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Como a Covid-19 fez as overdoses por opioides nos EUA baterem um novo recorde

Entre abril de 2020 e abril de 2021, 100.306 pessoas morreram de overdose nos EUA, 28,5% a mais que durante o mesmo período do ano anterior

Autorretrato como São Sebastião. Detalhe de pôster de Egon Schiele, 1914
The Conversation
02 de dezembro de 2021, 15h56

Por Andrew Kolodny, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo

Durante os últimos 20 anos, eu estive engajado nos esforços para acabar com a epidemia de opióides, na qualidade de funcionário público da saúde, pesquisador e clínico. E durante cada um desses anos eu observava que o número de mortes por overdoses de drogas batia um novo recorde.

O controle nas fronteiras dificultou o movimento de drogas mais volumosas, o que resultou na preferência dos traficantes pelo fentanil, mais forte e mais fácil de se transportar. O fentanil é de 30 a 50 vezes mais potente que a heroína

Porém, mesmo sabendo dessa tendência, fiquei surpreso com a última contagem do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) mostrando que, pela primeira vez, o número de norte-americanos que morreram overdose durante o curso de um ano ultrapassou os 100 mil. No período de 12 meses entre abril de 2020 e abril de 2021, aproximadamente 100.306 pessoas sofreram uma overdose fatal nos EUA, 28,5% a mais que durante o mesmo período do ano anterior.

O número ascendente de mortes foi estimulado por um suprimento de opioides muito mais perigoso no mercado negro. O fentanil sintetizado ilicitamente –um opioide potente e barato que tem levado à alta em overdoses desde que surgiu, em 2014– está suplantando a heroína cada vez mais. O fentanil e análogos ao fentanil foram responsáveis por quase dois terços das mortes por overdose registradas no período de 12 meses que terminou em abril deste ano. (Fentanil foi a droga que matou o cantor Prince em 2016; é 30 a 50 vezes mais potente que a heroína.)

Moeda de 1 centavo comparada à dose fatal de fentanil (2mg). Foto: DEA

É particularmente trágico que essas mortes estejam ocorrendo principalmente entre pessoas com uma doença –o vício em opióides– que pode ser tanto prevenida quanto tratada. A maioria dos usuários de heroína deve evitar o fentanil. Mas, cada vez mais, a heroína que procuram é misturada com o fentanil ou aquilo que compram é apenas fentanil sem qualquer heroína na mistura.

Embora a disseminação do fentanil seja a principal causa do aumento das mortes por overdose nos EUA, a pandemia do coronavírus também piorou a crise. A distribuição geográfica das mortes por opioides torna claro que houve uma mudança durante os meses de pandemia.

Antes da crise sanitária da Covid-19, a explosão de mortes por overdose relacionadas ao fentanil afetava principalmente a metade Leste do país, e atingiu pesado especialmente áreas urbanas como Washington, D.C., Baltimore, Filadélfia e a cidade de Nova York. Uma possível razão por trás disso era que, na metade Leste dos EUA, a heroína estava disponível principalmente em forma de pó, em vez das pedras de heroína mais comuns no Oeste. É mais fácil misturar o fentanil com a heroína em pó.

A Covid-19 teve como resultado menos tráfego interestadual, o que dificultou o contrabando de drogas ilegais através das fronteiras. O controle nas fronteiras dificultou o movimento de drogas mais volumosas, o que resultou na preferência dos traficantes pelo fentanil, que é mais potente e mais fácil de se transportar em pequenas quantidades, e no formato de pílulas, facilitando o tráfico pelo correio. Isto pode ter ajudado o fentanil a se estender a áreas que ficaram de fora da primeira onda de mortes causada por ele.

Indivíduos viciados em opioides que procurassem opioides sob receita médica ao invés de heroína também foram afetados, porque pílulas adulteradas feitas com fentanil se tornaram mais comuns. Isto talvez explique por que funcionários públicos da saúde em Seattle e outros lugares estejam relatando muitas mortes acidentais como resultado do consumo de pílulas adulteradas.

Outro fator que pode ter contribuído para o número ascendente de mortes foi que a pandemia dificultou o atendimento presencial aos dependentes de opioides. Algumas clínicas permitiram que pacientes tomassem metadona em casa, mas não foi o suficiente para compensar a interrupção do tratamento

Outro fator que pode ter contribuído para o número ascendente de mortes foi que a pandemia dificultou aos dependentes de opioides receberem atendimento presencial. Mais que qualquer outra coisa, o que leva indivíduos viciados em opioides a continuar com o seu uso é que sem opioides eles vão experimentar sintomas graves de abstinência.

O tratamento, em particular com buprenorfina e metadona, tem que ser de fácil acesso ou os indivíduos viciados vão continuar a usar heroína, opioides sob prescrição médica ou fentanil ilícito para evitar a abstinência. Alguns centros clínicos inovaram em face dos confinamentos ao permitir, por exemplo, que mais pacientes tomassem metadona em casa sem supervisão, mas isto pode não ter sido o suficiente para compensar a interrupção do tratamento.

E manter acesso ao tratamento é crucial para evitar recaídas, em especial durante a pandemia. Pesquisas revelaram que isolamento social e estresse, que ficaram mais comuns durante a pandemia, aumentam as chances de uma recaída em alguém em reabilitação.

No passado, uma recaída podia não ser o fim do mundo para alguém em recuperação. Mas dado o alarmante perigo dos opioides no mercado negro, qualquer escorregada pode resultar em morte.

*Andrew Kolodny é co-diretor  do Opioid Policy Research da Brandeis University

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