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Cultura

A estranha conexão entre a morte de Bobby Kennedy e Scooby-Doo

Nos 50 anos de um dos desenhos mais populares da história, as circunstâncias que levaram à criação do simpático cão e sua turma

A turma do Scooby-Doo e sua Mystery Machine
The Conversation
03 de outubro de 2019, 22h57

Por Kevin Sandler, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo

Scooby-Doo, um dos personagens animados mais duradouros que já surgiram na televisão dos EUA, acaba de celebrar seu 50o aniversário.

Criado pelos estúdios Hanna-Barbera em 1969 para a manhã de sábado da CBS, a série original Scooby-Doo, Where Are You! (“Scooby-Doo, Cadê Você?”) estreou em 13 de setembro de 1969, ficou em exibição por duas temporadas e se prolongou por mais 15 séries subsequentes. A fórmula dos quatro adolescentes que desvendam mistérios –Fred, Daphne, Velma e Salsicha, juntos com o cão dinamarquês falante do título– permaneceu quase intacta enquanto o grupo abria caminho aos tropeções rumo à história da cultura pop.

A criação do Scooby-Doo não foi por acaso; foi uma jogada estratégica em reação a mudanças culturais e conjunturas políticas. A gênese da série está intrinsecamente ligada às revoltas sociais de 1968

Mas, como explico no meu próximo livro sobre a franquia, a criação do Scooby-Doo não foi por acaso; foi uma jogada estratégica em reação a mudanças culturais e conjunturas políticas. A gênese da série está intrinsecamente ligada às revoltas sociais de 1968 –sobretudo, ao assassinato de Robert F. Kennedy.

No final dos anos 1960, o estúdio de televisão e cinema Hanna-Barbera era a maior produtora de desenhos animados para televisão.

Bill Hanna e Joseph Barbera, os criadores do estúdio, em 1965. Foto: divulgação

Durante anos, a Hanna-Barbera havia criado desenhos animados de comédia –Tom & Jerry nos anos 1940 e 1950, seguido de séries televisivas como O Show do Zé Colmeia e Os Flintstones. Mas, nos anos 1960, os desenhos animados de maior sucesso eram aqueles que surfavam na onda do agente secreto, na corrida espacial e na popularidade dos super-heróis.

No que foi um momento decisivo da animação televisiva, as três emissoras norte-americanas –CBS, ABC e NBC– lançaram nove desenhos animados novos de ação/aventura na manhã de sábado no outono de 1966. E sobretudo Space Ghost, da Hanna-Barbera, e As Novas Aventuras do Super-Homem, da Filmation, se tornaram um hit entre a garotada. Estas e outras séries de ação/aventura apresentavam ação e violência ininterruptas, com heróis que se esforçavam para derrotar, e até mesmo matar, uma ameaça ou monstro, de qualquer maneira que fosse necessária.

Então, para a programação matutina de sábado em 1967-1968, a Hanna-Barbera forneceu às redes seis desenhos animados novos de ação/aventura, incluindo Os Herculóides e Homem-Pássaro. Lá se foram os dias das engraçadas travessuras barulhentas entre humanos e animais; em seu lugar, vinha terror, perigo, risco e ameaça à criança.

O especialista em comunicação Joseph Turow notou a fraca influência de entidades governamentais e grupos de pressão pública sobre a programação infantil em meados dos anos 1960 –o que permitiu que as redes atendessem às próprias necessidades comerciais e as de seus anunciantes

As redes, escreveu Sam Blum do The New York Times, “haviam instruído seus fornecedores de desenhos animados a produzir mais do mesmo –de fato, a pegar ‘mais pesado’– seguindo a teoria, que se provou correta, de que quanto mais terror, maior audiência nas manhãs de sábado”.

Tal terror tomou em geral a forma de “violência da fantasia” – o que Joe Barbera chamava de “ação pesada fora deste mundo”. O estúdio despejava essas séries sinistras “não por escolha”, explicava Barbera. “É a única coisa que conseguimos vender às redes, e temos que permanecer no negócio.”

Os comentários de Barbera destacavam a imensa autoridade então mantida pelas redes de televisão em ditar o conteúdo da programação matutina de sábado.

No seu livro Entertainment, Education and the Hard Sell (“Entretenimento, Educação e Vendas Agressivas”, na tradução literal), o especialista em comunicação Joseph Turow estudou as três primeiras décadas de programação para crianças das redes de televisão. Ele notou a fraca influência de entidades governamentais e grupos de pressão pública sobre a programação infantil em meados dos anos 1960 –o que permitiu que as redes atendessem às suas próprias necessidades comerciais e àquelas de seus anunciantes.

O declínio no regulamentação da televisão para crianças incitou críticas a respeito da violência, mercantilismo e falta de diversidade na programação para crianças. Sem dúvida inflamada pela supersaturação de desenhos animados de ação/aventura na manhã de sábado, a sociedade sem fins lucrativos National Association for Better Broadcasting (“Associação Nacional para Melhor Transmissão”, na tradução literal) declarou, em março de 1968, que a programação de televisão para crianças daquele ano havia sido a “pior na história da TV”.

Apreensões culturais sobre os efeitos da violência da mídia nas crianças haviam aumentado significativamente depois de março de 1968, concomitantemente com a cobertura televisiva da Guerra do Vietnã, dos protestos estudantis e da revolta popular incitados pelo assassinato de Martin Luther King Jr.. Como escreveu o historiador Charles Kaiser em seu livro sobre aquele ano crucial, a agitação estimulou cruzadas morais.

“Pela primeira vez desde sua invenção”, escreveu, “imagens televisivas fizeram a possibilidade de anarquia na América parecer real.”

Mas foi o assassinato de Robert F. Kennedy em junho de 1968 que iria banir os desenhos animados de ação/aventura da programação matutina de sábado por quase uma década.

O ajudante de garçom Juan Romero, 17, tenta socorrer Bobby Kennedy. Foto: Bill Eppridge/LIFE

O papel de Kennedy enquanto pai de 11 filhos estava entrelaçado à sua identidade política, e havia muito que ele lutava por causas que ajudassem as crianças. Ao lado de seu compromisso em acabar com a fome e pobreza infantis, ele havia, quando foi procurador-geral, trabalhado com a Comissão Federal de Comunicações para aperfeiçoar a “vasta terra inculta” da programação televisiva para crianças.

Poucas horas após Kennedy ser baleado, o presidente Lyndon B. Johnson anunciou a designação de uma Comissão Nacional de Causas e Prevenção da Violência. Embora os resultados formais da comissão não fossem divulgados até o final de 1969, exigências de maior controle e regulamentação social da violência na mídia surgiram logo a seguir ao anúncio de Johnson, contribuindo para o que os sociólogos chamam de “pânico moral”.

O pânico moral no verão de 1968 causou uma mudança permanente no panorama da manhã de sábado. As emissoras anunciaram que iriam deixar para trás a aventura de ficção científica e se dedicar à comédia para sua programação de desenho animado

A especialista em estudos da mídia Heather Hendershot explicou que mesmo aqueles que eram críticos às causas liberais de Kennedy apoiaram esses esforços; censurar a violência televisiva “em seu nome” para o bem das crianças “era como um tributo”.

Entidades como a Associação Nacional de Pais e Mestres, que estiveram condenando desenhos animados violentos nas suas últimas três convenções, se entusiasmaram. Os editores da McCall’s, uma popular revista de mulheres, davam dicas aos leitores para que pressionassem as emissoras a suspender a programação violenta. E um relatório do Christian Science Monitor de julho daquele ano, que averiguou 162 atos de violência ou ameaças de violência em apenas uma manhã de sábado, foi amplamente divulgado.

O pânico moral no verão de 1968 causou uma mudança permanente no panorama da manhã de sábado. As emissoras anunciaram que iriam deixar para trás a aventura de ficção científica e se dedicar à comédia para sua programação de desenho animado.

Tudo isso pavimentou o caminho para a criação de um herói animado mais suave e gentil: Scooby-Doo.

Os personagens de Hanna-Barbera

Contudo, a estreia da temporada matinal de sábado de 1968-1969 estava prestes a acontecer. Muitos episódios das novas séries de ação/aventura ainda estavam em diferentes etapas de produção. A animação era um processo longo, levando entre quatro e cinco meses para sair da ideia e ir ao ar. A ABC, a CBS e a NBC perderiam milhões de dólares em licenças e anúncios para cancelar uma série antes mesmo que fosse ao ar ou antes que terminasse o período do contrato.

Então, no outono de 1968, com muitos desenhos animados de ação/aventura ainda no ar, a CBS e a Hanna-Barbera começaram o trabalho numa série –a que afinal foi intitulada Scooby-Doo, Cadê Você?– para as manhãs de sábado dos anos 1969 e 1970.

Scooby-Doo, Cadê Você? inclusive fornece uma dose de ação e aventura. Mas os personagens nunca estão em perigo de verdade ou enfrentam sério risco. Não há nenhum super-herói salvando o mundo de alienígenas e monstros. Em vez disso, há só um bando de garotos trapalhões e seu cão, num furgão maneiro, desvendando mistérios. Os monstros que eles encontram são apenas humanos disfarçados.

*Kevin Sandler é professor Associado de Estudos de Cinema e Mídia da Universidade Estadual do Arizona

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