“Duplipensar” da porta-voz de Trump saiu direto de 1984, distopia de George Orwell
Karoline Leavitt utiliza a mesma estratégia que, no livro, fazia os cidadãos acreditarem que "guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força"
Por Laura Beers, no The Conversation
Tradução: Maurício Búrigo
Durante uma coletiva de imprensa em 11 de dezembro de 2025, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, anunciou que havia boas notícias sobre a situação da economia.
“A inflação, como foi medida pelo IPC total, desacelerou para uma taxa média de crescimento de 2,5%“, disse ela, se referindo ao índice de preços ao consumidor. “O salário real está crescendo em torno de 1.200 dólares para o trabalhador médio.”
Quando a correspondente política da CNN, Kaitlan Collins, tentou fazer uma pergunta complementar, Leavitt partiu para o ataque. Não a Collins, um alvo frequente da ira da Casa Branca, mas à sua antecessora na Casa Branca durante o governo Joe Biden, a democrata Jen Psaki.
Todos os governos dos EUA mentem. Mas Leavitt tornou-se mestra na arte da linguagem política, empenhada em engrandecer seu patrão, menosprezar seus oponentes e desviar a atenção dos escândalos do governo
Psaki, alegou Leavitt, havia subido ao mesmo púlpito um ano antes e falado “mentiras deslavadas”. Ao contrário, Leavitt insistiu, “tudo que estou falando a vocês é a verdade sustentada por dados reais, factuais, e vocês só não querem noticiar isso porque querem propagar narrativas falsas a respeito do presidente”.
Os “dados reais, factuais” que corroboravam a declaração de Leavitt eram, para dizer o mínimo, capciosos. A taxa de inflação real de setembro foi de 3%, não a cifra de 2,5% escolhida a dedo dos dados econômicos. O aumento nos salários reais? O editor de negócios da CNN, David Goldman, escreveu que, no ano passado, os trabalhadores dos EUA experimentaram “o mais baixo crescimento anual no contracheque que os americanos tiveram desde maio de 2021“.
Sou uma historiadora que tem escrito sobre o legado duradouro das ideias de George Orwell acerca da verdade e liberdade. Ao ouvir Leavitt afirmar uma “verdade” obviamente tão discordante da vida das pessoas, eu me recordei dos repetidos pronunciamentos do Ministério da Fartura no 1984 de Orwell.
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“As estatísticas fabulosas continuavam a jorrar da teletela,” escreveu Orwell. “Comparadas com o ano passado, havia mais comida, mais roupas, mais casas, mais mobília, mais panelas, mais combustível, mais navios, mais helicópteros, mais livros, mais bebês –mais de tudo exceto doença, crime e insanidade. Ano a ano e minuto a minuto, tudo e todos estavam zunindo rapidamente para cima.”
O fatídico herói do romance, Winston Smith, trabalha no Departamento de Registros, que fabrica essas estatísticas fraudulentas –números que estão, de longe, tão desligados da realidade que eles “não tinham conexão alguma com qualquer coisa no mundo real, nem sequer o tipo de conexão que está implícita numa franca mentira”.
No mundo de 1984, as estatísticas não são apenas inventadas, elas são continuamente reinventadas para servir às necessidades do regime do Grande Irmão em qualquer momento específico: “Toda a história era um palimpsesto, raspado completamente e reinscrito com exatidão sempre que fosse necessário”.
A falta de transparência retratada em 1984 tem um eco sinistro no nosso período político atual, apesar das repetidas declarações de Leavitt de que o presidente Donald Trump é o “presidente mais transparente da história“. Leavitt fez tal alegação incontáveis vezes, inclusive na sua defesa pública da descompostura de Trump –“Fique quieta, porquinha!”– à jornalista da Bloomberg News, Catherine Lucey, mês passado.
Trump, a literal pig, at reporter on AF1: “quiet piggy” pic.twitter.com/ml4oLbWn2o
— The Lincoln Project (@ProjectLincoln) November 18, 2025
Na forma como Leavitt utiliza, “transparência” tornou-se uma forma de “duplifalar” orwelliano, uma palavra ou expressão que, através do processo de “duplipensar”, passara a incluir o exato sentido oposto.
“Duplipensar”, na escrita de Orwell, era o mecanismo de manipulação do pensamento que permitia a alguém “saber e não saber, estar consciente da completa veracidade enquanto contasse mentiras cuidadosamente fabricadas, manter simultaneamente duas opiniões que se anulassem, sabendo que eram contraditórias e acreditando em ambas”.
Duplipensar era o mecanismo que possibilitava aos cidadãos da Oceania, o superestado anglo-americano governado pelo regime autoritário do Grande Irmão, aceitar que “GUERRA É PAZ; LIBERDADE É ESCRAVIDÃO; IGNORÂNCIA É FORÇA”.
E é o mecanismo que permitiu a Leavitt proclamar, ao defender a má vontade de Trump em divulgar os arquivos de Epstein, que “este governo tem feito mais no que diz respeito à transparência quando se trata de Jeffrey Epstein do que qualquer outro governo jamais fez”. Essa alegação foi considerada “fabulosamente audaciosa” pelo diretor da sucursal do jornal britânico The Guardian em Washington, David Smith, numa história intitulada “Nada a se ver por aqui: chefe de imprensa de Trump em total modo de negação sobre Epstein.”
Em seu famoso ensaio Política e a Língua Inglesa, Orwell escreveu que “a linguagem política é projetada para fazer mentiras parecerem verdadeiras e o assassinato respeitável, e dar uma aparência de substância ao mero palavreado.”
Durante os últimos 10 meses, Leavitt alegou, entre outras coisas, que a USAID (Agência de Desenvolvimento Internacional), ora desmantelada, dera um subsídio de 32 mil dólares a uma “história em quadrinhos transgênero” no Peru. Não é verdade. Ela falseou o “One Big and Beautiful Bill” (“Um Grande e Belo Projeto de Lei”) como se eliminasse impostos em gorjetas, horas extras e Seguridade Social. Na realidade, as deduções para estas estão suplantadas. Ela alegou que Trump cunhou o mote “paz através da força”. Ele não cunhou. A expressão está em circulação há décadas, usada com maior destaque por Ronald Reagan durante sua presidência.
E recentemente ela procurou deslegitimar o apelo do senador Mark Kelly e de seus colegas aos soldados e soldadas para que não obedecessem a ordens ilegais, sugerindo de maneira tautológica que “todas as ordens lícitas são, supostamente, legais para nossos militares”, e daí que o apelo de Kelly só poderia servir para provocar “desordem e caos.”
Todos os governos dos EUA mentem. Mas Leavitt tornou-se mestra na arte da linguagem política, empenhada em engrandecer seu patrão, menosprezar seus oponentes e desviar a atenção dos escândalos do governo.
Laura Beers é professora de História na American University
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Flávio em 27/12/2025 - 20h32 comentou:
Impressionante como se utilizam destes expedientes com a maior cara lavada.
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