Socialista Morena
Cultura

Brasília deu certo

Tenho um amigo que costuma fazer galhofa dizendo que Brasília não deu certo. Acho hilário, mas é calúnia

Uma das "tesourinhas" de Brasília. Fotos: José Maria Palmieri
Cynara Menezes
21 de abril de 2014, 14h06

Tenho um amigo que costuma fazer galhofa dizendo que Brasília não deu certo. Acho hilário, mas é calúnia. A capital de Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer e Lucio Costa não só funciona enquanto cidade como desenvolveu até esquinas. Brasília também tem quebradas, tesourinhas e nomes bizarros de “bairros” como Setor de Diversões Sul ou Setor Terminal Norte. Sinal que possui uma lenda própria. Existe. Deu certo.

“Sou de Brasília, mas juro que sou inocente”. A máxima do poeta candango (nascido em Cuiabá) Nicolas Behr resume o dilema dos habitantes da capital federal: ser xingado e culpado pelos males causados ao País pelos maus políticos. Trata-se, porém, de um paradoxo. Brasília é criticada por gente que não mora aqui por causa dos malfeitos de gente que tampouco mora aqui. Talvez seja este o pecado original, não obrigar os detentores de mandatos a morar onde trabalham, em vez de usar a cidade como dormitório.

Placa do cine Drive-In, único no Brasil

Como a “corte” não se transferiu de fato para a nova capital, Brasília não virou uma metrópole, e nem era isso que pretendiam seus criadores. Lúcio Costa pensou numa cidade com 600 mil habitantes no século 21. Não tinha em mente uma cidade grande, e Brasília cresceu até demais: as satélites, que Lúcio pensou que surgiriam só no ano 2000, apareceram antes da inauguração, em 1960, e hoje são 19. A explosão populacional trouxe o trânsito, problemas com o transporte público, violência urbana e falta de planejamento às satélites. E não trouxe vida noturna. Tudo fecha cedo, como se tivéssemos um país para salvar na manhã do dia seguinte.

Por outro lado, a capital cumpriu com louvor o destino de cidade jardim. Nas entrequadras, árvores frutíferas (mangueiras, goiabeiras, amoreiras, abacateiros) e, na grande avenida que corta a cidade de Norte a Sul, o Eixão, ipês se exibem em sequência: primeiro os amarelos, depois os cor-de-rosa, os roxos… por último os brancos. Na verdade, Brasília é uma cidade do interior ampliada. Tem quase tudo que uma cidade grande tem, sendo pequena. Por isso mesmo, o forte da capital é o dia: no começo, mesmo antes de ser traço, Brasília foi um céu. É um céu. A cidade planejada pelo homem está abaixo dele.

O Beijódromo de Darcy, na UnB

Vim morar pela primeira vez na capital em 1989, quando os principais personagens do rock Brasília já tinham pegado o caminho de volta ao litoral. Renato Russo do Legião Urbana, Herbert Viana do Paralamas do Sucesso e Dinho Preto do Capital Inicial não moravam mais aqui quando cheguei. Só Cássia Eller. Pertenço mais, portanto, à “Geração Baré-Cola” do que à “Geração Coca-Cola”. Explico: trata-se do documentário de Patrick Grosner, em breve nas telas de cinema, sobre a geração roqueira seguinte, da década de 1990, com bandas como Raimundos, Little Quail and The Mad Birds, Maskavo Roots, Oz. Baré é o nome da tubaína que fez a alegria da infância dessa moçada, hoje entre os 38 e os 46 anos.

Trailer do documentário Geração Baré Cola, de Patrick Grosner

Os anos 1990 foram uma época bem animada na capital. Havia um inacreditável bar punk instalado em frente ao Palácio do Planalto, conhecido como “buraco da bandeira” ou “buraco da Marly” –em homenagem à digníssima esposa do então presidente José Sarney. Também havia festas a escolher, vernissages receptivos a penetras descolados e várias casas noturnas que abriam e fechavam rapidamente.

Fiquei fora de Brasília 12 anos e, quando voltei, em 2008, tinha ocorrido um milagre: despoluíram o lago Paranoá, que se tornou um mix de piscinão de Ramos com Angra dos Reis sem nota fiscal –recentemente a PF apreendeu um iate avaliado em 5 milhões de reais, com duas suítes. No lago, bóias de pneu e colchões de ar convivem com barcos, stand up paddles, caiaques e jet skis. Também dá para pegar sol em clubes bacanas, há cachoeiras nas proximidades e um belo parque público com piscinas de água mineral, o Parque Nacional.

A ciclovia novinha

Dizem que Brasília é ruim para andar a pé, mas é uma meia verdade. De bicicleta, por exemplo, dá. A cidade é plana e tem ciclovias novinhas –até 2014 serão 600 quilômetros de faixas exclusivas. Muitos hotéis oferecem bikes aos hóspedes gratuitamente. Skatistas também amam deslizar pelo concreto liso e pelos grandes espaços niemeyerianos, sobretudo ao redor do Museu Nacional.

Me atrevo a dizer que o arquiteto só não acertou ao aproveitar pouco esta vocação solar da capital. Seus prédios menos interessantes são os que necessitam de luz elétrica o tempo inteiro, como o Panteão a Tancredo Neves ou o sorumbático Memorial JK, que nada tem a ver com a personalidade luminosa de Juscelino Kubitschek e está mais para tumba de faraó egípcio. As próprias cúpulas que abrigam os plenários da Câmara e do Senado perderiam o bolor se fossem iluminadas naturalmente. Fico pensando se o ar soturno daqueles lugares não favorece pensamentos igualmente soturnos…

Em homenagem aos 54 anos de Brasília, republico este texto que saiu originalmente na revista Carta Capital em 21/11/2013

 

 


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matheus em 21/04/2014 - 15h19 comentou:

bem que você poderia falar do gog. impossível falar de brasília, sem citar o gog. lindo texto, aliás.

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leo em 21/04/2014 - 17h19 comentou:

Fala sério! Com o trânsito e a violência como estão, como vc pode falar que Bsb – uma cidade planejada, diga-se de passagem – deu certo? Nasci aqui e a cada dia que passa aumenta minha vontade de sair.

Responder

    Mardete em 22/04/2014 - 19h07 comentou:

    Sai.

Luiz Paulo em 21/04/2014 - 17h57 comentou:

Quanto aos jardins e às áreas verdes, perceba que o excesso de carros criou a moda recente de estacionar em cima deles. Algumas quadras, como a SQN 104, já perderam uma quadra de esportes e um canteiro que agora servem aos que não têm vagas para os trambolhos ou, tendo, acham que estão longe demais (alguns não são apenas mal educados, são preguiçosos também). Por fim, os pedestres também sofrem: no Setor de Rádio e TV Sul, por exemplo, são as calçadas que servem à turma da má-educação. Por que o DETRAN-DF fecha os olhos? Não vale uma reportagem sobre o assunto?

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clarissa em 21/04/2014 - 18h27 comentou:

adoro tudo que voce escreve! que saco

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Vitor em 21/04/2014 - 19h24 comentou:

Conheço pouco Brasília, vou apenas a trabalho e raramente saio do circuíto Setor Hoteleiro Sul e Setor Comercial Sul… Na minha experiência, Brasília deu certo! Se o objetivo era deixar que a cidade fosse dominada por usuários de crack, mendigos e prostitutas… Ah, e com um toque de recolher silencioso a partir de 19h…

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    Andjei em 22/04/2014 - 20h26 comentou:

    Então procure conhecer melhor a cidade!

    Vitor em 23/04/2014 - 14h10 comentou:

    E você procure aprender a ler… Talvez passe a conhecer o significado de "na minha experiência"…

Grimm em 21/04/2014 - 21h49 comentou:

"Brasília deu certo" é a maior piada que li no dia de hoje; Prefiro levar na piada do que me sentir insultado. Brasília é o retrato escarrado da desigualdade de renda que assola esse país… Planejamento pra alguns, apenas, é o mesmo que não planejar. Pode ter dado certo como cidade, se o parâmetro for as demais cidades do Brasil, mas como cidade modelo que pretendia ser, falhou miseravelmente.
Além desses fatores, ainda há o custo disso, refletido na divida externa até os dias atuais. Se for colocar na balança, Brasília foi uma das maiores imbecilidades da história do Brasil. Até o faraonismo dos militares teve uma aplicação melhor executada e de melhor retorno, digo isso sendo um tremendo odiador da ditadura e seus feitos.

Esse texto tem uma argumentação rasa como água em chão de mármore, escrito por uma pessoa que tem como único argumento a empatia e visível memória afetiva por essa aberração que alguns ousam chamar de "cidade planejada".

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    vapuca em 22/04/2014 - 12h12 comentou:

    Corretismo seu texto e as cidades satélites o que são aquilo ao lado do poder central , total desprezo pelas pessoas como tanta desigualdade assim , insensibilidade total .

    Sumaia Villela em 22/04/2014 - 16h14 comentou:

    Caro Grimm,

    Os urbanistas, e consequentemente a cidade planejada, não podem mudar o SISTEMA sozinhos. Há desigualdade, periferia, descaso, especulação imobiliária como em todas as grandes cidades brasileiras, com suas características peculiares, claro, relacionadas ao fato de ser a capital do país. Acabar com esses problemas é um trabalho de todo o povo. Sem a gente, Lúcio Costa e Niemeyer nada podem, a não ser construir um sonho de concreto. A vida mesmo, quem dá são as pessoas.

    RENATO em 11/10/2017 - 11h25 comentou:

    só li verdades. achar que Brasília deu certo, é ser desonesto. ainda mais que a cidade de Brasília, a tal cidade planejada está para se tornar um dos maiores asilos do mundo a céu aberto.

Fernando em 22/04/2014 - 00h38 comentou:

modelo modernista de urbanismo já se sabe que não é o mais adequado

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Orem Dreyfus em 22/04/2014 - 12h33 comentou:

Brasília pode ter dado certo para aqueles privilegiados que conseguem pagar 500 mil reais num apartamento com 2 quartos e 50 anos de idade, pois é esse o preço mínimo que se paga para vive no Plano "jardim" Piloto, onde se tem árvores frutíferas perto da entrada do prédio. Também considero que Brasília pode ter dado certo para aqueles que vem trabalhar na administração federal com um salário de 15 mil reais, ora, com esse soldo eu viveria até em Nova Délhi e diria que é uma maravilha.

A verdade é que é uma cidade difícil de se viver porque tudo é longe e a cidade foi planejada para o transporte individual. Qualquer cidadão necessita virar sócio de um posto de gasolina para se movimentar aqui. Com isso, o trânsito piora cada vez mais, e já temos muitos problemas nos horários de pico. Levar duas horas para chegar em casa já é comum por aqui. As cidades satélites, onde vive 80% da população do DF, variam entre amontoados de classe média sem identidade e qualquer beleza, até aglomerados perigosos onde nem a polícia entra à noite. O Lago Paranoá tem suas margens completamente privatizadas, sem que a massa da população tenha acesso a ela, como seria digno em qualquer cidade decente.

Poderia falar muito mais sobre Brasília e as coisas que não deram certo por aqui, mas termino dizendo que qualquer brasileiro poderia viver muito melhor em outra cidade, com a mesma renda, do que vive na capital do Brasil.

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Eduardo em 22/04/2014 - 12h58 comentou:

Legal o texto, mas é exageradamente positivo. Sou brasiliense, mas meu amor pela terra natal não me cega em relação à aos problemas. Cidade altamente excludente, não se anda a pé, o filme Geração Baré Cola nem tem mais previsão de lançamento, quase não se faz mais rock na cidade. Em contrapartida, a cidade tem o Clube do Choro, na minha opinião a melhor casa de música instrumental do país, disparado. A política local é uma desgraça. Brasília até que é uma cidade boa, mas está cercada por um cinturão de cidades miseráveis, violentas e amorfas, como o resto do país, sem planejamento algum.

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Pedro em 22/04/2014 - 13h16 comentou:

mora lá então!

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eduardo em 22/04/2014 - 13h42 comentou:

peraí.. que cidade-satélite vc mora pra dizer um absurdo desses ??? cai na real vai..

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malvina cruela em 22/04/2014 - 16h45 comentou:

morena morena…vamos escolher melhor os temas…assim não dá assim não pode..gosto de vc, pq apesar de um tanto naif é democrática e acolhedora – o que talvez nem seja contradição – mas esses assuntos dão sono..

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Alexandre Magno em 23/04/2014 - 00h44 comentou:

Tais brincando com a minha inteligência. De que Brasília falas ? Só se for daquele carrinho rústico da Volks que deu certo durante um bom tempo para enfrentar as nossas ruas e estradas poeirentas de antanho. Quanto a tal Capital, foi a melhor solução para esconder a corrupção, que ao menos quando no rio Rio de Janeiro era muito mais transparente. Isto e, muito mais visível e próxima da fiscalização dos poderes e dos olhos do povo.

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João Cordeiro em 23/04/2014 - 14h25 comentou:

Com tanto dinheiro canalizado de todo o Brasil, para custear um Distrito que só produz corrupção, roubalheira e escândalos, esperávamos coisa melhor.

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Penha em 24/04/2014 - 14h24 comentou:

Morei em BSB em 2012. É uma cidade linda. Mas o povo… ser julgado pelo lugar onde mora, o cargo público que ocupa é triste. Nunca fiz um amigo de Brasília, são individualistas e distantes tal qual a cidade, onde cada pessoa é um carro com valor dado pela FIPE.

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Armistrong Souto em 07/05/2014 - 19h14 comentou:

Já estive, em Brasília, por três vezes. Em todas elas me encanto com os espaços verdes, as intervenções arquiteturais primeiras, e atuais etc.

Não sei por qual motivo, sempre que estou andando, ou circulando de automóvel, e vejo toda a imensidão brasiliense, me vem à mente, o Guimarães Rosa.

Costumo dizer que adoraria morar algum tempo, na Capital Federal para aprofundar, ou rever o que sinto. Embora desconfie, seriamente, que em dispondo de uma bicicleta, eu ficaria por lá, ad eternum.

Grato pelo texto!

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Renato em 19/06/2018 - 09h43 comentou:

A maior mentira brasileira por Ruy Fernando Barboza
A maior mentira brasileira é Brasília. Aquilo (chame de labirinto, monumento, brinquedo, arapuca, utopia, absurdo ou o que mais quiser – cidade é que não é) já nasceu como uma múltipla mentira, e como mentira sobrevive.

Tenho amigos queridíssimos em Brasília, e que amam aquilo. Um deles, doutor em transporte urbano, revelou-me que, na opinião de muitos urbanistas, Brasília será abandonada no futuro, por ser inviável. Ficará apenas como patrimônio da Humanidade (o que já é – um símbolo muito bonito do lado incompetente da humanidade) e monumento a Juscelino (o que ela sempre foi). As pessoas terão de ir pra outro lugar – um que seja habitável. Mesmo assim, meu amigo gosta de Brasília. Resisto um pouco a entender esse amor, mas o amor é assim mesmo, muitas vezes inexplicável. Não há pessoas que amam quem as espanca? Não há pessoas que amam morar no Alaska, na Sibéria, no alto do Himalaia, em Teresina, em Manaus, em plena selva, no deserto? Pois então, por que não em Brasília?

Haveria muito que falar, mas vou me limitar a poucas linhas e itens (se quiser saber mais, remeto você ao livro de 366 páginas “A Cidade Modernista”, do antropólogo estadunidense James Holston, publicado pela Companhia das Letras. O livro me ajudou a entender o engodo brasiliense, e baseia o que digo e cito aqui).

É mentira que Lucio Costa idealizou Brasília. O projeto que originou Brasilia – o de uma “cidade” vista como ideal, revolucionária e que tinha a pretensão de mudar as estruturas da sociedade, está (desde a década de 1920!) muito bem elaborado, em seu traçado e seus edifícios, por Le Corbusier e pode ser visto nos seus livros “Uma Cidade Contemporânea para Três Milhões de Habitantes” (de 1922) e “A Cidade Radiosa” (de 1930).
Este projeto foi consolidado como modelo, desde a década de 1930, pelo grupo de arquitetos e urbanistas denominado CIAM (a sigla vem de seus encontros periódicos, os Congrès Internationaux d’Architecture Moderne). O grupo, segundo afirma o próprio Le Corbusier em 1933, era composto por “sindicalistas catalães, coletivistas de Moscou, fascistas italianos e (…) especialistas técnicos de visão aguçada”. Nos seus manifestos e desenhos, está tudinho que Costa copiou. A começar pelo objetivo, explícito, de criar um novo tipo de cidade que criaria um novo tipo de sociedade, acabando com o capitalismo. Os planejadores de Brasília, assim, copiaram desde os princípios segundo os quais o planejamento urbano deveria levar em conta cinco funções da cidade: moradia, trabalho, lazer, circulação, e centro público (para a administração), e tudo isso baseado num zoneamento em que as funções se dividem em setores mutuamente excludentes em termos de ocupação territorial – gerando aquela maluquice que põe os postos de gasolina num extremo, as diversões em outro, a escola das crianças em outro, os restaurantes em outro, e por isso as avenidas larguíssimas separando tudo, e impedindo que se ande a pé.

O fato é que o projeto elaborado pela equipe de Le Corbusier e do CIAM é, com pequenas adaptações (a leveza do estilo da arquitetura de Niemeyer, por exemplo), o que é Brasília.
Estão lá os dois grandes eixos viários ( “para o tráfego de alta velocidade”, segundo o francês); as superquadras residenciais ao longo de um dos eixos; as áreas de trabalho ao longo do outro eixo; o centro público num lado do cruzamento dos dois eixos; e – se houvesse alguma dúvida – até mesmo o grande lago artificial para a area de recreação e o cinturão verde rodeando a cidade! Os croquis de Le Corbusier, de 1922 e 1930 não deixam margem a dúvidas, pois, repito, está tudo lá! E tudo isso foi escondido no “projeto” de Lucio Costa, que apresenta o plano como surgido espontaneamente, e fechado em si. Como uma idéia genial, em que muitos acreditam até hoje.

Outra grande fajutice foi, ao que tudo indica, o próprio “concurso” para a escolha do projeto de Brasilia. Não houve propriamente um concurso. A não ser formalmente. Houve um edital,um júri e concorreram 26 escritórios de arquitetura e urbanismo. Holston dá um exemplo de por que outros projetos, na justificativa do júri, foram rejeitados. A respeito do plano do escritório MMM Roberto, o júri reconheceu que nunca no mundo fora feito “um plano mais abrangente e profundo para uma nova capital em sitio aberto”, mas seria preciso gente demais para executá-lo! O plano do ecritório MMM Roberto tinha “séries de plantas, volumosas projeções estatísticas sobre crescimento populacional e econômico, além de planos detalhados para a administração e o desenvolvimento regional”. Talvez se esse tivesse sido o plano escolhido, o Distrito Federal não seria hoje o desastre que é – um Plano Piloto onde a renda media dos habitantes é uma das maiores do mundo (paga por nós, contribuintes brasileiros) e onde não há pobres, pois estes só podem habitar os imensos favelões das cidades satélites, dominadas pela miséria, o banditismo e a violência.
E mais: “nenhuma linha de desenho técnico, nenhuma maquete, estudos de uso da terra, mapas demográficos ou esquemas para desenvolvimento econômico ou organização administrativa – em suma nada senão a idéia”(ainda por cima copiada, como vimos) “de uma capital”! Mas o júri se declarou encantado com o malandro texto de Costa, verdadeira poesia, “lírica e impactante”.

Deu no que deu.

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Renato em 21/06/2018 - 11h37 comentou:

a comunista sempre tentando tampar o sol com a peneira. Brasília deu totalmente errado. Mas o fato de ter bosque, para colher frutas, faz com que a comunista diga que Brasília deu certo. Como se uma cidade se resumisse a colher frutas na árvore. Típico de comunista: uma parte do todo deu certo, mesmo que o todo tenha dado errado. vamos enaltecer essa parte, e dizer que e esconder o todo que deu errado.

Responder

Renato em 22/06/2018 - 15h12 comentou:

Quer mais morena, então toma: divirta-se com mais essa verdade.

No sentido advogado pelos arquitetos verdes, o tombamento pela Unesco perpetuou Brasília como cidade pouco eficiente: suas áreas de serviço monofuncionais e as largas distâncias entre tudo são a própria imagem de uma cidade inimiga da natureza e do homem. Eficientes, eles dizem, são as cidades densas e capazes de gerar seus próprios recursos, necessários para manter um desenvolvimento contínuo e sustentável. Brasília, Capital Federal e símbolo do País, é, então, a marca da ineficiência do Brasil – característica que não deixa de ter seu lado verdadeiro e, acima de tudo, positivo. Porque Brasília será cada vez mais não-moderna: se o que é moderno está associado à função, à racionalidade e à eficiência, agora Brasília será pujança, excesso e desperdício. Todos causados menos por sua arquitetura e mais por seus vazios, pela fantástica onipresença de capins e pela sintonia entre sua escala bucólica e o cerrado que a envolve.

Carlos Teixeira
arquiteto, Vazio S/A Arquitetura e Urbanismo

Responder

Renato em 22/06/2018 - 15h23 comentou:

não é só porque Brasília segue os princípios de sua ideologia, blocos iguais, para a supressão das classes sociais, que ela não merece ser criticada; a modernidade de Brasília, olhando a partir de hoje, não passa do moderno da antiga união soviética que se viu no filme Rock 4. Ou mesmo na tecnologia dos anos 60 que levou o homem a lua. Ou seja, pode ter levado a lua, mas hoje, está totalmente ultrapassada.

Responder

Renato em 22/06/2018 - 15h40 comentou:

e vamos ser sincero: Brasília pode ter sido construída para ser a capital. mas não é cidade. se tivesse feito o correto, como sempre foi desde Roma, uma cidade que se faz capital, não teria acontecido esse desastre todo. Mas como comunista quer mudar tudo, achando que tudo que muda é para melhor, deu no que deu, o desestre atual. comunista quer mudar até a roda, não importa as consequências. Para saciar a sua ideologia, uma roda quadrada é o que é certo para os comunistas da sua estirpe.

Responder

Renato em 04/07/2018 - 08h53 comentou:

então socialista morena? o que você tem a dizer? como vcs pensam em atingir a uma sociedade sem classes e igualitária ? Não conseguiram através da revolução (1917), não conseguiram através da separação (muro de Berlim), não conseguiram através do urbanismo (Brasília). Então como vcs comunistas pensam, mais uma vez, em atingir a sociedade sem classes? pode nos dar uma dica?

Responder

    Cynara Menezes em 04/07/2018 - 15h01 comentou:

    essa sua discussão é DATADA, vai se atualizar

Renato em 05/07/2018 - 14h29 comentou:

então você aceita: Brasília deu totalmente errada! só serviu para povoar o centro-oeste, mas isso qualquer outra cidade, com qualquer outro urbanismo, com o total de dinheirama injetado pelo governo federal, também teria o mesmo efeito.

Responder

Leandro em 21/09/2019 - 20h25 comentou:

Muito triste ver uma pessoa que se diz socialista, defender o isolamento da classe politica do povo, os militares amaram durante a ditadura, inclusive foram eles que oficializaram de vez a troca da capital no governo medici. Alem disso, ignorar todos os problemas que surgiram no Rio por conta deste feito é cruel… o dinheiro que se investiu em brasilia, poderiam ter investido em politicas sociais no rio, e quem sabe hoje a situação de calamidade não estivesse tão agravada. Rio cresceu e se desenvolveu por 200 anos para ser capital, foi capital do reino unido de pt, brasil e etc, dp do imperio brasileiro e de nossa republica, negar a natureza do rio de exercer a função de representatividade do Brasil e apoiar o esvaziamento em massa que ocorreu na cidade, levando-a a crise que ainda hoje se perpetua é de uma falta de empatia enorme. Cidades que crescem como capitais não podem simplesmente perder o titulo e “fica tudo bem”… alem disso brasilia foi a capital transferida no seculo 20 cm maior grau de isolamento dentre as outras construidas no mesmo periodo. profundamente decepcionado e desiludido com voce, te sigo a mais de ano.

Responder

Roberto em 12/08/2020 - 23h20 comentou:

Se Lúcio Costa achou que as cidades satélites só surgiriam nós anos 2000 onde ele planejou deixar os operários que a construíram?

Planejamento mal feito.

Responder

    Cynara Menezes em 14/08/2020 - 13h03 comentou:

    ele imaginou que os operários pudessem morar no plano piloto, junto com as outras classes sociais

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