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Cultura

7 frases do Livro Vermelho de Mao citadas por Woody Allen em sua série de TV

Em "Crise em Seis Cenas", as palavras do líder chinês têm o poder de tirar da apatia um grupo de burgueses acomodados durante os anos 1960

Elaine May com o Livro Vermelho de Mao na série. Foto: reprodução
Cynara Menezes
21 de fevereiro de 2022, 17h44

Uma das cenas mais divertidas de Crise em Seis Cenas (2016), a série que Woody Allen escreveu, dirigiu e interpretou para o canal de streaming Amazon Prime, é quando as velhinhas do clube do livro de sua mulher na ficção, Kay, discutem as frases do Livro de Citações do Comandante Mao, também conhecido como O Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung. Como a série se passa nos anos 1960 e o livro só foi publicado em outros países a partir de 1966, presume-se que era uma novidade editorial –e que será capaz de transformar as pacatas donas de casa em ardentes revolucionárias.

Primeira edição em inglês do Livro Vermelho: Foto: Wikimedia Commons/CC

Kay, vivida pela legendária atriz, diretora e roteirista Elaine May, começa a série desfilando pela tela com uma taça de vinho aparentemente colada nos dedos e que a acompanha até mesmo na hora de dormir. Gradualmente, o opúsculo de Mao substitui a bebida em suas mãos e Kay não desgarra mais dele, a ponto de transformá-lo em livro de cabeceira. Para cada situação, ela tem frases do líder chinês prontas para sacar da manga, soltando-as diante do interlocutor como coquetéis Molotov.

Na reunião com as amigas, Kay fala da descoberta. “A princípio resisti, achei que seria enfadonho, mas fiquei fascinada pela sua sabedoria”, diz a terapeuta de casais, que define o “chairman Mao” como um brilhante filósofo político. “Vocês sabem quem é Mao, não é? É o homem que deu nome àquele casaquinho elegante”, ela explica, para júbilo das convidadas. “Eu amo aquela jaqueta Mao”, comenta uma das senhoras. “É muito simples, mas tem um charme discreto”, completa outra.

É delicioso ver como um simples livro tem o poder de criar dúvidas e fazer brotar pensamentos revolucionários em mentalidades acomodadas da burguesia norte-americana. As hilárias ações “subversivas” da dupla de octogenários já valem os seis episódios

O personagem de Woody Allen, o escritor S. J. Munsinger (claramente uma paródia de J.D. Salinger, como se verá), é um cético em política medroso ao extremo, como os habituais alter egos do diretor, e entra em pânico com a presença em sua casa da fugitiva Lennie, a jovem revolucionária vivida pela cantora Miley Cyrus e que é responsável por introduzir Mao nas vidas apáticas daquela galera. Votar certo é o suficiente para mudar o mundo?, todos passam a se perguntar, enquanto as velhinhas planejam deitar na rua peladas em protesto contra a guerra do Vietnã.

Na época em que foi lançado, o Livro Vermelho, que tem 427 citações de Mao em sua edição definitiva, se tornou um ícone da Revolução Cultural tanto quanto a tal jaqueta, superando a própria imagem rechonchuda do “Grande Timoneiro” nas peças de propaganda do Partido Comunista. Estima-se que bilhões de cópias em 20 idiomas foram distribuídas entre 1966 e 1969, isso sem contar as edições piratas. Até hoje, mais de 45 anos após a morte de Tsé-Tung, o livro é visto pelos chineses com simpatia e um toque de nostalgia.

Pôsteres com o Livro Vermelho

Em 2015, o Livro Vermelho de Mao voltou a causar furor ao ser brandido pelo líder trabalhista John McDonnell, em pleno parlamento britânico, para criticar o conservador George Osbourne em sua defesa da venda de ativos estatais para os chineses. “Vamos citar Mao, algo raramente feito nesta casa: ‘Devemos aprender a fazer o trabalho econômico com todos os que sabem como. Não importa quem sejam, devemos estimá-los como professores, aprendendo com eles com respeito e consciência, mas não devemos fingir saber o que não sabemos'”, e jogou o livreto em direção ao colega, para gargalhadas gerais.

Na série, é delicioso ver como um simples livro tem o poder de criar dúvidas e fazer brotar pensamentos revolucionários em mentalidades acomodadas da burguesia norte-americana. A excitação de Kay com a possibilidade de se tornar uma agente da transformação aos 80 anos, quando “devia estar preocupada com a prótese no quadril”, como diz seu marido pessimista, é contagiante. As hilárias ações “subversivas” da dupla de octogenários já valem os seis episódios.

Confiram abaixo algumas das citações de Mao Tsé-Tung que aparecem na série de Woody Allen. E não é que elas ainda fazem sentido?

1. “Política é guerra sem derramamento de sangue e guerra é política com derramamento de sangue”

2. “Há guerras justas e guerras injustas. Cuidado para não morrer numa guerra injusta”

3. “Nenhuma meta vale ser alcançada sem esforço”

4. “Uma pessoa desarmada é como uma ovelha numa floresta de lobos”

5. “As leis de uma nação são escritas na rua”

6. “Morte certa, vida imprevisível”

7. “O criminoso para uns luta pela liberdade de outros”

 


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(3) comentários Escrever comentário

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x em 22/02/2022 - 17h14 comentou:

SM, em respeito as dezenas de milhões de Chineses mortos por Mao e sua “revolução”, nem ele nem ele livro deveriam ser citados, tal qual Hitler e Minha Luta.

Responder

Ademar Amâncio em 05/03/2022 - 17h15 comentou:

”Bilhões” de cópias? É isto mesmo?

Responder

Ademar Amâncio em 05/03/2022 - 17h16 comentou:

A número 4 eu não citaria.

Responder

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