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A.p.C./D.p.C.: ser politicamente correto ou troglodita, eis a questão

      Virou modinha entre os reaças criticar o politicamente correto, como se fosse tolhedor da liberdade de expressão, censura disfarçada ou simplesmente coisa de gente chata. Associado ao pensamento de esquerda desde seus primórdios, o conceito de “correção política” foi defendido na década de 1970 pelo movimento negro nos EUA, mas só ganharia […]

Cynara Menezes
10 de dezembro de 2012, 18h37

 

 

 

Virou modinha entre os reaças criticar o politicamente correto, como se fosse tolhedor da liberdade de expressão, censura disfarçada ou simplesmente coisa de gente chata. Associado ao pensamento de esquerda desde seus primórdios, o conceito de “correção política” foi defendido na década de 1970 pelo movimento negro nos EUA, mas só ganharia força no mundo a partir dos anos 1980. Até então, não havia limites para a falta de educação e o desrespeito com o próximo: tudo era permitido.

Depois que o politicamente correto surgiu, passamos a ser menos cruéis, ficamos mais sensíveis às dores de nossos semelhantes e mais cuidadosos para não feri-los com palavras. Correção política não é sinônimo de censura, mas de polidez, de boa educação, de respeito. Muitos dos que chamam o politicamente correto de chato, no entanto, aparentemente se esquecem (ou preferem esquecer) de como era antes. Eu relembro:

ApC: pessoas com deficiência eram chamadas de aleijados, pernetas, manetas, cotós e outras expressões alusivas ao problema.

DpC: pessoas com deficiência são chamadas de pessoas com deficiência, deficientes ou de cadeirantes.

ApC: pessoas com síndrome de Down eram chamadas de mongóis ou mongolóides.

DpC: pessoas com síndrome de Down são chamadas de pessoas com síndrome de Down.

ApC: pessoas com deficiência mental eram chamadas de retardadas, abobalhadas, abestalhadas, debilóides.

DpC: pessoas com deficiência mental são chamadas de pessoas com deficiência intelectual.

ApC: piadas racistas eram consideradas inofensivas e eram amplamente toleradas até mesmo na televisão e no cinema, e inclusive diante dos próprios negros. Piadas com deficientes, idem.

DpC: piadas racistas são consideradas ofensivas e causam constrangimento às pessoas em geral, particularmente entre os negros –em alguns casos, podem ser razão de processo. Igualmente entre os deficientes.

ApC: em brigas no trânsito, era comum xingar o opositor com ofensas alusivas à sua orientação sexual ou à raça.

DpC: cenas assim já não são tão comuns (ou não deveriam ser), primeiro porque racismo é crime desde 1985 e a homofobia vai pelo mesmo caminho.

ApC: brincadeiras, piadas e apelidos vinculados à orientação sexual alheia eram tolerados e estimulados nas relações sociais e mesmo no ambiente de trabalho.

DpC: brincadeiras, piadas e apelidos inspirados pela orientação sexual alheia são considerados ofensivos em qualquer ambiente.

ApC: ser machista era considerado uma qualidade masculina, praticamente uma condição inerente ao homem heterossexual.

DpC: ser machista é considerado um defeito do homem, algo anacrônico e cafona.

ApC: era considerado superengraçado tirar sarro da aparência das pessoas: gorda, magra, alta, baixa, tudo era razão para apontar o dedo e rir.

DpC: tirar sarro da aparência das pessoas não tem a menor graça e tem até nome: bullying.

ApC: era normal chamar nordestinos de “baianos” (em SP) e “paraíbas” (no Rio), assim como associar comportamentos tolos ou de mau gosto a nordestinos: “coisa de baiano”; “coisa de paraíba”. Algo semelhante ocorria no exterior: os espanhóis, por exemplo, chamavam pejorativamente os sul-americanos de “sudacas”; nos EUA, os latinos eram “cucarachas”.

DpC: não é mais normal ser preconceituoso com nordestinos ou latino-americanos.

ApC: éramos trogloditas.

DpC: evoluímos – muito embora alguns ainda prefiram continuar a ser trogloditas.


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wagner de Paula em 10/12/2012 - 18h58 comentou:

Concordo com o ganho, mas há muitos que o confundem com "Bom tom" e não pensam na razão de existir, assim como não pensam numa moda recém lançada e assumida pelo grupo, um corte de cabelo da novela que é logo frisson, uma tendência de votar em A ou B , porque a maioria se deslocou em direção de A ou B . O criticismo também encolhe na medida que o politicamente correto se transforma em um manual de boas maneiras irrefletido O Politicamente correto não é parece ser algo prá ser copiado, pra "estar bem" com o grupo, há uma razão nele e muitas vezes ela escapa dos praticantes.
, nesta medida ele se transforma em um ato maquinal que não reflete humanização ou consciência ética ou moral. Quer me parecer que nesta medida ele é apenas uma fala de cicerone em excursões de pacotes para um grupo fechado.

Responder

Renan O. Pacheco em 10/12/2012 - 19h48 comentou:

O problema não é o politicamente correto em si, mas o exagero. Deixar de chamar o bolo nega maluca pra chama-lá de qualquer outro nome porque é racista, é exagero. Deixar de dizer, inofensivamente, que uma pessoa é negra (como se essa palavra fosse xingamento) pra dizer afrodescendente é exagero. É claro que o politicamente correto é bom, mas vem sendo exagerado.

Responder

    Ricardo B. em 11/12/2012 - 05h35 comentou:

    De acordo. O politicamente correto se torna chato quando vira exagero. "Atirei o pau no gato" nunca fez ninguém atirar um pau em um gato.

Reinaldo em 10/12/2012 - 19h51 comentou:

Cynara,
acho muito bom teus textos, eu tenho indicado o teu blog aos amigos, parabéns. o baiana arretada.
abraços
Reinaldo

Responder

Rogério em 10/12/2012 - 20h19 comentou:

Argumentação bem bobinha. A melhora global é efeito e não causa.

Responder

Francisco em 10/12/2012 - 21h10 comentou:

Eu lembro de um trecho do livro do Zizek (Vivendo no fim dos tempos) que antigamente quem defendia "bons modos" era a direita, pois os esquerdistas seriam hippies, etc. atualmente, cabe à esquerda ensinar bons modos à direita.

Responder

Marco Nascimento em 10/12/2012 - 21h35 comentou:

Muito bom. Escrevi isso aqui no site do Nassif há algum tempo, exatamente por conta dessa mania de acharem que politicamente correto de "patrulha".

Caro Nassif,
Aqui no seu blog, que é, sem dúvida, um espaço referência de democracia na internet brasileira, aprendi, dentre outras muitas coisas, a evitar as generalizações. Pois tenho identificado o uso recorrente desse recurso em relação ao que se convencionou chamar de "politicamente correto".
Politicamente correto é algo livre de conteúdo ofensivo, a minorias discriminadas, principalmente. Não há nada de errado nisso!

Está-se incorrendo na confusão sistemática de "politicamente correto" com "moralismo". Quem acusa o politicamente correto de tornar o mundo mais chato nega-se a considerar a relação de troca em que você pode perder em humor (do tipo que depende de algum preconceito pra existir), mas ganha em harmonia social.

Em pelada, como não há juiz, só há uma forma de evitar confusão generalizada: pediu falta, é falta! Quem decide se houve a falta é quem a sofre. Pois tem que ser meio assim. Se alguém se sentiu ofendido a ponto de reclamar, é porque houve ofensa! Tem que levar em consideração a opinião do ofendido. Alguém vai se ofender sem razão? Pode ser, mas vai ser o ponto fora da curva. Igual na pelada.
"Ah, é chato", pode ser, mas mudar é chato. Ninguém gosta. Eu tô disposto a me chatear um pouco pra ver menos "mayaras petrusos" e "luiz carlos prates" no futuro. Porque eles estão diminuindo, e vão continuar a diminuir, se a gente se dispuser a mudar. Mesmo que seja "chato".

Marco Nascimento,
a favor da política da pelada

Responder

    aasssssssss em 11/12/2012 - 20h28 comentou:

    Também sou a favor da pelada, democraticamente, seja política ou não..

marcia mendes em 11/12/2012 - 00h58 comentou:

prefiro e não me esqueço de ler a direita escrachada, pra avaliar o grau de fúria e idiotia. Os
bonzinhos do centro e da esquerda precisam sempre se provar em situações espinhosas.
Forçar muito a hipocrisia, sei não , dá sono aos leitores. O vocabulário dos tais politicamente
corretos é mais compassivo sim, mas é tão aborrecido quanto o dos idiotas .Refiro-me à acepção
de idiota cunhada por Nelson Rodrigues, reacionário e genial – caso raríssimo.

Responder

Trevisolli em 11/12/2012 - 13h50 comentou:

Muito bom Cy!

Responder

Rafael Leal em 11/12/2012 - 14h33 comentou:

O Brasil é um país que ainda permite mostrinhos como o Danilo Gentili façam o que bem queiram e ofendam a quem quiserem, algo impensável em outros países (lembrando do caso nos EUA do Kramer do Seinfeld, Michael Richards, que usou linguagem racista em uma rotina anos atrás e nunca mais conseguiu trabalho), e tem ainda gente querendo falar em "exagero do politicamento correto". É de amargar. Por isso que não sou otimista como a grande Cynara, e penso que ainda estamos longe de criarmos uma consciência social que realmente coloque os preconceitos do cotidiano brazuca como fatos anacrônicos, coisas do passado. Não, ainda é o nosso presente, e bem vivo, infelizmente.

Responder

Luiza Muniz em 11/12/2012 - 17h24 comentou:

Concordo que as nomenclaturas e algumas leis mudaram/estão mudando. Mas o que eu vejo no dia a dia é alguém usando p. ex.: 'deficiente intelectual ' com a mesma carga preconceituosa de 'retardado'. A consciência não veio junto com a mudança de denominação ou mesmo com a ameaça de processos contra racistas. Eu vejo sarcasmo. Não podem mais dizer aquele "preto", mas continuam achando o outro inferior.Tem coisa muito errada nesse 'politicamente correto' quando ele não vem junto com a inteligência mas apenas com a mudança supérflua no comportamento. Digamos que se proibisse de contar piadas machistas e racistas.Isso não diminui o racismo e o machismo, porque são frutos da ignorância. O foco, além das leis, tem que ser na educação. Ensinar por que machismo, racismo e etc são coisas estúpidas , fruto de desconhecimento como todo preconceito.

Responder

alex magno em 11/12/2012 - 20h24 comentou:

– Doutor Oftalmo, está aí na sala de espera um deficiente visual.
– É mesmo? Ele é míope?
– Não.
– Sofre de astigmatismo?
– Não?
– O que ele tem, então?
– Ele não vê absolutamente nada.
– Ah, então ele é cego?
– Não seja trogodita, doutor. Ele é só um deficiente visual.

Cai o pano.

Responder

    Rafael Caruccio em 07/01/2015 - 07h33 comentou:

    Magnânimo o teu comentário, Alex.
    Apenas um acréscimo: em alguns comentários acima eu pude ler coisas como a direita deve ser calada, está diminuindo etc., como se tudo se resumisse a política, inclusive a linguagem.
    Esquerda e direita sempre existirão, os teores é que irão variar. Se não existirem mais pessoas como o Prates, o Gentili etc., haverá nova divisão esquerda x direita a partir do referencial que restar. Direita serão aqueles que falarem somente Afro, ao invés da palavra inteira.
    O dia em que todos apoiarem cotas raciais, direita será quem apoiar percentual inferior, e assim por diante.
    Apesar de meu comentário ter extrapolado e muito uma mera resposta ao teu perfeito exemplo, eu reforço que: os panos cairão eternamente.

jon em 13/12/2012 - 02h27 comentou:

perai voces estao discutindo terminologia e nao estudaram terminologia??? vou colocar um artigo de um filologo ( pessia que realmente estuda a lingua e nao parte para achismos) prestem atençao no que ele fala…

http://www.aldobizzocchi.com.br/artigo67.asp

Responder

    Silvio Piovani em 14/12/2012 - 04h43 comentou:

    Artigo extremamente reacionário esse, ein.
    Primeiro, ele parte da premissa equivocada da isonomia liberal, ignorando desigualdades que merecem alguma espécie de "compensação", e entendendo que essa isonomia, por estar escrita, automaticamente implica em que todos têm as oportunidades, como se o texto escrito não precisasse de muito trabalho e afirmação para adquirir esse sentido literal.
    Segundo, o artigo ignora quando conveniente a ideia de que determinados termos têm carga significativa para além do dicionário, que carregam desdobramentos emocionais históricos, trazidos de épocas em que a ideia da exclusão era tida como legítima.
    A ideia do PC, para aceitar a sigla proposta, é bem explicada pelo Marco Nascimento e pela Cynara. É uma espécie de movimento linguístico, um fim e também um meio, para que reduzamos a carga excludente que determinados termos carregam em sua bagagem histórica. Mudamos os termos e nomenclaturas para que os novos termos cheguem sem a aura de preconceito que acompanha os termos antigos. Ainda que o sentido literal da palavra aleijado seja preciso para definir a condição do deficiente físico, ela não se presta a defini-la de uma maneira livre de preconceitos pois sua aplicação foi historicamente feita por e com discriminação. E assim, os novos termos são um fim em si mesmo, eis que a mudança, ainda que dita com preconceito, implica na noção de que são uma novidade e uma alternativa ao que antes tínhamos e era praticamente impossível de dissociá-los da discriminação. Vale dizer, quem tencionava mostrar que não partilhava do preconceito dominante, não encontrava meios de fazê-lo através de um termo que definia a condição, raça, ou o que quer que fosse objeto de discriminação, antes dos termos PC.

    morenasol em 14/12/2012 - 16h03 comentou:

    excelente comentário, silvio

    Rafael Caruccio em 07/01/2015 - 07h55 comentou:

    Mas Silvio, é justamente o tal "fim em si mesmo" que o linguista citado critica. Não leste a passagem em que ele diz que que o PC "camufla o problema em lugar de resolvê-lo"?

jon em 20/12/2012 - 13h58 comentou:

Reacionario ? ele é filólogo meu querido, ele estuda a origem das palavras sobre o contexto ele nao parte de achismos é muito facil taxar algo de reacionario, levado apenas pela emoçao… você confunde emoção/sua posição politica com o uso das palavras, é um chavão muito mediocre, alias, mude essa sua expressao de reacionario ela ofende certas pessoas e creio que o autor do artigo tambem, se voce tem dó das pessoas por usar certos termos pois isso causaria uma itriga comece mudando este primeiro que lhe foi ensinado em algum livro de conotação esquerdista.

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