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Mídia

Colunista superfatura bebidas para tachar casamento de Lula de “ostentação”

Polêmica em torno de vinhos mostra que o preconceito de classe da mídia comercial com o petista permanece imutável há 20 anos

Lula e sua futura mulher Janja. Foto: reprodução twitter
Da Redação
16 de maio de 2022, 16h41

O preconceito de classe da mídia comercial contra Lula é algo que acompanha sua trajetória desde que surgiu no sindicalismo, na década de 1970. A língua presa, o português simples do metalúrgico, migrante nordestino, sempre foram usados para tentar atingi-lo, assim como a apreciação de uma boa cachaça. Eleito duas vezes presidente, ainda hoje o petista é alvo de classismo –e sua festa de casamento com Janja, programada para quarta-feira, 18 de maio, está servindo de pretexto para destilarem mais preconceito.

No sábado, o colunista especializado em fofocas de celebridades Leo Dias, do portal Metrópoles, soltou o título em letras garrafais: “Ostentação! Saiba quanto Lula investiu em bebidas para seu casamento”. O texto, copiado e colado por outros veículos, como a IstoÉ Dinheiro, diz ter “descoberto” todas as bebidas que serão servidas na celebração, que acontece no “sofisticado espaço Grupo Bisutti” (adjetivo do colunista). Só que os preços das bebidas citadas estão superfaturados em até o dobro do valor da garrafa, e a matéria ainda omite as promoções de quando se compra em caixas de 6 ou 12 unidades, como acontece em eventos assim.

Leo Dias nem sequer especifica que o champanhe brut Cave Geisse, que segundo ele será servido no casório, é nacional, produzido pela família homônima em Pinto Bandeira, no Rio Grande do Sul. A garrafa custa 135 reais na própria loja da fábrica, mas o colunista preferiu citar que pode custar “entre 135 e 800 reais”, sendo que o preço mais alto equivale a uma garrafa de uma safra especial, de 2012. A caixa com 6 garrafas sai ainda mais barata, por 112 reais a garrafa em sites especializados.

O champanhe nacional do casamento. Foto: reprodução

O mesmo acontece com o vinho branco espanhol Freixenet Sauvignon, cujo preço mais em conta é o do site do Ponto Frio, onde sai por 49,90 reais a garrafa. Na matéria de Leo Dias, em vez de citar a cotação mais baixa, ele fala que a garrafa “chega a custar 90 reais cada uma”. Ou seja, publicou o preço mais alto que encontrou. O outro vinho citado, o argentino Perro Callejero Malbec, que pode ser comprado a 68,30 reais no Magazine Luiza (a caixa com 6 fica ainda mais barata) aparece custando “120 reais cada” no texto. No final da matéria, o próprio colunista ressalta que os preços “partem de uma pesquisa feita em sites de adega e podem variar de acordo com a safra”.

A “polêmica” em torno das bebidas mostra que o preconceito de classe da mídia comercial não evoluiu em nada nos últimos 20 anos: em 2002, quando seria eleito pela primeira vez, Lula foi criticado por ter comemorado o último debate do primeiro turno tomando uma garrafa do francês Romanée Conti, considerado um dos melhores vinhos do mundo, que ganhou do marqueteiro Duda Mendonça e foi avaliada pela imprensa na época em 6 mil reais. “Um ex-torneiro-mecânico pode (e talvez deva) chegar à presidência da República, mas nenhum candidato a presidente da República pode tomar Romanée-Conti”, pontificou Elio Gaspari em sua coluna na Folha de S.Paulo.

Se Lula vai a um evento chique, é “ostentação”; se promove algo simples, é “brega”. Pelo visto, o petista só pode beber cachaça, para poderem continuar chamando-o de “cachaceiro”. E cachaça barata, porque se for envelhecida 12 anos… está “ostentando”

Em março deste ano, o petista foi atacado pela mídia, por Sergio Moro e pelas redes bolsonaristas por aparecer em uma foto usando um relógio da marca Piaget que ganhou quando era presidente. De acordo com as matérias publicadas na imprensa, o relógio estaria avaliado em 80 mil reais. Um “pecado” para um ex-operário… E olha que Lula jamais afirmou ter medo de ter a peça roubada no contato com os eleitores, como fez, em 1994, o “príncipe” FHC: “As pessoas querem te cumprimentar, e, a toda hora, você precisa verificar se não te levaram o relógio de pulso”, disse o tucano.

Naquela mesma campanha, a fina flor da massa cheirosa intelectual que apoiava FHC, reunida em um jantar na casa da atriz Ruth Escobar, comparou a disputa a “escolher entre Jean-Paul Sartre e um encanador”, sendo o “encanador” Lula. A frase foi atribuída ao cineasta Arnaldo Jabor. Vamos combinar que esta pérola do elitismo deixa no chinelo a “escolha muito difícil” do Estadão em 2018…

O paradoxal é que Lula foi chamado de “farofeiro” por aparecer com uma caixa de isopor na cabeça durante férias na praia de Inema, em Salvador, em janeiro de 2010. Em 2004, sua esposa Marisa foi massacrada por promover uma festa junina na Granja do Torto em que pedia traje a caráter e um pratinho de comidas típicas aos convidados. A colunista da Folha Danuza Leão esbravejou: “O Brasil tem tantos regionalismos bacanas, uma culinária riquíssima, várias maneiras de ser cheias de ginga e charme que deslumbram o mundo inteiro, e o presidente e dona Marisa Letícia vão escolher logo uma caipirada dessas?”

“Um país que quer tanto ser moderno poderia ter se inspirado em qualquer outro folclore que não o do atraso, o da jequice explícita”, detonou Danuza, para quem a festa foi “de uma breguice difícil de ser superada”. “Não há uma mulher que se realce num vestidinho caipira; não existe imagem masculina que resista a uma camisinha xadrez remendada e uma costeleta postiça. E essa história das despesas da festa serem divididas? Foi um vexame atrás do outro.”

“Farofeiro”, segundo O Globo em 2010. Foto: reprodução

Ou seja, se Lula participa de um evento chique, é “ostentação”; se promove algo simples, é “brega”. Não pode beber vinhos caros porque é “traição” às origens, mas também é “falsidade” ficar dando uma de “pobre”. Pelo visto, Lula só está autorizado a beber cachaça, para que a mídia e os adversários possam continuar chamando-o pejorativamente de “cachaceiro”, como chegou a fazer até um correspondente do New York Times.

E tem que ser cachaça barata, porque se for uma garrafa envelhecida 12 anos… está “ostentando”.

 

 


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Gil Teixeira em 16/05/2022 - 18h16 comentou:

Li outro dia um artigo onde o analista coloca essa distorção e outras da mídia em relação ao Presidente Lula, a pérola é q constatação de que se Lula caminhar sobre as águas a manchete no dia seguinte seria:
Está provado: lula não sabe nadar.

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Enylce Carvalho Matos em 16/05/2022 - 20h04 comentou:

Vou abrir uma garrafa de vinho e brindar ao casamento desse homem, que merece tudo de bom que a vida pode ofertar.

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Bernardo Santos Melo em 17/05/2022 - 07h53 comentou:

Feliz de quem apaixona-se após os 75 anos e encontra uma socióloga para coordenadora da resistência à prisão sofrida por seu amado.
Felicidade maior será da população , caso liberte-se pelo voto da submissão miliciana em vigor em nosso país
Felicidade extra será a presença de nosso poeta cantor Chico Buarque na festa de Janja & Lula , representando milhares de vítimas de uma total falta de políticas públicas destinadas à CULTURA .
Felicidade suprema é que o casamento tornou-se o ato político mais comentado país à fora , algo como um GRITO de AMOR em meio à barbárie exaltada pela boca fétida de um CAPETÃO expulso do mesmo exército que ora ensaia jogar contra às urnas .
Pena que tudo pode acabar no colo de um vice
Presidente de passado contraditório aos interesses populares , enquanto isso vamos estudando o vasto receituário de Lula com Chuchu .

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Evania Barros em 18/05/2022 - 10h18 comentou:

Os Bolsominions podem beber champanhes caros nas manifestações pró-Bolsonaro e ninguém fala nada, agora Lula não pode beber bons vinhos e espumantes no próprio casamento que ficam metralhando ele… Elite preconceituosa!! Comemore muito Lula e beba o quanto quiser.. Vcs merecem tudo o de melhor..

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Jane em 19/05/2022 - 15h14 comentou:

Felicidades e bons vinhos ao casal Lula e Janja! O resto que se exploda de inveja!

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Loira Capitalista em 19/05/2022 - 16h30 comentou:

Recentemente o Lula: ““Não precisa ter uma [TV] em cada sala. Uma televisão já está bom. Eu quero um computador, eu quero um celular. Ou seja, na medida que você não impõe um limite”… ou seja ? ele pode, mas os outros não !

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