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De volta pra casa: “Esta é minha terra, mas é sobretudo a terra de Marighella”

Wagner Moura estreia longa sobre o guerrilheiro em Salvador e diz que é "um filme sobre aqueles que resistem no Brasil agora"

Wagner Moura no palco do TCA em Salvador. Foto: Mateus Ross/divulgação
Manuca Ferreira
26 de outubro de 2021, 16h08

“Esse homem amou o Brasil”, grita Elza Sento Sé, interpretada pela atriz Maria Marighella, em uma das cenas finais de Marighella – O Filme, baseado na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães. Neta do líder revolucionário e hoje vereadora pelo PT de Salvador, a fala de Maria sintetiza as mais de duas horas de duração da obra e a vida do líder revolucionário baiano. Carlos Marighella amou o Brasil. Ontem à noite, na pré-estreia em Salvador, terra natal do comunista, o espírito de Marighella esteve presente na volta pra casa.

“Essa é minha terra, mas é sobretudo a terra de Carlos Marighella”, disse um emocionado Wagner Moura no palco do TCA. “Esse filme não é só sobre aqueles que resistiram na ditadura, nos anos 60 e 70. Esse filme é sobre aqueles que estão resistindo agora no Brasil”

Após dois anos de perseguição e censura pelo governo Bolsonaro e sua autoritária secretaria especial de Cultura, o primeiro filme dirigido pelo ator, roteirista e diretor Wagner Moura estreou não por acaso na cidade do guerrilheiro assassinado pela ditadura em uma emboscada em São Paulo há 52 anos, em 4 de novembro de 1969. “Essa é a minha terra, mas essa é sobretudo a terra de Carlos Marighella”, disse um emocionado Wagner sobre o palco do Teatro Castro Alves, que, pela primeira vez desde o início da pandemia, recebia um público daquele tamanho (50% da capacidade, com máscara e vacinação).

“Esse filme não é só sobre aqueles que resistiram na ditadura militar, nos anos 60 e 70. Esse filme é sobre aqueles que estão resistindo agora no Brasil”, afirmou. “É inacreditável que um produto cultural receba tantos ataques violentos e sofra tanta resistência por parte do governo federal. Isso diz muito mais sobre o estado das coisas no Brasil hoje do que sobre o filme.”

O discurso de Wagner Moura teve endereço certo: o enfrentamento ao autoritarismo bolsonarista, que censura e persegue quem pensa diferente, como é o caso dele mesmo, que teve o lançamento do filme adiado reiteradas vezes por entraves burocráticos. Assistindo o filme, uma audiência que reagiu de forma catártica. Um homem na plateia gritou lembrando que, também num 25 de outubro, mas em 1975, a ditadura assassinou o jornalista Vladimir Herzog. Gritos ainda de “Fora Bolsonaro”, acompanhando os créditos, fizeram a apoteose final.

As pessoas presentes mostraram que a história de Marighella tem a capacidade de afetar um público diverso que mantém viva a luta dele por um Brasil mais justo. Líderes de movimentos sociais, como a Coalizão Negra Por Direitos, artistas que questionam em suas obras as estruturas do patriarcado, do capitalismo e do racismo, como Hiran, Tatau, Margareth Menezes e Vandal; a Brigada Marighella, torcida do Vitória, time por quem Marighella torcia (assim como Wagner); e familiares de Marighella: o filho Carlinhos e os netos Pedro e Maria Marighella.

Wagner e Carlinhos Marighella, filho do guerrilheiro. Foto: Mateus Ross/divulgação

Foi um reencontro de parte da população soteropolitana com a trajetória de Marighella que, como afirmou Moura, foi apagada dos relatos da história oficial brasileira, contada pelas forças dominantes que tentam diminuir todas as potências de transformação do país. Considerado o inimigo número um da ditadura civil-militar do Brasil, Marighella foi poeta, deputado federal e líder da resistência armada ao regime.

No palco do TCA, também parte do elenco do filme: Bruno Gagliasso, que interpreta o delegado Lúcio, a atriz Bella Camero, que faz a personagem Bella, Ana Paula Bouzas, que interpreta a personagem Ana (os personagens da resistência armada têm os nomes dos atores) e Matheus Araújo, ator que interpreta Carlinhos Marighella no filme. As cenas entre pai e filho, aliás, estão entre os pontos altos. O lançamento de Marighella é uma vitória de todas aquelas e aqueles que reivindicam memória, verdade e Justiça. É a história de um homem que amou o Brasil, um diálogo com todas as pessoas que sonham e lutam por um país que respeite as múltiplas existências.

 


(9) comentários Escrever comentário

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Sócrates Buarque em 26/10/2021 - 17h14 comentou:

Ao mesmo tempo em que matava Marighella, a ditadura fazia com que Pelé marcasse seu milésimo gol.
A morte de Marighella foi noticiada durante o jogo, anunciado que o “terrorista” estava morto após troca de tiros com a polícia.
Batismo de Fogo, escrito por Frei Beto, descreve que foi uma emboscada e não houve troca de tiros.

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Edisio Bezerra Patriota em 26/10/2021 - 19h14 comentou:

gostaria de estar presente!Mas é como estivesse! vou ver o filme e recomendo que todos façam o mesmo!

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Bernardo Santos Melo em 27/10/2021 - 03h19 comentou:

Matar quem discorda é ACINTE e requer reflexão , revolta , justiça e ampla divulgação .
Reter uma obra artística por dois anos para sua simples visualização nas telas é estupro cultural . Essa coisa abjeta que desgoverna nosso país , fruto miliciano de um general chamado Silvio Frota , tenente expulso do exército que no momento encontra-se banido da “ web “ , àquele cultuador de USTRA , negacionista , sociopata , sacripanta com 605 mil óbitos no currículum mortis .
Até quando este tiranete da casa 58 nos deixará entalado e sem alegrias culturais ?

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Jorge Santana em 27/10/2021 - 04h55 comentou:

Como cidadão, também baiano, que tive meu pai assassinado, em 1964, por esses torturadores, desejo pleno êxito na divulgação da verdade.
Carlos Mariguela vive no coração do povo Brasileiro que continua resistindo ao fascismo
Fora BOZONAZI.

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Adriana Barros Gonçalves em 27/10/2021 - 09h26 comentou:

Seu Jorge é quem no filme?

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    Cynara Menezes em 28/10/2021 - 15h40 comentou:

    marighella

José Da Cunha Júnior em 27/10/2021 - 21h44 comentou:

Hoje, mais que nunca, precisamos rememorar Marighella, sua ética, sua sensibilidade e mais que tudo, sua coragem!

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PAULO ROBERTO MARTINS em 03/11/2021 - 20h10 comentou:

Viva Marighella,Carlos Lamarca, Gregório Bezerra e todos os grandes líderes e heróis, estudantes e guerrilheiros que morreram lutando por este país. Infelizmente esta nova geração não tem nem a grandeza moral nem a coragem para enfrentar na rua,no peito e na raça esta corja fascista e ignorante que comanda e envergonha nosso país!

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Luís Carlos Kerber em 07/11/2021 - 11h42 comentou:

Parabéns para Wagner Moura por ter produzido este filme que conta a luta de verdadeiros brasileiros como Marighella, além de mostrar que o país atualmente é governado pelo genocida Bozo e que vamos tirar esse genocida da presidência do Brasil e enviá-lo para os tribunais, onde o criminoso será julgado por crimes contra a humanidade e contra o meio ambiente.

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