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Deixem a rainha beber seus birinaites em paz

Quem garante que, sem seu adorado martíni vespertino, Elizabeth II viverá mais? E se for o contrário?

A rainha bebe uns bons drinques com Tom Hanks e Obama em 2011. Foto: Pete Souza/Casa Branca
Cynara Menezes
28 de outubro de 2021, 21h13

Gente jovem sai para tomar umas brejas, para tomar umas, para beber uns drinques. Mas, à medida que a gente vai envelhecendo, passa a tomar uns birinaites. A gíria idosa “birinaite” parece ter surgido em algum momento no começo dos anos 1970, dizem alguns que pela junção das palavras “birita” e “night”. Um anglicismo, pois. Que me serve como uma luva para este artigo.

No início de outubro, a Vanity Fair revelou que, aos 95 anos, Elizabeth II foi proibida pelos médicos de tomar seu martíni de todas as tardes. Após aparecer em público usando uma bengala e passar uma noite no hospital na semana passada, a monarca desistiu de participar da COP26, que se realiza a partir de domingo na Escócia, também por recomendação médica. A justificativa é poupar a rainha para seu Jubileu de Platina, ou 70 anos de reinado, no ano que vem.

Os drinques não parecem estar fazendo mal à rainha, pelo contrário. Aos 95 anos, pode-se dizer que Elizabeth II jogou uma partida inteira, passou pelos descontos, prorrogação e já está na disputa por pênaltis. O que vier agora é lucro. Para quê parar, então?

“De acordo com duas fontes próximas a Elizabeth II, os médicos teriam dito a ela para esquecer o álcool, exceto em ocasiões especiais, para assegurar que ela estará o mais saudável possível para seu calendário de outono e para as celebrações do Jubileu”, escreveu a revista, citando um amigo da família real, que teria dito: “Disseram para a rainha parar de beber seu drinque da tarde, normalmente um martíni. Não é um grande problema para ela, mas parece injusto que, a esta altura da vida, ela tenha que abandonar um de seus poucos prazeres”.

As britânicas são boas bebedoras: estão entre as mulheres que mais bebem no mundo e bebem tanto quanto os homens. Lembro de umas amigas escocesas que conheci em Madri, anos atrás, e que andavam para cima e para baixo abraçadas à própria garrafa de uísque, coisa que nunca vi por aqui. Há quatro anos, uma prima da rainha, Margaret Rhodes, revelou ao The Independent que Elizabeth II bebe quatro drinques por dia: uma dose de gim com Dubonnet e uma rodela de limão de aperitivo, antes do almoço; vinho durante a refeição; um dry martíni à tarde; e uma tacinha de champanhe antes de dormir.

O chef Darren McGrady, que cozinhou para a família real entre 1982 e 1993, negou que Elizabeth beba os quatro drinques diários, mas a fama de “conservada no álcool” da rainha já estava espalhada pelo mundo. O que se sabe é que o mix de gin e Dubonnet está tão ligado à família real britânica que o drink é chamado de “Rainha Mãe” (duas partes de Dubonnet, uma parte de gin), por ser o predileto da genitora da atual monarca, de quem ela herdou o hábito e pelo visto a longevidade etílica: tida como boa de copo, a matriarca viveu 101 anos…

É público também que os Windsors em geral são grandes fãs de gin. Tanto é que, no ano passado, o Palácio de Buckingham lançou uma marca própria da bebida, perfumado com verbena, amoreira e uma dúzia de ervas dos jardins da rainha, vendido no site oficial a 40 libras esterlinas (cerca de 311 reais).

O gin real. Foto: divulgação

Os drinques da rainha não parecem estar lhe fazendo mal, pelo contrário. Com quase 100 anos, pode-se dizer que Elizabeth II jogou os dois tempos de uma partida inteira de futebol, passou pelos descontos, pela prorrogação e já está na disputa por pênaltis. O que vier daqui para a frente é lucro. Para quê parar, então?

Às vezes superprotegem os idosos demais, sob a desculpa de prolongar ao máximo a vida deles. O que uma pessoa de 95 anos tem a ganhar abrindo mão de seus prazeres? Deveria ser o contrário: como nos resta poucos anos mais sobre a Terra, não devíamos renunciar a nada. E ainda fazer coisas que não fizemos antes

Num mundo onde os idosos são tão desprezados e maltratados, às vezes também os superprotegem demais, sob a desculpa de prolongar ao máximo a vida deles. O que uma pessoa de 95 anos tem a ganhar abrindo mão de seus prazeres? Deveria ser o contrário: como nos resta poucos anos mais sobre a Terra, ao chegar à maturidade não devíamos renunciar a nada. E ainda fazer coisas que não fizemos antes. Não faz sentido se poupar com tão pouco tempo pela frente.

Vamos supor que você tenha apenas mais dois dias de férias em uma cidade incrível: você aproveitaria ao máximo a viagem até o fim ou iria se comportar com parcimônia na ilusão de esticá-la? Penso na vida do mesmo jeito. A morte está à espreita de qualquer um, não só dos idosos. Ninguém sabe quando ela virá. Não faz sentido renunciar aos prazeres da vida tentando, de certa forma, driblar a morte. Quem garante que, sem o seu adorado martíni vespertino, a rainha viverá para participar do Jubileu? E se for o contrário?

Deixem a rainha beber seus birinaites em paz!

 

 

 

 


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