Marilena Chaui precisa se atualizar para parar de passar pano para o machismo de sua geração
Filósofa saiu em defesa do amigo Boaventura Santos, chamando as vítimas de "caluniadoras" e normalizando o assédio: "o que se determinou como inapropriado?"
A filósofa Marilena Chaui tem 84 anos. O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos tem 84 anos. São amigos e contemporâneos. Ambos, Marilena e Boaventura, são de uma época em que assediar sexualmente colegas era considerado “cantada”. Infelizmente, Marilena ainda não saiu dessa e por isso passa pano para o machismo de Boaventura.
Parece impensável que uma mulher culta e de esquerda seja capaz de normalizar que, enquanto diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Boaventura tentasse seduzir alunas sob sua supervisão. Mas é o que Marilena Chaui faz desde que as denúncias contra o amigo surgiram, em 2023. Ela prefere duvidar da palavra de 14 mulheres para avalizar o homem. “Sororidade”, para Chaui, deve ser um termo tão desprezível quanto “classe média”.
Respeito demais a atuação e o pensamento de Chaui, assim como respeito intelectualmente Boaventura. Por isso sei separar as coisas: não vou passar pano para assediadores e nem para mulheres que passam pano para assediadores. Se atualize, Marilena
Se os ataques de Marilena à classe média soam pueris na boca de uma filósofa, sua defesa corporativista do macho intelectual de esquerda causa engulhos. “O que é que se determinou como comportamento inapropriado?”, pergunta a veterana professora da USP, de forma ingênua até para uma mocinha de 15 anos, em recente entrevista à Folha. “Minha dificuldade em lidar com as acusações é esta: você não tem um esclarecimento do proibido e do permitido, do aceitável e do inaceitável.”
Ora, se Marilena Chaui ainda não sabe a diferença entre assédio e paquera, ela tem um problema. Segundo as suas vítimas (e eu não tenho razão alguma para duvidar da palavra delas), Boaventura tocou entre as pernas de alunas sem consentimento; convidou-as para reuniões em seu apartamento, onde os avanços aconteciam; fez comentários de teor sexual; e, repelido, praticou represálias às pesquisadoras. Tudo que um professor não pode fazer e que foi normalizado por uma mulher de esquerda em nome da “longa e feliz amizade”. Lamentável.
Em artigo que publicou em agosto em defesa de Boaventura, Marilena Chaui mistura a defesa da democracia na trajetória do sociólogo com as denúncias sobre seu comportamento pessoal. Basicamente como se os escritos de Karl Marx sobre o comunismo o inocentassem de ter assediado e tido um filho com a empregada. “Mas ele defendeu os trabalhadores! E daí se ele traiu a esposa grávida com a empregada da família?” –esse argumento é tão descabido atualmente quanto a defesa apaixonada de Boaventura por Chaui, que chega ao absurdo de chamar de “caluniadoras” as mulheres que o acusaram de assédio.
A defesa apaixonada e corporativista de Boaventura por Marilena causa um dano imensurável à causa feminista, porque estimula outros intelectuais em posição de mando a agirem da mesma forma. Além disso, será usada na Justiça contra as vítimas, já que o sociólogo está processando suas acusadoras
“Caluniadoras, com fraude, malícia e inveja”, ela define. “É malévolo imaginar que o defensor de uma vida decente pretendesse aproveitar-se de uma suposta ingenuidade delas para assediá-las sexualmente, pois convém não esquecermos de que, como bolsistas do Centro de Estudos Sociais, as caluniadoras usufruíram de uma tradição acadêmica de boas condições de vida e de trabalho mediante procedimentos acadêmicos de remuneração de bolsas de pesquisa, e não por meio de favores sexuais. Não só isso. Ao atribuir-lhe falsamente uma vida indecente, as caluniadoras ferem os ideais dos movimentos feministas, pois não há de ser libertário valer-se da mentira como arma de libertação.”
Como Marilena Chaui sabe que Boaventura não assediou? Ela estava lá? Justificar que o sociólogo sempre se comportou bem com ela é ridículo: todo mundo sabe que a preferência do macho predador é pelas mulheres jovens, sobre quem têm mais poder, e não pelas que têm a sua idade. O próprio Boaventura, em artigo de 2023, admitiu que os comportamentos “inapropriados” de hoje eram normalizados no passado.
“Nascido em 1940, sou de uma geração em que comportamentos inapropriados, se não mesmo machistas, quer se trate da convivência ou da linguagem, eram aceites pela sociedade. Não é sempre fácil perceber conscientemente que se está a ter comportamentos que antigamente não eram vistos como inapropriados”, escreveu. “Não se trata de justificar comportamentos passados, apenas de verificar algo que pode acontecer e redundar em acções pouco construtivas. Reconheço que em determinados momentos posso ter sido protagonista de alguns desses comportamentos. Nessa medida, lamento que algumas pessoas possam ter sofrido ou sentido desconforto e por isso lhes devo uma retratação.”
É torpe e mesquinho por parte da filósofa acusar mulheres de mentir, como se Boaventura tivesse sido o primeiro homem de esquerda da academia a ser acusado de assédio sexual, e não é. Causa um dano imensurável à causa feminista, porque estimula outros intelectuais em posição de mando a agirem da mesma forma que Boaventura pois “não tem nada de mais”. Além disso, a defesa dele por Marilena Chaui será usada na Justiça contra as vítimas, já que o sociólogo está processando suas acusadoras.
Respeito demais a atuação e o pensamento de Marilena Chaui, assim como respeito intelectualmente Boaventura de Sousa Santos. Por isso sei separar as coisas: não vou passar pano para assediadores e nem para mulheres que passam pano para assediadores. Se atualize, Marilena. Aliás, mais um toque: atacar o “identitarismo”, como você anda fazendo, também é papel de macho hétero branco e não de mulheres, LGBTs, indígenas e negros –os chamados “identitários”, ou seja, gente desprivilegiada que luta em defesa de seus próprios direitos.
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[email protected] em 06/10/2025 - 16h54 comentou:
Infelizmente ainda aconte hoje , uma pessoa próxima a mim, foi ainda está sendo assediada pelo professor universitário dela ..reclamar onde??? Se eles detém o poder do silêncio..ameaças constantes..ajudem.por favor..
Daniel Paula em 07/10/2025 - 12h45 comentou:
Curioso como certos autores, sempre tão zelosos com a “democracia”, esquecem suas próprias regras quando o(a) acusado(a) incomoda a narrativa.
Dois pontos para não me alongar demais:
1) A autora desconsidera o art. 5º, LVII, da Constituição, que garante a presunção de inocência: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado”. Sem esse princípio, qualquer acusação vira sentença e o direito se converte em linchamento moral. Exigir provas e contraditório não é “passar pano”, é aplicar o devido processo legal (art. 5º, LIV e LV). A democracia só se sustenta quando a justiça é imparcial, não guiada por militância ou emoção.
2) O identitarismo é criticado por intelectuais e ativistas de várias origens, não só homens brancos. A filósofa negra Camille Paglia, a escritora Chimamanda Adichie e o sociólogo Thomas Sowell apontam que ele reduz pessoas a categorias e ignora mérito e universalismo cívico.
Mas, claro, é mais confortável manter o roteiro: quem discorda é “machista”, “elitista” ou “desatualizado”.
Pensar virou crime de opinião, e o tribunal é a militância — sem direito a defesa, mas com aplausos garantidos.
Cynara Menezes em 09/10/2025 - 13h02 comentou:
Camille Paglia negra? oi? acho que o chat gpt falhou, hein?
Daniel Paula em 09/10/2025 - 16h19 comentou:
Parabéns Cynara! Você é linda, maravilhosa!
Marília de Castro Silva em 22/01/2026 - 14h06 comentou:
Muito apropriada a sua fala, em 2025, sobre a atitude da filosofia de 84 anos, a partir das denuncias dos assédios do professor de 84 anos.
Passar pano é um termo tão antigo quanto os dois. A crítica sugere atualização.
Como aos 75 anos, resolvi ler Espinosa, atualizar meus estudos de filosofia, atualizei a importância da leitura de Chauí sobre a cultura brasileira.
Tive um sentimento do quanto essa filósofa teve de se conter para dialogar com os intelectuais desde quanto tornou se estudiosa de Espinosa.
Com seu texto, lembrei do meu professor de metodologia, colega de trabalho de meu marido.
Quando separei, fui a um almoço do departamento, conversamos muito, éramos todos amigos.
Ele me deu carona, foi ótimo, continuamos conversando tranquilos, despedimos, eu saí do carro.
Ele me chamou e disse: M. eu não te cantei não é por nada não, você é uma mulher que tem toda minha admiração. Num tô te desprezando ou qualquer coisa assim.
Uma cultura que assediar era elogiar, dizer que estava sendo reconhecida como sedutora. As mulheres esperavam esse reconhecimento.
Um status na sociedade dualista que não aprofunda de verdade na Libido. Sem cultura bioenergética.
A mulher é desejante. Os corpos por Reich tem anéis de tensão, carapaças, jogos e armadilhas.
Mais do que nunca quero conhecer e dialogar com Marilena Chauí. Sim levanto uma suspeição filosófica. Na relação com pessoas de diferentes gêneros e sexo o que nos afeta é histórico e datado. A pessoa é política, na atualidade filosófica.
Até hoje, não me conformo com o caso de um homem com as mãos na coxa de uma mulher.
Eu teria, na hora, agarrado no entre as coxas dele e dito: cê pirou, companheiro.
O Deus de Espinosa, a suspeição filosófica progride. Porém, ainda estou lendo a página 23 de Pensamentos metafísicos, faltam ética I.II.III.IV.V para eu ler o Tratado Político.
Por isso, quero viver mais 50 anos, pois foi em 75, que meu professor de filosofia disse: leia Espinosa, você vai gostar. Eu não li.
Obrigada pela atenção.