Socialista Morena
Direitos Humanos

Dora, a sandinista que Ortega desterrou: “A ditadura da Nicarágua não tem ideologia”

A historiadora de 67 anos, que foi mantida por quase dois anos na solitária, aplaudiu a posição do governo brasileiro: "clara e contundente"

Dora Maria Téllez na guerrilha em 1979. Foto: reprodução
Cynara Menezes
10 de março de 2023, 17h21

No dia 22 de agosto de 1978, os sandinistas tomaram o Palácio Nacional de Manágua. Como conta Gabriel García Márquez na crônica Assalto ao Palácio, três guerrilheiros estavam no comando da ação: o Comandante Cero era Edén Pastora, morto pela Covid-19 aos 83 anos em 2020; o Comandante Uno, Hugo Torres Jiménez, morreu na prisão de Daniel Ortega e Rosario Murillo em fevereiro de 2022; e a Comandante Dos, Dora María Téllez, foi expulsa no mês passado de seu próprio país junto com outros 221 presos políticos e enviada aos Estados Unidos pelo regime nicaraguense, após passar quase dois anos encarcerada.

“A número ‘Dois’, a única mulher do comando, é Dora María Téllez, de 22 anos, uma menina muito bela, tímida e absorta, com uma inteligência e um discernimento que lhe teriam servido para qualquer coisa grande na vida. Ela também estudou três anos de Medicina em León. ‘Mas desisti por frustração’, diz. ‘Era muito triste curar crianças desnutridas com tanto trabalho, para que três meses depois voltassem ao hospital em um estado de desnutrição pior’. Vem da Frente Guerrilheira do Norte e desde janeiro de 1976 vivia na clandestinidade”, conta García Márquez sobre Dora, a heroína nacional hoje exilada em Washington aos 67 anos.

Daniel Ortega é, para algumas pessoas da esquerda latino-americana, uma recordação do que foi a revolução sandinista, mas não tem nada a ver. Daniel Ortega é um caudilho autoritário que tem uma ditadura de aspirações dinásticas, quase um modelo monárquico realmente

Para dissimular que persegue seus próprios companheiros do passado, o casal de ditadores nicaraguenses (Rosario, mulher de Daniel, é a vice-presidenta do país) e seus ainda defensores na esquerda tentam transformar Dora e outros oposicionistas expulsos em “traidores” da revolução. “Ortega não perdoa que haja sandinistas que o venham enfrentando há décadas”, diz Dora Téllez em entrevista exclusiva ao Socialista Morena.

“Na prisão, colocavam os opositores de um lado e do outro nós, como ‘traidores’. Traidores do quê? O que nós traímos? Se nós nunca juramos lealdade a uma pessoa! Nós éramos leais a um ideal, o ideal de que o povo nicaraguense tivesse liberdade, de que o povo nicaraguense tivesse melhores condições econômicas e sociais, que houvesse oportunidades, justiça social. Isso é exatamente pelo que continuamos a lutar.”

Rosario Murillo e Daniel Ortega, casal de ditadores nicaraguenses. Foto: divulgação

Dora atribui a um “saudosismo” da esquerda revolucionária dos anos 1960 o fato de ainda haver esquerdistas que apoiam a ditadura Ortega Murillo, e aplaude a posição tomada pelo governo Lula em Genebra na terça-feira, 7 de março, quando o embaixador brasileiro na ONU, Tovar Nunes, soltou uma nota manifestando preocupação pela situação na Nicarágua. Tovar falou em “sérias violações de direitos humanos e restrições ao espaço democrático, particularmente execuções sumárias, detenções arbitrárias e tortura contra dissidentes políticos”, e ofereceu asilo aos desterrados, a exemplo do que haviam feito Chile, Argentina e Colômbia.

No começo de fevereiro, a ditadura nicaraguense libertou 222 dos 245 presos políticos, entre os quais Dora Téllez, direto para o exílio. Dias depois, 94 personalidades da oposição nicaraguense que já se encontravam exiladas tiveram sua nacionalidade retirada, vários deles também sandinistas, como os escritores Gioconda Belli e Sergio Ramírez (que foi vice de Ortega entre 1986 e 1990) e os ex-comandantes guerrilheiros Luis Carrión e Mónica Baldotano.

“Achei a nota sumamente clara e contundente”, aplaudiu. “Faz uma crítica direta, diz que na Nicarágua há graves violações aos direitos humanos, restrições à democracia, perseguição aos opositores, que houve execuções sumárias… Transmite uma imagem sumamente clara do que é o posicionamento de uma esquerda nova, profundamente comprometida com a democracia.”

Leia a íntegra da entrevista com Dora Téllez a seguir.

Dora Téllez durante a entrevista

–Quanto tempo você passou presa na Nicarágua?
Vinte meses menos sete dias, desde o dia 12de junho de 2021.

–E você saiu da cadeia direto para o exílio?
Sim, nos libertaram e justo na porta do aeroporto nos fizeram assinar um documento que dizia que seríamos transladados voluntariamente aos Estados Unidos. Haviam falado previamente com o governo dos EUA e a administração Biden aceitou nos receber. Do outro lado dessa porta já estavam os funcionários da embaixada dos EUA com nosso passaporte e já se encarregaram do translado das 222 pessoas expulsas. Nós fomos desterrados, tínhamos que ter sido postos em liberdade na Nicarágua, mas nos aplicaram o desterro e dentro de 48 horas nos tiraram a nacionalidade também.

–É verdade que tomaram as propriedades de vocês?
Dos 222 ainda não. Do grupo de 94 que tiraram a nacionalidade, sim. Em relação aos 222 o que está ocorrendo é assédio à família, estão impedindo que tirem os passaportes para se reunir com os parentes, até mesmo as crianças. Os familiares dos presos políticos estão tendo que sair por pontos cegos, por rotas clandestinas em vez de atravessar a fronteira, porque não têm passaporte. E buscando um salvo-conduto onde chegam.

–Você foi uma das guerrilheiras sandinistas. Quando foi que começou a desconfiar do caráter de Daniel Ortega?
Desde 1992, 1993. Nós já vínhamos formando um grupo de líderes da Frente Sandinista para lutar por um processo de democratização do partido. E a principal oposição à democratização era Daniel Ortega. Daniel então anulou a direção coletiva, que era uma tradição da Frente Sandinista, passou por cima dos acordos dos órgãos do partido e começou a levar o partido na direção que ele pessoalmente queria. Nós começamos uma luta contra isso, fomos ao primeiro Congresso, fomos ao segundo, e a situação piorava cada vez mais dentro da Frente Sandinista. Até recebemos ameaças de morte nessa época, quem estava contra que Daniel Ortega continuasse a ser o secretário-geral do partido, que se impulsionasse um processo redemocratizador e se respeitasse os órgãos de direção. Isso não aconteceu. E houve um momento em que já estávamos sendo tão agredidos e perseguidos, até com ameaças de morte, que nosso grupo saiu da Frente Sandinista e fundamos outro partido, que se chamava Movimento Renovador Sandinista. Isso foi em 1995. Estamos falando já de muitos anos… O que Ortega vinha fazendo dentro da Frente Sandinista era a preparação do que ia fazer com o país depois. Instalar um regime personalista, de caudilhismo, onde as regras, as normas, os estatutos internos não valem, assim como agora não valem as leis, a Constituição nem nada.

Há alguns setores na esquerda mundial que têm um apego à velha esquerda dos anos 1960. A esquerda dos anos 1960 dissimulava um pouco o tema do stalinismo, havia uma certa dissimulação da existência do 'caudilho de esquerda'. E no final das contas um caudilho ditador de esquerda é exatamente igual a um caudilho ditador de direita. Não há nenhuma diferença

–Te pergunto isso do caráter, porque Ortega foi acusado inclusive do estupro de sua enteada… Ou seja, faz tempo vem dando sinais de que não é uma boa pessoa, muito menos de esquerda.
A conduta autoritária de Ortega é antiga, é uma conduta que não conhece limites de nenhuma espécie. Por isso a Comissão de Direitos Humanos da ONU agora, o grupo de especialistas, o aponta com toda clareza como responsável por crimes contra a humanidade. Basicamente o grupo diz o que estamos falando: não há limites de qualquer espécie para Daniel Ortega no controle do país. Então, sim, sem dúvida, faz anos que Daniel Ortega dá todas as mostras de ter essa mesma condição. E em 2006 conseguiu se instalar no poder mediante uma fraude eleitoral. Passou a controlar o Conselho Supremo Eleitoral e o Instituto Eleitoral da Nicarágua e instrumentalizaram uma fraude eleitoral completamente clara para nós, porque 8% dos votos não foram contados. Se 8% dos votos tivessem sido computados, ele seria obrigado a ir ao segundo turno, e no segundo turno perderia as eleições. Isso proporcionou a ele roubar as eleições, porque tinha a cumplicidade de altos funcionários do Conselho Supremo Eleitoral. Daí para a frente as violações à Constituição, às leis, a apropriação de estruturas do Estado, o controle de aparatos distintos do Estado e seu uso para perseguir opositores foi crescendo. Esta semana foi cancelada a existência das Câmaras Empresariais, com anos de existência. Ele também fechou duas universidades privadas com mais de 25 anos que realizavam um trabalho importante, levando educação onde as universidades públicas não chegam. O regime ainda mantém mais de 3 mil ONGs liquidadas, ele tem obsessão por acabar com as Organizações Não-Governamentais. E eu vejo nisso uma política de terra arrasada, que é a clássica política que as forças que vão em debandada, em retirada, que se sentem derrotadas, realizam quando deixam algum lugar. Quando um exército que tomou uma cidade tem que se retirar, em geral incendeia essa cidade. É esse modelo que Ortega está seguindo, mas é um modelo que mostra sua própria fraqueza. Ortega tem um isolamento internacional profundo e tem um isolamento nacional total. Não há ninguém que apoie Daniel Ortega e Rosario Murillo dentro de Nicarágua.

–Dora, por que você acha que setores da esquerda no Brasil e em outros lugares ainda apoiam Daniel Ortega como se fosse de esquerda, quando seu governo mais parece uma monarquia, com ele presidente, a mulher vice e perpetuados no poder? Isso não se parece nada com a esquerda com a qual sonhamos…
Em primeiro lugar temos que dizer que os Ortega-Murillo não têm ideologia. Daniel Ortega é, para algumas pessoas da esquerda latino-americana, uma recordação do que foi a revolução sandinista, mas não tem nada a ver. Daniel Ortega é um caudilho autoritário que tem uma ditadura de aspirações dinásticas, quase um modelo monárquico realmente. Utiliza o Estado nicaraguense como se fosse propriedade pessoal ou familiar. Há alguns setores da esquerda latino-americana, na Europa e inclusive nos EUA –cada vez menos–, que veem em Daniel Ortega esse líder revolucionário. Cada vez menos pessoas o veem assim porque Daniel Ortega e Rosario Murillo se desnudaram completamente com as violações aos direitos humanos, os atentados à liberdade, as violações à democracia, a perseguição de todo mundo na oposição –inclusive da esquerda nicaraguense. E dentro do seu próprio partido também estão em crise precisamente por isso. São uma família que não possui ideologia, que faz o necessário para se manter no poder. Mas eu acho que há alguns setores na esquerda mundial que têm um apego à velha esquerda dos anos 1960. A esquerda dos anos 1960 dissimulava um pouco o tema do stalinismo, havia uma certa dissimulação da existência do ‘caudilho de esquerda’. E no final das contas um caudilho ditador de esquerda é exatamente igual a um caudilho ditador de direita. Não há nenhuma diferença. Ambos terminam liquidando as liberdades públicas, e terminam danando a sociedade. A direita dissimulava a ditadura de direita e a esquerda acabou dissimulando a ditadura de esquerda nos anos 1960. Eu sinto que a mudança importante que houve nas últimas duas décadas foi justamente o surgimento de uma esquerda profundamente comprometida com a democracia. Sempre com a igualdade, com a justiça social, que é uma vocação natural da esquerda, mas profundamente comprometida com a democracia dentro da sociedade e com a democracia interna dentro de sua própria força política, dentro do partido. Essa é uma esquerda nova. A esquerda revolucionária dos anos 1960, pelo menos na América Central, na Nicarágua, não tinha um compromisso democrático tão profundo como a nova esquerda latino-americana tem agora. Isso se vê, por exemplo, nos setores de esquerda na Venezuela que tomaram uma via autoritária acompanhando a Chávez em uma aventura que resultou catastrófica. A esquerda dos anos 1960 era muito indulgente no caso de Cuba porque Cuba estava submetida a um bloqueio dos EUA, mas uma coisa não nega a outra. O fato de o bloqueio ser uma política que não tem sentido, que causou muito dano ao povo cubano, não quer dizer que o regime dos Castro não seja um regime que cerceou as liberdades do povo cubano e que provocou um êxodo total. E além disso não funcionou no sentido de levar o povo cubano a uma melhor condição econômica e social. Essa é a realidade. Mas eu sinto que a nova esquerda latino-americana, esta da última década, marcou uma diferença importante sobre isso. A declaração que deu, por exemplo, o embaixador do Brasil no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre o regime da Nicarágua dá uma imagem sumamente clara do que é o posicionamento de uma esquerda nova, assim como Chile, Colômbia, a Costa Rica, que assinalaram com toda a clareza que há violações graves aos direitos humanos e que há restrições severas ou que simplesmente não existe democracia na Nicarágua nem Estado de direito. Então eu vejo uma diferença e vejo cada vez menos gente que o vê com certo saudosismo da revolução sandinista. No fundo se trata de saudosismo porque não é a realidade. A realidade é que os Ortega-Murillo estabeleceram uma ditadura na Nicarágua que é simplesmente uma ditadura sem ideologia e que submetem o país a uma opressão tremenda.

Os Ortega Murillo têm um ódio especial ao movimento feminista e ao movimento de mulheres em geral. Acho que este ódio vem da própria figura de Rosario Murillo e de seu pensamento, que não tolera mulheres com poder, mulheres empoderadas

–Então você aprovou a posição do Brasil sobre a Nicarágua em Genebra?
Eu achei a nota sumamente clara e contundente. Faz uma crítica direta, diz que na Nicarágua há graves violações aos direitos humanos, restrições à democracia, perseguição aos opositores, que houve execuções sumárias… Sumamente clara. E agrega que espera que tudo isto possa ser resolvido mediante o diálogo. Me parece uma posição nítida, diáfana, do governo do Brasil. O chamado ao diálogo não somente é do governo brasileiro, a oposição nicaraguense e a maioria dos nicaraguenses queremos resolver este problema pela via cívica. Queríamos resolvê-lo nas eleições de 2021, mas o regime capturou todos os líderes políticos, econômicos e meios de comunicação e todos os candidatos à presidência foram presos. Ortega foi às eleições de novembro de 2021 sem nenhum competidor de nenhuma espécie. Ou seja, essa oposição que ele encarcerou ia às eleições, ainda que sob as condições da ditadura. Sabíamos que em eleições medianamente livres Ortega ia ser derrotado. E Ortega também sabia, porque somente quem tem medo manda prender todos os candidatos opositores. O que ele demonstrou aí foi um terror do resultado em eleições medianamente livres. Nós, da oposição, queremos uma saída cívica: queremos uma reforma eleitoral, que possa garantir eleições livres, transparentes, competitivas, justas. Mas os Ortega se negaram a avançar nesta direção.

–Para deixar claro ao público que vai ler esta entrevista: muitos dos que Ortega persegue são sandinistas, não é?
Sim, eu sou, Victor Hugo Tinoco é. Hugo Torres, que morreu na prisão, estava no comando guerrilheiro que libertou Daniel Ortega da prisão em 1974. E Hugo foi obrigado a morrer na prisão, porque não o deixaram sair nem um dia para casa, para morrer com sua família e rodeado de seus filhos. A crueldade deles vai ao extremo. Ortega não perdoa que haja sandinistas que venham enfrentando-o há décadas. Isso é imperdoável para ele. E de fato os investigadores, os interrogadores e o chefe de auxílio judicial na prisão colocavam os opositores de um lado e do outro nós, como ‘traidores’. Traidores do quê? O que nós traímos? Se nós nunca juramos lealdade a uma pessoa! Nós éramos leais a um ideal, o ideal de que o povo nicaraguense tivesse liberdade, de que o povo nicaraguense tivesse melhores condições econômicas e sociais, que houvesse oportunidades, justiça social. Isso é exatamente pelo que continuamos a lutar. E é exatamente o que Daniel Ortega impediu de acontecer na Nicarágua.

–Há alguns dias, um dirigente do PT, Alberto Cantalice, publicou uma série de tweets onde defendia que a esquerda brasileira deveria tomar uma posição firme contra qualquer ditadura, e colocou no mesmo balaio Cuba, Nicarágua e Venezuela –depois excluiu Cuba, mas já estava dito. Você acha que a situação é a mesma ou há diferenças?
Em essência se trata do mesmo, de regimes que cerceiam completamente as liberdades públicas. A liberdade de expressão, a liberdade de mobilização, a liberdade de organização, a liberdade de eleição que os cidadãos têm para escolher seus governantes. No caso da Nicarágua, teoricamente há liberdade de empresa, mas há perseguição a todas as pessoas que têm propriedades e são opositoras. Em Cuba não há liberdade de mercado e na Venezuela a situação é sumamente caótica, mas no final das contas é um regime autoritário também, que se baseou na restrição às liberdades públicas. E, nos três casos, há presos e presas políticas, alguns há muitos anos. Para mim é difícil ter posição de esquerda e legitimar alguém que restringe liberdades, seja de esquerda ou de direita. Eu francamente não creio na tese do bom ladrão e do mau ladrão. Não é porque você é meu aliado que vou te perdoar ou fazer vista grossa a seus problemas. Essa não é a minha posição. Minha posição é de uma esquerda com compromisso democrático e profundo compromisso de justiça social. Tem que marcar um limite claríssimo e isso é essencial para que essa esquerda possa responder às aspirações das novas gerações de latino-americanos neste século. Este não é o século 20, é o século 21, onde as pessoas estão interconectadas, onde os jovens e a juventude estão interconectadas, há uma janela para se somar a sociedades onde a liberdade existe e que têm igualdade e oportunidades com muito maior possibilidade do que havia antes. A única maneira com a qual a esquerda pode se converter em uma opção duradoura na política latino-americana é que responda às ambições de liberdade que vêm completamente integradas à noção de comunicação atual. Não é como antes, que a liberdade de expressão estava vinculada apenas à existência de um jornal ou uma rádio. Agora a liberdade de expressão é muito complexa, está vinculada às redes sociais, que são perseguidas, à liberdade que eu possa ter para ler jornais de outros países, pensamentos de outras pessoas, de outra cultura, quer dizer, é um conceito muito mais amplo. E a esquerda só pode ancorar-se nesta sociedade do século 21 se for coerente com as aspirações desta nova geração. Não é o século 20, não são os anos 60 do século 20.

–Nos protestos de 2018, os nicaraguenses foram às ruas com cartazes dizendo “Ortega, Somoza, son la misma cosa”. Você está de acordo? É a mesma coisa?
É essencialmente o mesmo. Os Somoza chegaram a um extremo a que os Ortega ainda não chegaram. Os Somoza chegaram a este extremo porque havia uma luta armada, mas os Ortega se aproximam muitíssimo dos extremos que chegou a ditadura dos Somoza. Muitíssimo. Há uma diferença muito pequena, eu não tenho certeza que eles não vão cruzar a linha que os separam da ditadura dos Somoza no nível de crueldade que a ditadura dos Somoza teve em seus últimos tempos. Mas se aproximam muito, muito rapidamente. Essa política de terra arrasada que os Ortega e Murillo estão executando, que tira a legalidade de todas as organizações e que persegue a oposição política e empurra ao exílio a mais de meio milhão de nicaraguenses é extremamente cruel. Mais de meio milhão de nicaraguenses foram empurrados para fora da fronteira. Isso implica em dissolução familiar, em sofrimento das famílias, e por que Ortega faz isso? Porque quer que a oposição esteja fora, simplesmente, quer exercer seu controle sem nenhuma oposição na rua. Então lança as pessoas a passarem penúrias de toda natureza. A Nicarágua se transformou num país que expulsa os jovens, os técnicos, os profissionais mais qualificados, que são os que tendem a emigrar, porque as pessoas mais pobres não emigram, é muito caro, mas são asfixiadas por Ortega dentro do país. Quer dizer, continua sendo uma ameaça para os camponeses que estão na zona do canal e para os trabalhadores que veem que seu trabalho corre risco porque os investidores não querem apostar em um país onde há um risco tão grande de perder a propriedade, de perder o que investiram.

–É verdade que os principais meios de comunicação do país hoje são dos filhos dele?
Sim, os que existem são dos filhos (Juan Carlos Ortega Murillo e Rafael Ortega). O canal 8, o canal 4. O canal 12 ainda não, mas estão muito acuados. Tanto o canal 12 como o 10, que ainda são privados, não publicam nenhuma notícia política, só variedades, notícias sem importância. Ninguém se atreve a publicar nenhuma notícia política. Os jornais foram fechados, os principais meios de comunicação estão atuando a partir da Costa Rica, porque foram perseguidos na Nicarágua, as sedes foram confiscadas, as rotativas, o equipamento, e só ficaram os canais de televisão e os meios da família Ortega Murillo.

A única maneira com a qual a esquerda pode se converter em uma opção duradoura na política latino-americana é respondendo às ambições de liberdade que vêm completamente integradas à noção de comunicação atual. A esquerda só pode ancorar-se na sociedade do século 21 se for coerente com as aspirações desta nova geração. Não é o século 20, não são os anos 60 do século 20

–Esta semana tivemos o Dia Internacional da Mulher, e eu queria que você comentasse a perseguição às feministas pelos Ortega. Parece que toda ditadura tem esse lado da masculinidade tóxica, não é?
Os Ortega Murillo têm um ódio especial ao movimento feminista e ao movimento de mulheres em geral. Acho que este ódio vem da própria figura de Rosario Murillo e de seu pensamento, que não tolera mulheres com poder, mulheres empoderadas. E isto se acentuou porque o movimento feminista respaldou Zoilamérica (a enteada de Ortega) em sua denúncia de que Ortega havia abusado dela e a havia estuprado, enquanto Rosario, sua própria mãe, ficou do lado de Ortega. Ela e o resto de seus filhos. Eles não perdoaram às feministas este endosso a Zoilamérica e começaram rapidamente a perseguir líderes do movimento feminista. Processaram oito mulheres e as acusações foram abandonadas depois, mas já haviam destruído a sede do movimento feminista autônomo e acuado a todas as organizações de mulheres. Continua havendo um ódio brutal, há uma postura de machismo, homofobia, misoginia que se manifestou com as quatro mulheres que estávamos na prisão. Nós quatro pertencíamos ao partido Unamos, que era anteriormente o Movimento Renovador Sandinista, e as quatro ficamos no isolamento em solitária todo o tempo em que estivemos presas. Não podíamos falar com ninguém além dos policiais que chegavam com a comida ou para deixar medicamentos. Não houve um só homem que permanecesse na solitária no tempo em que estivemos lá, enquanto nós estivemos 20 meses na solitária. Eu registrei as vezes em que podia falar com os oficiais durante o dia e ao final não chegava a falar mais que um minuto por dia, dos 1400 minutos que o dia tem. E essa mesma situação suportaram Ana Margarita, Suyen e Tamara, as outras três líderes do partido que estavam prisioneiras. É um ódio específico contra nós. E todo mundo se perguntava: ‘por quê mantiveram vocês assim, qual a razão?’ Tem que perguntar a Ortega e Rosario Murillo, mas é que não toleram mulheres que os enfrentem, que não lhes temam. Apostaram que podiam nos dobrar, nos destroçar, que fôssemos pedir clemência, e não conseguiram.

–O que vai acontecer com os exilados da Nicarágua agora?
É uma grande pergunta. Os 222 que viemos para os EUA no dia 9 de fevereiro há uma situação complexa e diversa, há famílias em condições de muita pobreza e alguns deles já tiveram muita dificuldade nestas três semanas, apesar de o Departamento de Estado, através de organizações como o Centro de Vítimas para a Tortura e associações de apoio aos nicaraguenses, fez vários esforços para contribuir em vários aspectos, mas não é suficiente. Os gastos de saúde –grande parte de nós saiu com algum problema de saúde, uns mais sérios que outros–, são muito caros, muitos do grupo de 222 não falamos inglês… As permissões para trabalhar estão saindo rapidamente e isso animou o grupo, que está espalhado pelo país em casas de familiares, de pessoas solidárias, mas esta situação tem um limite. Todo mundo está tentando que sua família saia da Nicarágua para se reencontrar com os parentes. O visto humanitário nos dá dois anos nos EUA, até 2025, e a partir daí está a opção do asilo político. A Espanha, o Chile, a Colômbia, o Brasil e a Argentina ofereceram a nacionalidade a quem assim o deseje. Eu me inscrevi, o governo espanhol foi o primeiro que ofereceu papéis para minha nacionalidade espanhola, para poder contar com documentos de viagem e não ficar completamente no ar. Estou muito agradecida com o que ofereceram muitos governos na América Latina e no mundo, apoio não somente a nós como aos outros 94 que foram expatriados e despojados de sua nacionalidade. Não sei o que vai acontecer depois, porque cada um de nós tem uma enorme incerteza sobre o que fazer, em que trabalhar, onde viver, como se sustentar nos próximos meses. Por isso estamos pleiteando uma reunião com a União Europeia nos próximos dias para que seja outorgado a nós o status de refugiados, que daria a possibilidade de contar com o Medicare, algumas ajudas alimentares durante um tempo, que permita aos exilados se inserir na sociedade dos EUA, encontrar trabalho, um lugar e trazer sua família. É uma situação difícil e complexa, claro que era muito mais difícil e complexa a situação na prisão, mas há alguns enfermos, foi detectado pelo menos um caso de tuberculose de um prisioneiro que foi libertado de La Modelo (Sistema Penitenciário Jorge Navarro), o que quer dizer que nesta penitenciária há muitos outros casos de tuberculose. A prioridade tem sido enfrentar os problemas de saúde que trouxemos.

–Em termos de luta, o que vocês podem fazer?
Creio que temos, em primeiro lugar, que nos fixar. Muitos de nós ainda sofrem de insônia, ansiedade, todas as condições que o cárcere nos trouxe, um esgotamento. Estamos esgotados. A princípio pensava que era eu que estava, mas na verdade falo com os demais e vejo que todo mundo está esgotado. Então, em primeiro lugar, temos que arrumar uma casa, elucidar o que vai fazer cada um e nos colocar de novo na frente de luta pela Nicarágua. Da minha parte, seguirei lutando para que a Nicarágua tenha democracia, oportunidades, respeito aos direitos humanos, justiça social e igualdade.

 

 

 

 

 


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(3) comentários Escrever comentário

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Eugênio Bh em 10/03/2023 - 20h03 comentou:

Uau, o Jornalismo (escrito, descrito, transcrito e etc. ) também voltou!

Laives que fiquem pra quem não gosta de ler…

Maravilha!

Responder

Vinícius C em 12/03/2023 - 10h34 comentou:

Que entrevista excelente! Obrigado Cynara!

Responder

TWA em 19/03/2023 - 09h07 comentou:

espetacular

Responder

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