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Delegado da PF reconhece gravação não-autorizada da condução coercitiva de Lula

O delegado-chefe da Lava-Jato, Igor Romário de Paula, reconheceu ontem, segundo os advogados de Lula, que a Polícia Federal realmente gravou, sem autorização, a condução coercitiva do ex-presidente, em março do ano passado, desde a chegada dos policiais ao apartamento dele em São Bernardo do Campo, mas negou que as imagens tenham sido cedidas a […]

Cynara Menezes
28 de março de 2017, 15h15
lulacoercitiva

(Lula dá entrevista após condução coercitiva. Foto: reprodução TVT)

O delegado-chefe da Lava-Jato, Igor Romário de Paula, reconheceu ontem, segundo os advogados de Lula, que a Polícia Federal realmente gravou, sem autorização, a condução coercitiva do ex-presidente, em março do ano passado, desde a chegada dos policiais ao apartamento dele em São Bernardo do Campo, mas negou que as imagens tenham sido cedidas a terceiros. No entanto, em reportagem veiculada pela revista Veja, a equipe do filme que está sendo produzido sobre a operação conta ter utilizado cenas reais da injustificada coercitiva de Lula como recurso para a preparação dos atores.

A divulgação do vídeo a terceiros havia sido negada pelo juiz Sergio Moro na semana passada, respondendo a petição da defesa de Lula. “Não consta que qualquer gravação efetuada durante a diligência de condução coercitiva tenha sido disponibilizada à produção do filme ou a qualquer veículo de imprensa. Se o último fato tivesse ocorrido, aliás, provavelmente tais imagens já teriam sido publicizadas”, disse Moro em despacho.

O mentor da Lava-Jato também afirma não ser papel seu “impor censura” –o que não deixa de ser irônico, em se tratando de um juiz que há poucos dias ordenou a condução coercitiva, sem necessidade, de um blogueiro de esquerda. Ou que escreveu carta à Folha questionando a publicação de um artigo do cientista Rogério Cézar de Cerqueira Leite contra ele. Após receber a petição da defesa, o juiz deu cinco dias para a PF se explicar; e veio a confirmação de que, de fato, foi feita uma gravação da condução coercitiva supostamente sem sua autorização.

Ao tomar conhecimento da reportagem da Veja, os advogados de Lula recorreram à Justiça exigindo explicações para a divulgação do vídeo à equipe do filme e à própria revista. “O roteiro seguiu os passos de um vídeo de quase duas horas de duração feito pelos investigadores da PF naquele 4 de março de 2016. VEJA teve acesso à íntegra da gravação, efetuada por meio de uma câmera digital acoplada ao uniforme de um agente da PF que participou da ação. As primeiras cenas foram captadas antes mesmo de o sol nascer, na porta do edifício Hill House, em São Bernardo do Campo, onde vive Lula”, diz a reportagem.

Questionado pela revista sobre o que tinha ido fazer na Polícia Federal de Curitiba, o ator Ary Fontoura, que fará o papel de Lula no filme, confirmou ter visto a filmagem: “Vim sentir o clima da Lava-Jato e assistir às gravações que a PF fez da condução coercitiva do Lula”.

A defesa do ex-presidente lembrou que, no despacho de Moro sobre a condução coercitiva, estava expresso que a ação não deveria ser filmada. E cita o trecho: “Consigne-se no mandado que NÃO deve ser utilizada algema e NÃO deve, em hipótese alguma, ser filmado ou, tanto quanto possível, permitida a filmagem do deslocamento do ex-presidente para a colheita do depoimento”.

filmagem

(Trecho do despacho de Moro sobre a condução coercitiva)

“Ainda que se alegue que a captação das imagens se deu em razão de atestar a inocorrência de abusos e o respeito à integridade do Peticionário –o que só se cogita por mera concessão dialética– tais imagens não podem ser indevidamente fornecidas pela Autoridade Policial para subsidiar a produção de um filme, objeto completamente estranho à investigação”, criticam os advogados de Lula.

Agora, o delegado Igor Romário de Paula reconheceu que as gravações existiram, embora afirme que não descumpriu a proibição de não filmar Lula no trajeto porque a ordem “não se refere à gravação feita pela Polícia Federal durante a realização da diligência”. “Não houve em momento algum descumprimento, por parte da equipe de policiais que participou da diligência, dos parâmetros estabelecidos na decisão judicial (procedimento aliás que é adotado rotineiramente em todas as ações da Polícia Federal)”, diz o delegado. Fica a dúvida se a parte das algemas também não se referia à PF.

Na segunda, 27 de março, os advogados de Lula voltaram à carga em nova petição: “A petição atual reitera os pedidos formulados anteriormente, para que os envolvidos se abstenham de qualquer divulgação das imagens gravadas, preservando o sigilo do material. Reitera igualmente que seja apurada a prática de eventuais crimes decorrentes da violação de deveres funcionais pelos agentes públicos, que tinham o dever de preservar o sigilo do material e eventual participação de pessoas relacionadas ao filme, cujos investidores são mantidos em sigilo.”

A realização de gravação sem autorização judicial e a divulgação dela evidenciam mais uma ilegalidade e o desrespeito para com a figura do ex-presidente Lula na Lava-Jato. Com a palavra, o juiz Moro.

 

 

 


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