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Cultura

A curiosa interpretação de Kafka para o Dom Quixote de la Mancha

Afinal, era mesmo o "cavaleiro da triste figura" o real protagonista do clássico de Miguel de Cervantes?

Dom Quixote de la Mancha e seu escudeiro Sancho Pança por Salvador Dalí, 1946
Do Pijama Surf
02 de setembro de 2021, 20h31

Por Joaquín C.Bretel, no Pijama Surf
Tradução Cynara Menezes

Só um homem como Franz Kafka para ver o que ninguém vê e produzir a mais genial e original interpretação de Dom Quixote de la Mancha. O que define Kafka é seu olhar curioso e silencioso, sua capacidade de suportar a tensão e ver o que ninguém enxergou (porque não pôs atenção suficiente). Walter Benjamin escreveu que não sabemos se Kafka rezava, mas sua capacidade de prestar atenção recordava o que disse Malebranche: “a atenção é a oração natural da alma”.

O pequeno conto que compartilhamos a seguir foi intitulado A Verdade Sobre Sancho Pança. Kafka admirava profundamente o texto de Cervantes e produziu essa interpretação celebrada por Jorge Luis Borges, pois constitui o exato ponto em que a imaginação destes dois escritores se encontra, como dois grandes gênios da literatura fantástica e das interpretações alternativas da literatura.

A Verdade Sobre Sancho Pança*

Sancho Pança, que, por sinal, nunca se vangloriou disso, no curso dos anos conseguiu, oferecendo-lhe inúmeros romances de cavalaria e de salteadores nas horas do anoitecer e da noite, afastar de si o seu demônio –a quem mais tarde deu o nome de D. Quixote– de tal maneira que este, fora de controle, realizou os atos mais loucos, os quais, no entanto, por falta de um objeto predeterminado –que deveria ser precisamente Sancho Pança–, não prejudicaram ninguém. Sancho Pança, um homem livre, acompanhou imperturbável, talvez por um certo senso de responsabilidade, D. Quixote nas suas sortidas, retirando delas um grande e proveitoso divertimento até o fim de seus dias.

Para Kafka, o verdadeiro e único protagonista não é Dom Quixote e sim Sancho Pança. Este, atormentado pelos demônios e para sobreviver, se vê obrigado a inventar Dom Quixote

O grande editor e escritor italiano Roberto Calasso analisa esta interpretação, que lhe parece a mais bela de todas:

Para Kafka, o verdadeiro e único protagonista não é Dom Quixote e sim Sancho Pança. Este, atormentado pelos demônios e para sobreviver, se vê obrigado a inventar Dom Quixote. E o mais extraordinário é que, ao final das linhas que lhe dedica, Kafka diz que Sancho Pança é um homem livre. É a única vez que menciona a palavra livre. Nesta transferência de demônios, Kafka é como Sancho Pança. 

E esse é o ponto essencial: Kafka se identifica secretamente com Sancho Pança. Ele também criou toda a sua literatura, ele, como ninguém mais, para lidar com seus demônios, para transformá-los ou transferi-los. O que é a grande literatura senão uma forma de transferir demônios ou de capturar o espírito? A literatura de Kafka está possuída por estes demônios, alguns deles abstratos, e sempre com uma dimensão metafísica. Dom Quixote é o sonho mágico, o sonho criativo de Sancho Pança, da mesma forma que Gregor Samsa é para Kafka ou, de uma forma mais enigmática e pesadelesca, o que acontece com K em O Castelo e a Josef K em O Processo. Fica, no entanto, a pergunta: e Kafka, era um homem livre?

*Publicado no Brasil em Narrativas do Espólio pela Companhia das Letras, com tradução de Modesto Carone


(5) comentários Escrever comentário

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Antonio Claret Barbosa Ximenes em 02/09/2021 - 21h02 comentou:

Há um poeta espanhol, que lutou na revolução espanhola, que também fez uma interpretação muito linda de Don Quijote, Leon Felipe, na internet você acha: O Poeta Prometeico!

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Jacqueline em 03/09/2021 - 12h36 comentou:

Sempre acreditei nisso. Sou semioticista! Tenho a mesma percepção de Kafka .

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Mario em 03/09/2021 - 16h33 comentou:

Obrigado Cynara.

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Silvio Carlos Nobre em 08/09/2021 - 10h35 comentou:

Algo que faz todo o sentido dada a narrativa de Dom Quixote, mas é preciso um gênio para nos chamar a atenção.

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Ronau em 17/09/2021 - 20h44 comentou:

Que tal ler “Por uma literatura menor” de Gilles Deleuze?

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