Cantor baiano usurpa Guantanamera e transforma em “bagaceira” capitalista
Versão do pagodeiro Tony Salles para a canção tradicional cubana ainda por cima é jabá da Porsche
Mais conhecido como o “marido de Scheila Carvalho”, a morena do finado grupo É o Tchan, o pagodeiro baiano Tony Salles está pronto para estourar no Carnaval com sua mais nova canção de refrão “chiclete”, fácil de pegar. Os outdoors do cantor, usando chapéu e camisa aberta no peito sarado, estão espalhados por toda Salvador com o título da música: Panamera.
O visual do videoclipe entrega a “inspiração” cubana do hit, com 4 milhões de visualizações no youtube até agora. Mas Panamera nada tem de original: trata-se de uma versão descarada, bagaceira e jabazeira de Guantanamera, o clássico que tem sido trilha sonora da ilha caribenha há quase 100 anos.
Não se pode falar em plágio porque a melodia original é de domínio público, do folclore cubano. A letra, com seu refrão marcante, foi popularizada por Joseíto Fernández em 1929 a partir dos versos de um poema do revolucionário José Martí, fundador do Partido Revolucionário Cubano.
Existem dezenas, talvez centenas de versões comerciais de Guantamera, mas ao que tudo indica só Tony Salles teve a audácia de trocar o refrão “guajira Guantanamera”. Quando gravou a canção em 1966, o grupo norte-americano The Sandpipers, um dos responsáveis pela explosão internacional de Guantanamera, cantou a letra original, transcrição literal da primeira estrofe dos Versos Sencillos de José Martí:
Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma.
Y antes de morirme quiero
Echar mis versos del alma
O reggaeiro Yellowman manteve o “guajira guantanamera”, mas modificou o restante da letra. Wyclef Jean fez uma versão rap da canção, com a participação de Célia Cruz e Lauren Hill, e tampouco modificou o “guajira guantanamera”. Até Luciano Pavarotti gravou e não mudou nada na letra da canção…
Já Tony Salles, aliás, os “compositores” Lourival Marques Carneiro Filho, Matheus Alkimim, Pedro Guilherme do Carmo e Riquinho da Rima, apontados como autores de Panamera, não tiveram dó: estraçalharam a canção, mudando toda a letra, inclusive o refrão, para adaptá-la ao mais tosco e sexualizado exemplar da axé music.
Agora, em vez da “guantanamera”, a “guajira” de Guantánamo, a personagem central é uma mulher assanhada e interesseira, uma “Maria Gasolina” louca para transar dentro de um carro –o Porsche Panamera. Sim, o pagodeiro transformou Guantanamera em propaganda de carro, o popular jabá. Certamente a Porsche não teve coragem de mexer com a música e terceirizou para o cantor.
A letra é de uma pobreza infinita comparada à original.
Ela é roleira
Só gosta da bagaceira
Eu disse, na Panamera
Só quer, só quer sentadeira
Me beija, me beija
No banco da Panamera
Que eu sento, sento, sento
Com carinha de princesa
Dá até vergonha de ser brasileira num momento desses. Como comparar a beleza da canção na voz de Compay Segundo e o Buena Vista Social Club com essa bagaceira capitalista, machista?
Mas reclamar para quem? Com quem? Pete Seeger, o politizado cantor folk dos anos 1960, também gravou a canção e foi cobrado por Joseíto a lhe pagar direitos autorais, o que o estadunidense fez. Mas e agora? Quem vai cobrar de Tony Salles o assassinato de Guantanamera?
Na época da disputa com Seeger, Joseíto Fernandez autorizou o selo estatal EGREM a representá-lo internacionalmente e a partitura da canção foi registrada em 1965 com créditos compartilhados: música de Joseíto Fernández, arranjo de Pete Seeger e a adaptação dos versos de José Martí foi atribuída a Héctor Angulo.
Joseíto faleceu em 1979; sua filha e representante, Migdalia, faleceu em 2019. Quem atuará em defesa da família? Ou o dinheiro compra tudo mesmo?
Para quem conhece Guantanamera desde criança, é triste reconhecê-la no meio de uma bagaceira dessas. E não há nada a ser feito: Panamera está em toda parte, sendo bombada em programas de televisão, sem que ninguém questione o cantor Tony Salles por isso.
Como não é possível “desouvir”, melhor ficar com a paródia feita pela cantora brasileira Maria Paula Godoy, que compôs Alta Coimera para zoar a irmã do presidente argentino Javier Milei, Karina, acusada de receber suborno (“coimera” é suborno na Argentina). Pelo menos é uma versão do lado do povo.
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Daniel Paula em 04/02/2026 - 15h14 comentou:
Oh, a blasfêmia suprema!
Um cantor baiano ousou profanar a “sagrada” Guantanamera, convertendo o hino da ilha-prisão em… lucro e alegria?
A esquerda caviar, que adora socializar a miséria alheia, agora tenta monopolizar melodias, exigindo “pureza ideológica” e tristeza revolucionária até no trio elétrico.
A realidade é cristalina: o “capitalismo opressor” apenas pegou uma canção fúnebre, símbolo de um regime que persegue dissidentes, e a tornou produtiva.
Enquanto o socialismo cubano entrega racionamento e censura, o mercado livre entrega entretenimento e emprego.
O povo, aquele que vocês dizem defender, mas desprezam o gosto, prefere a “bagaceira” dançante aos discursos mofados do Partido Único.
Juridicamente, o fiscal de cultura não tem poder aqui. Graças a Deus! A Constituição Federal (Art. 5º, IX) ainda garante a liberdade de expressão artística, independente de censura ou de licença das viúvas de Fidel.
Enfim, a paródia e a adaptação são sinais de uma sociedade livre e dinâmica!
Parabéns ao artista. Se a socialista escriba não tolera sequer um refrão de Axé, é porque ela é tão frágil quanto a economia planejada e a utopia camarada.
Beijos!
Jairo Costa Junior em 04/02/2026 - 23h50 comentou:
No caso, o pagodeiro anabolizado é reincidente. Em 2023, o “divo” se juntou a outro “divo”, Leo Santana, para emular La Bamba, clássico do folclore mexicano imortalizado por Ritchie Valens, com a poesia pra lá de sofisticada e sintetizada pelo seguinte verso do refrão: “Tu vai ficar de perna bamba”. Deu um migué, como se diz na Baêa, modificando a melodia, mas manteve o essencial dela. E, antes como agora, o pessoal fez de conta que não percebeu. No Carnaval baiano, ninguém é de ninguém, vida que segue, e agora não demora mais de um ano para o bombadão emular Carlos Santana em Oye Come, mas com a seguinte versão: “Oi, como cê vai, mi sinto pronto pra lascar mulata”.
Cynara Menezes em 05/02/2026 - 16h17 comentou:
credo!
Vitória em 05/02/2026 - 09h29 comentou:
Eu ouvi pela primeira vez nas minhas aulas de fitdance, achei tenebrosa. Às vezes eu acho que nenhum país se rendeu tanto á sexualização de suas músicas quanto o nosso, pelo menos comparando com nossos vizinhos latino americanos, que ainda tem um Bad Bunny que faz sucesso estrondoso pra representá-los. A galera tá satisfeita com essa pobreza lírica aí, muito ruim. Virei hater de Tony Salles.
Lili Martins em 05/02/2026 - 11h08 comentou:
Ainda não tive o desprazer de ouvir isso e não vou clicar no link do YouTube da matéria. Prefiro continuar sem ouvir. Afff.
felipe puxirum em 10/03/2026 - 09h37 comentou:
no estado de coisas nordestino
é a bahia das mais prostituídas
culturas e dispores de vendidos
negando o que só lhe afirmaria
identidade e direitos garantidos
por sua tradição com autonomia
e respeitando suas filhas e filhos
a esse desserviço não se prestaria