Socialista Morena
Cultura

Marina Amaral, a brasileira que põe cores na História em P&B do mundo

Aos 25 anos, a artista mineira já teve seu perfeccionismo na manipulação de imagens reconhecido pela mídia internacional

A artista brasileira Marina Amaral. Foto: divulgação
Cynara Menezes
27 de janeiro de 2020, 19h28

A revista Wired a chamou de “mestre da colorização”. Aos 25 anos de idade, o perfeccionismo da artista mineira na manipulação digital de imagens históricas já foi reconhecido por reportagens na BBC, ForbesDeutsche Welle, RT, Washington Post, Vox, The Times

Marina Amaral embaralha as noções de espaço e tempo ao colocar cores na história em preto e branco do mundo, a ponto de a emissora britânica ter feito uma enquete na rua sobre a foto colorizada de Lewis Powell, um bonitão de aparência hipster que participou do complô para assassinar Abraham Lincoln, perguntando: “De quando é essa foto?” Ninguém acertou que havia sido tirada em 1865, mais de 150 anos atrás.

Nos 100 anos da Revolução Russa, em 2017, a artista brasileira colorizou, a pedido do site russo RT, algumas das fotos mais emblemáticas do período e dos líderes bolcheviques, além de imagens raras do czar Nicolau II em momentos de lazer com a família.

O czar e seu filho Alexei

Lenin e seu gato

Em 2018, uma foto de Marina viralizou nas redes sociais ao mostrar a aparência “real” da polonesa Czesława Kwoka, de 14 anos, morta pelos nazistas com uma injeção letal no campo de concentração de Auschwitz. O impacto da imagem foi tão grande que a artista decidiu criar o projeto Faces of Auschwitz, em parceria com o Museu de Auschwitz-Birkenau, em homenagem às vítimas do holocausto.

A menina polonesa em P&B e colorizada por Marina Amaral

No ano passado, Marina coloriu algumas das fotos de negros africanos escravizados feitas no Brasil em 1869 pelo alemão Alberto Henschel. O resultado impressiona tanto pela verossimilhança quanto pela beleza da cor da pele negra de homens e mulheres.

Fotos de Alberto Henschel colorizadas por Marina

Um dos trabalhos mais recentes da mineira foi a colorização da foto de Olga Benário Prestes no momento de sua prisão, em 1936, pouco antes de ser entregue, grávida, à Alemanha nazista. Olga morreria na câmara de gás no campo de extermínio de Bernburg seis anos depois.

A artista falou ao site sobre seu processo criativo e sobre a situação política brasileira, por e-mail.

Socialista Morena – Em todas as matérias contigo, te chamam de “autodidata”. Como descobriu este talento?
Marina Amaral – Eu sempre gostei de passar meu tempo livre no photoshop, desde os 12 anos. Foi uma curiosidade que surgiu naturalmente. Na época, eu passava horas assistindo tutoriais no youtube, explorando o programa, tentando entender todas as ferramentas e tudo o que poderia fazer ali dentro. Os anos se passaram e eu nunca me afastei desse hobby, apesar de nunca ter tido um objetivo específico em mente. Em 2015, porém, encontrei por acaso uma coleção de fotos da Segunda Guerra Mundial em cores, em um fórum de História. Apesar de já ter esse conhecimento prévio em relação ao photoshop, eu não tinha menor ideia de que era possível fazer algo assim. Fiquei encantada e resolvi tentar descobrir como aquilo era feito. Através de muita tentativa e erro, e de muita prática, comecei a desenvolver as minhas próprias técnicas e a ter um entendimento de como aquilo funcionava. Sou muito perfeccionista, então não passei um dia que seja sem praticar desde então. Comecei a estudar conceitos de Física para entender como a luz interage com certos objetos, com a pele humana, técnicas de pintura tradicional, fotografia… Acredito que essa dedicação a outras áreas de estudo foi a base e o diferencial, e é algo ao que me dedico ainda hoje, mesmo após ter consolidado minha carreira.

– Como é o processo de colorização? Como você “descobre” as cores das fotos, os pigmentos das roupas, as cores dos olhos, dos cabelos?
– A pesquisa histórica é parte essencial do meu processo. Sou muito chata com isso. Cada foto passa por uma análise que envolve, as vezes, até três ou quatro especialistas e historiadores diferentes. Eles identificam os objetos mais importantes e me passam as informações sobre as cores que devo usar. Uma foto da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, vai ter uniformes, veículos, medalhas. Todos esses itens possuem cores específicas que devem ser reproduzidas corretamente. É um processo demorado e que deve ser feito com muito cuidado. Ainda assim, preciso fazer escolhas artísticas com frequência para objetos “menos importantes”, porque é impossível mapear todos os detalhes. Faço essas escolhas tendo em mente a época em que a foto foi tirada, as cores mais comuns usadas, por exemplo, em vestidos daquele período etc.. Ainda que eu tenha certa liberdade, sigo certos parâmetros para que o resultado final seja consistente com a época da foto original.

Fidel e Che Guevara em 1959

– O que te move ao decidir colorizar fotos? Por que escolheu temas como a escravidão no Brasil, por exemplo?
– Sou apaixonada por História desde pequena. Minha mãe é historiadora, então cresci cercada por livros e documentários. Indiretamente, porque nunca foi uma imposição, isso me influenciou a seguir um caminho semelhante, e me encorajou a estudar pra tentar expandir minha compreensão de mundo. Também sou muito curiosa, o que fez com que eu quisesse aprender a usar o photoshop lá atrás, aos 12. Sem querer, tive a sorte de poder juntar as duas coisas e transformar em minha profissão. Nunca planejei trabalhar como colorista de fotos, até porque essa profissão nem existia quando comecei. Mas sempre tive muito claro que não gostaria de colorir por colorir. Eu queria levantar discussões maiores através do meu trabalho, contar histórias desconhecidas, falar de nomes importantes que nem sempre são lembrados. Por isso fundei Faces of Auschwitz, e por isso decidi restaurar as fotos do período da escravidão. Acredito e reconheço o poder que as cores exercem sobre a mente humana, e uso isso como uma ferramenta que me permite alcançar as pessoas de um jeito diferente. Essa é, aliás, uma conversa que tive com um neurocientista. Ao ver uma foto colorida do período da escravidão, por exemplo, o impacto emocional é mais profundo. Aquela pessoa retratada se torna mais real, e deixa de ser apenas um personagem em um livro de História. Uma vez que isso se estabelece, o subconsciente se predispõe a ouvir/ler mais sobre aquele assunto, e absorve as informações de maneira diferente: emocionalmente, e não apenas em um nível racional. É diferente de ler um livro cheio de fotos monocromáticas. Nosso cérebro aprendeu a interpretar o preto e branco como algo velho. As cores quebram essa barreira e criam uma ponte entre presente e passado.

Ao ver uma foto colorida do período da escravidão, o impacto emocional é mais profundo. Aquela pessoa retratada se torna mais real, e deixa de ser apenas um personagem em um livro de História. Uma vez que isso se estabelece, o subconsciente absorve as informações de maneira diferente: emocionalmente, e não apenas em um nível racional

– Como seu trabalho se mantém? Há alguma universidade por trás dele?
– Trabalho com diversas empresas do mundo todo. Instituições, canais de TV, jornais, revistas, museus, editoras, clientes privados. Também tenho um livro (The Colour of Time) lançado em parceria com o historiador britânico Dan Jones. Esse é um dos meus grandes orgulhos. Foi um projeto feito totalmente sem pretensões e acabou se tornando um bestseller internacional, traduzido para 12 idiomas até o momento. O próximo sai em maio deste ano no Reino Unido, e em agosto nos Estados Unidos. Estamos batalhando pela publicação no Brasil.

– Qual a importância histórica de “reviver” as cores de uma foto?
– Acredito que o grande valor está em aproximar as pessoas daqueles eventos retratados e tornar tudo menos abstrato. Isso facilita o entendimento e dá início a discussões que, talvez, se não fosse assim, não existiriam. Eu me sinto muito honrada e orgulhosa quando recebo emails de professores relatando como o uso das fotos em sala de aula mudaram a forma que os alunos se comportam nas aulas de história. Também fico muito feliz quando recebo emails de adolescentes pedindo indicações de livros relacionados a algum tema cuja foto eu tenha restaurado. Contribuir com a educação das pessoas é algo bastante valioso, e tenho muito respeito e gratidão por quem me dá a oportunidade de ser uma pequena parte disso.

Para a artista, colorir as fotos das vítimas do holocausto “é uma oportunidade de humanizá-las e devolver a elas um pouco do que foi tirado pelos nazistas. Para eles, eram só números. Por isso publico documentos e informações pessoais de cada uma delas”

– O que significou colorizar os rostos e as roupas das vítimas de Auschwitz para você, para elas e seus descendentes?
– É uma oportunidade de humanizá-las e devolver a elas, em certo sentido, um pouco do que foi tirado pelos nazistas. Uma das razões para as fotos terem sido tiradas em preto e branco é o fato de não haver qualquer preocupação em retratar aquelas pessoas como seres humanos. Para eles, eram apenas números. É por isso também que decidi publicar documentos e o maior número possível de informações pessoais referentes a cada vítima, junto com a foto original e a colorida. O objetivo do projeto é mostrar que cada pessoa tinha uma história, família, amigos, ambições, planos para o futuro. Alguns eram músicos, outros eram professores, advogados, médicos, escritores, cientistas… Nossa parceria com o Museu de Auschwitz na Polônia garante que tenhamos acesso não só às fotos, mas também aos documentos de registro, certificados de óbito, e a essas informações pessoais. Às vezes não sabemos nem o nome da pessoa, mas o fato de sabermos de onde ela veio já é um pedaço de informação muito valiosa. A escolha das fotos que são publicadas através do projeto é propositalmente feita de forma aleatória, porque nós queremos falar de todos os grupos perseguidos: judeus, homossexuais, testemunhas de Jeová, prisioneiros políticos…

A artista se preocupa com o “revisionismo e negacionismo” que vê hoje no Brasil. “Isso não tem, ou não deveria ter, absolutamente nada a ver com ideologia, mas com sensatez. Não dá para reescrever a História e adaptá-la até que ela não seja mais incômoda”

– Você colorizou uma foto de Olga Benário recentemente. Pretende se dedicar mais a personagens históricos do Brasil?
– Eu não tenho muitas oportunidades de fazer trabalhos direcionados para o Brasil, mas quero tentar cada vez mais incluir nomes e eventos importantes da nossa história no meu trabalho. Como tenho um público grande no exterior, é uma chance de apresentar para eles um pouco da nossa cultura e da nossa história, além de dar aos brasileiros a oportunidade de verem esses momentos retratados em cores.

– Você é muito ativa no twitter. Como vê a atual situação política brasileira?
– Com muito receio e preocupação. Um movimento de revisionismo e negacionismo vem ganhando cada vez mais força, e vivemos a era da pós-verdade. Acho que esse é um princípio que não tem, ou não deveria ter, absolutamente nada a ver com ideologia política. É uma questão de sensatez. Não dá para reescrever a História e adaptá-la até que ela não seja mais incômoda. Só olhando para trás e tentando compreender o que foi feito de errado é que nós aprendemos e evoluímos.

 


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
(2) comentários Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Dest em 28/01/2020 - 12h09 comentou:

Admiro o trabalho
Mas prefiro preto e branco
Acho que colorida fica muito artificial

Responder

Rafael Vertamatti em 25/02/2020 - 12h38 comentou:

nossa fica [email protected] pf

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Kapital

Como o Chile se tornou um laboratório neoliberal (e sua influência sobre o Brasil…


Em instalação, artista chileno conta a história dos Chicago boys que inspiram Paulo Guedes e a cumplicidade deles com os crimes de Pinochet

Politik

Nise, o gato e eu. Por José Carlos Peliano


O economista José Carlos Peliano conta com exclusividade para o blog sobre sua amizade com a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), que passou à história por se rebelar contra as “terapias” agressivas que eram…