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Dados de 45 países provam: conter a Covid-19 ou salvar a economia é uma falsa dicotomia

Indicadores demonstram que países que contiveram o vírus tiveram menos impactos econômicos do que os que ficaram no negacionismo

Comércio no Rio após reabertura. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
The Conversation
08 de dezembro de 2020, 20h55

Michael Smithson, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo

Não há dúvida alguma de que a crise da Covid-19 acarretou custos econômicos em toda parte. Há uma preocupação compreensível de que medidas mais extremas contra o vírus, desde distanciamento social até confinamentos restritos, piorem o impacto nas economias. Como resultado disso, há uma tendência de se considerar o problema como uma contraposição entre saúde e custos econômicos.

Esta visão definiu em larga escala, por exemplo, a abordagem do governo dos EUA. “Acho que aprendemos que, se a economia for paralisada, vai causar mais dano,” disse o secretário do Tesouro Steve Mnuchin em junho, quando a administração Trump resistia a apelos para combater decisivamente a segunda onda da Covid no país.

Ninguém deveria ser induzido a achar que há uma escolha entre salvar vidas e salvar a economia. Isto é uma falsa dicotomia. Se há algo a aprender para o futuro, é que quanto mais rápido se contiver a doença, mais será minimizado seu impacto econômico

Mas a ideia de uma contraposição não é sustentada por dados de países mundo afora. Inclusive é o oposto que pode ser verdadeiro. Examinemos os dados disponíveis sobre as 45 nações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), usando números da Covid-19 e indicadores econômicos.

As estatísticas da Covid-19 que utilizaremos são mortes por milhão de habitantes. Nenhum indicador por si é perfeito, e estas taxas nem sempre refletem fatores contextuais que se aplicam a países específicos, mas este indicador nos permite desenhar um quadro global razoavelmente preciso.

Os indicadores econômicos que examinaremos estão entre os mais amplamente usados para avaliações gerais de desempenho econômico nacional. O produto interno bruto (PIB) per capita é um índice de riqueza nacional. Exportações e importações medem a atividade econômica internacional de um país. Os hábitos de consumo são um indicador de como uma economia se comporta.

Efeitos no PIB per capita

Nosso primeiro quadro esquematiza as mortes por milhão de habitante por Covid-19 nos países em relação à mudança percentual no PIB per capita durante o segundo trimestre de 2020.

O tamanho de cada ponto dos dados mostra a escala de mortes por milhão a partir de 30 de junho, usando uma escala logarítmica, ou “log” –uma maneira de exibir uma extensão bastante ampla de valores em uma forma gráfica compacta.

Log (mortes por milhão) e o PIB per capita

Se suprimir o vírus, levando assim a menos mortes por milhão, resultasse nos piores recuos econômicos nacionais, então a “vertente” no diagrama 1 seria positiva. Mas na verdade se dá o oposto, com uma correlação geral de -0,412.

Os dois pontos fora da curva são China, no canto superior esquerdo, com uma mudança positiva no PIB per capita, e Índia, na parte inferior. A China impôs confinamentos e procedimentos de contenção rigorosos bem-sucedidos, o que significou que os efeitos econômicos fossem limitados. A Índia impôs cedo um confinamento rigoroso, mas suas medidas desde então têm sido bem menos eficientes. Retirando ambos de nossos dados nos deixa com uma correlação de -0,464.

Exportações e importações

Nosso segundo quadro mostra a relação entre mortes por milhão e a mudança percentual em exportações.

Se houvesse uma contraposição clara entre conter o vírus e promover o comércio internacional, veríamos uma relação positiva entre as mudanças em exportação e as taxas de mortalidade. Em vez disso, parece que não há relação alguma.

Log (mortes por milhão) e variação nas exportações no 2⁰ trim. de 2020

Nosso terceiro quadro mostra a relação entre mortes por milhão e mudança percentual em importações. Tal qual com as exportações, uma contraposição entre combate à Covid-19 e economia mostraria uma relação positiva. Mas tampouco há qualquer evidência de tal relação aqui.

Log (mortes por milhão) e variação nas importações no 2⁰ trim. de 2020

Hábitos de consumo

Nosso quarto quadro mostra a relação entre mortes por milhão e mudança percentual em despesas de consumo individual. Este complementa a ilustração a que chegamos a partir das importações e exportações, ao rastrear os hábitos de consumo como um indicador de atividade econômica interna.

Log (mortes por milhão) e hábitos de consumo no 2⁰ trim. de 2020

De novo, nenhuma relação positiva. Em vez disso, a relação geral negativa permite ver que aqueles países que tiveram sucesso (ao menos temporariamente) em suprimir o vírus estavam em melhor situação economicamente do que aqueles países que adotaram uma abordagem de relaxamento maior.

Riqueza nacional

Como um pós-escrito a esta breve investigação, vamos dar uma rápida olhada se uma maior riqueza nacional pode ter aparentemente ajudado os países a lidar com o vírus.

Nosso quinto e último quadro esquematiza os casos por milhão (não as mortes por milhão) em relação ao PIB nacional per capita.

Log (PIB per capita) por log (casos por milhão)

Se os países mais ricos estivessem se saindo melhor em suprimir a transmissão, a relação deveria ser negativa. Em vez disso, os grupos por região permitem ver que é uma combinação de cultura e política que conduz a eficiência (ou a falta dela) das reações dos países.

De fato, se examinarmos o maior grupo, o dos países europeus (os pontos verdes), a relação entre PIB per capita e taxas de casos é positiva (0,379) –o oposto do que esperaríamos. Os indicadores econômicos padrão examinados aqui mostram, em geral, que países que contiveram o vírus tenderam também a ter menos impactos econômicos severos do que aqueles que não o fizeram.

Ninguém deveria ser induzido ao erro de crer que há uma escolha entre salvar vidas e salvar a economia. Isto é uma falsa dicotomia. Se há alguma coisa a aprender quanto à maneira de se lidar com pandemias futuras, é a de que contendo a pandemia rapidamente se pode minimizar bastante seu impacto econômico.

Michael Smithson é professor da Australian National University

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