto Dimenstein, o Carl Bernstein de toda uma geração de jornalistas

Houve uma época em que todo repórter brasileiro queria ser como Dimenstein, que trocou o jornalismo investigativo pela atuação social

Gilberto Dimenstein e a mulher, Anna Penido, em 2018. Foto: facebook
Cynara Menezes
29 de maio de 2020, 15h30

A partir da segunda metade da década de 1980, todo estudante de jornalismo no país sonhava trabalhar na Folha de S.Paulo, o “jornal das Diretas-Já”, e ser o Gilberto Dimenstein (1956-2020). Com este sobrenome marcante de origem polonesa que muita gente fala errado até hoje, Gilberto se tornara o epíteto do repórter intrépido perseguidor de “furos”, o Carl Bernstein brasileiro para toda uma geração de jornalistas. Bernstein, Dimenstein. Até rima (mas a pronúncia é diferente: “bernstín” e “dimenstáin”).

Encontrar um propósito na vida e nos tornar seres humanos melhores: só pode ser esse o significado de estarmos enterrando tantas pessoas queridas em um período tão triste de nossa História

Em 1989, eu tinha 22 anos e dois de formada pela UFBA quando decidi ir para Brasília arriscar a vida e tentar, como todo mundo, virar repórter da Folha. Depois de alguns meses como estagiária na revista IstoÉ/Senhor, pedi a Bob Fernandes, o diretor de redação, que me indicasse para Gilberto Dimenstein, então diretor da sucursal de Brasília, ao lado de Josias de Souza. Bob, sabedor da influência de Dimenstein sobre nós, focas, tirou onda:

–Vai falar com Deus, hein?

De fato foi com as pernas bambas e o coração a mil que me dirigi, currículo em punho, até a antiga sede da sucursal, na quadra 104 Sul. Mas Gilberto me recebeu em sua sala e logo quebrou o gelo, muito simpático com sua fala mansa e mexendo no cabelo num auto-cafuné que para mim é sua marca, e chamou Josias para me conhecer. Acabei sendo contratada e, embora desta primeira vez tenha ficado pouco tempo, este seria o início de uma relação de 15 anos com a Folha, entre idas e vindas. Sempre que me via, Gilberto dizia que eu nunca devia ter deixado o jornal.

Ele mesmo foi deixando a Folha aos poucos, até porque perdeu logo o tesão para as matérias investigativas e partiu para um jornalismo de cunho social, de defesa dos direitos humanos e da infância. Em São Paulo voltamos a nos encontrar, Gilberto já à frente do projeto Aprendiz, que fundou no final da década de 1990 na Vila Madalena, voltado à educação de jovens carentes pela arte, e depois, do site Catraca Livre. Virou vegetariano, comprou uma bicicleta, deixou a carta de motorista vencer e passou a circular a pé, de metrô ou de carona com a mulher, Anna Penido.

Dimenstein poderia ter se tornado um repórter ainda mais famoso (e poderoso) do que foi, comentarista de TV onde desejasse, mas fez a opção por ser alternativo –e, diga-se de passagem, também foi multipremiado pela atuação social. Alguns de nossos colegas viam na decisão uma guinada motivada pela vaidade. Vaidade? E quem não é vaidoso nessa profissão, gente? Como se a inveja também não fosse muita…

Eu honestamente nunca vi Gilberto Dimenstein dedicado a alguma causa que não fosse voltada para o bem comum e para o Brasil. Não é à toa a raiva que ele sentia, nos últimos anos de vida, por ver Jair Bolsonaro e Donald Trump no poder, uma raiva que era, segundo disse em entrevista a Juliana Linhares, no UOL, até motivadora, porque o fazia levantar da cama todas as manhãs para reagir, nem que fosse através de uma postagem no twitter.

Discordamos politicamente muitas vezes, mas é impossível deixar de reconhecer que Gilberto manteve até o fim uma postura progressista, ética e íntegra diante da vida e do jornalismo.

De longe, acompanhei sua batalha contra a doença, que enfrentou com absoluta dignidade e um humor auto-depreciativo meio surpreendente para quem o conhecia, mas tipicamente judaico, como quando contou, sobre tomar canabidiol para aliviar a quimioterapia: “Exagerei na dose e apaguei com a cara no prato de lasanha”, riu. Dizia ter descoberto o amor de verdade graças à mulher, Anna, e lamentava não ter tido olhos e ouvidos para apreciar mais a música, o cinema e a arte em geral enquanto tinha saúde e juventude, sugado pela pressa e pela ansiedade características dos jornalistas.

Não têm sido fáceis estes dias de pandemia e de Bolsonaro na vida dos brasileiros e posso presumir como deve estar sendo terrível para quem, como Gilberto Dimenstein, ainda enfrentava um câncer incurável. Em dezembro do ano passado, num depoimento em primeira pessoa após o diagnóstico do tumor no pâncreas, a Ana Estela de Sousa Pinto, na Folha, o repórter confessava seus pecados e falava da busca por ser uma pessoa melhor.

“Grande parte da minha vida foi marcada pelo culto a bobagens: ganhar prêmio, assinar matéria na capa, o tempo todo pensando no próximo furo. É como se estivesse passando por um lugar lindo num trem em alta velocidade, vendo tudo borrado”, disse. “Descobri que meu pavor era passar a vida sem propósito. Olhei para trás, e, apesar de todas as minhas delinquências —que não foram poucas—, acho que fiz mais bem que mal. Mudei minha carreira para fazer um jornalismo que não é de filantropia nem altruísmo, mas de empoderamento, de usar a comunicação para promover causas.”

Encontrar um propósito na vida e nos tornar seres humanos melhores: só pode ser esse o significado de estarmos enterrando tantas pessoas queridas em um período tão triste de nossa história. Vá em paz, amigo.


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(7) comentários Escrever comentário

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SILVANIA ANDERE em 29/05/2020 - 16h34 comentou:

Eu também tinha ele como referência nos anos 80/90 Depois me afastei ideologicamente dele. Esta fase pós câncer eu tive muita admiração pelos depoimentos dele. Ele cresceu. Pena que não teve muito tempo para compartilhar isso com a gente. Hoje meu coração doeu quando eu soube. Fiquei muito triste! Fica na paz Dimenstein! Obrigada pela sensibilidade, Cynara.

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Geraldo ZIMBRA em 29/05/2020 - 17h00 comentou:

Lindo texto… parabéns

Acompanhei GD na minha juventude. Cheguei a assinar a FSP por um período só para ler a coluna que, com sagacidade e fácil leitura, nos fazia refletir e perceber a força que tinha a junção que ele fazia com as palavras.
Sabe aquele texto que, ao terminar, fica imaginando…. Falou o que penso…. assim foi minha relação com GILBERTO DIMENST EIN.
Que descanse em paz. Que a família se apegue aos valores espirituais que tenham para suportar e superar este momento de dor.

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José Claudio dos Santos em 29/05/2020 - 17h22 comentou:

Cynara, lindo relato. Não há dúvidas que ele influenciou toda uma geração, aliás, não só de jornalistas, mas, de gente comum como eu. Eu fico chateado quando penso que, algumas vezes, ele ajudou a chocar o ovo da serpente que estamos vivendo hoje. Enfim. Escolhas que fazemos na vida. Que descanse em paz.

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Oilda em 30/05/2020 - 00h30 comentou:

Agradeço ao 247 receber vc em minhas manhãs. Excelente texto! Conheço o lado socio- humanista de Gilberto em uma palestra do gari ao paraibano historiador que ele entrevistou. Mais um que se somará com o Renan/DCM no infinito, deixando o legado do jornalismo real e ético.🌻🏜️

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Roberto alves rodrigues em 01/06/2020 - 16h01 comentou:

Cinara em que cidade voce morou no extremo sul da Bahia. Sou de Itamaraju e aprecio muito seus comentarios.

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    Cynara Menezes em 01/06/2020 - 22h14 comentou:

    morei em mucuri, meu pai era bancário e moramos em vários lugares. mucuri foi entre 1975 e 1976

Ricardo Lima em 05/06/2020 - 10h18 comentou:

Ele pode ter se redimido, mas sua chegada em Brasília foi de uma arrogância e maldade muito grande. Ele enxotou os “velhinhos” da sucursal. Ele era protegido do Otavinho. Creio que tinham feito faculdade juntos.

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