Socialista Morena
Direitos Humanos

E não sou eu um ser humano?

A desumanização do sujeito negro no Brasil, tratado como uma espécie de sub-cidadão para justificar sua mutilação física e social

Protesto contra a morte da menina Ágatha Felix e o genocídio negro há um ano em São Paulo. Foto: Pam Santos/Fotos Públicas
Richard Santos
07 de setembro de 2020, 13h11

Todos os anos os institutos de pesquisa públicos e privados lançam dados sobre a situação socioeconômica da população brasileira e após muita luta histórica de movimentos sociais, com os devidos recortes de gênero, raça e faixa etária. Ainda que pesquisador, também, das relações raciais no Brasil, sempre me causam espécie os dados relacionados a população negra. Há pouco vimos o Atlas da Violência 2020, e a situação de eliminação violenta dessa população exposta para quem ainda tivesse qualquer tipo de dúvidas.

Informam-nos os dados de violência que:

– 75% das vítimas de violência no Brasil são negras.

– Cresceu em 11,5% o número de homicídios de pessoas negras no Brasil em 11 anos.

– Caiu 13% o número de homicídios entre não negros no mesmo período.

– Especificamente no ano de 2018, 75,7% das vítimas de homicídio no Brasil eram negras.

– O risco de um homem negro ser assassinado é 74% maior do que o risco de assassinato entre brancos e para as mulheres negras a taxa é de 64,4%.

A intelectual estadunidense bell hooks escreveu no início da era Ronald Reagan o livro que me inspirou o título desse artigo. Os dados do Atlas da Violência nos colocam tão abaixo da linha do não ser que desconfio não sermos mesmo. Somos?

Esses dados mostram uma tremenda vulnerabilidade dessa Maioria Minorizada, e tem reflexos no bem estar, no modus vivendi dessa população e na constituição cognitiva, no acesso à educação e formação educacional para a emancipação. Violência e exclusão educacional andam de mãos dadas, e mais uma vez os dados confirmam essa hipótese de falta de atenção, desumanidade e sujeição às violências.

Dados do IBGE mostram que na Educação Infantil, 32% das crianças consideradas pardas de 0 a 3 anos estavam matriculadas em 2018, quase quatro pontos percentuais a mais que 2016 –porém, o percentual ainda está atrás do de crianças brancas (39%), mas é bem menor do que o verificado na outra ponta da trajetória escolar: entre os jovens, 53,9% dos declarados pretos e 57,8% dos pardos concluíram o Ensino Médio até os 19 anos em 2018. Já entre os brancos observa-se a taxa de 20 pontos percentuais a mais (74%) entre os que concluíram o ensino médio. Essa disparidade é reflexiva da desigualdade na aprendizagem que já se identifica nos primeiros anos do Ensino Fundamental.

A intelectual estadunidense bell hooks (ela usa minúsculas em seu nome) escreveu no ano de 1981, início da era Ronald Reagan, o livro que me inspirou o título desse artigo. Questionou ela: “E eu não sou uma mulher?”. Recentemente traduzido para o português, na onda das literaturas negras e autores estrangeiros(as) que nos assolam, é uma fonte de reflexão para compreendermos a situação negra no mundo globalizado neoliberal.

Ora, os dados nos colocam tão abaixo da linha do não ser (lembrando aqui Frantz Fanon) que desconfio não sermos mesmo. Somos?

Observando a sociedade construída sob o mito da democracia racial e da “ordem e progresso” positivista, conclui-se que essa população está verdadeiramente submergindo num caudaloso rio onde os botes de salvamento são guiados e condicionados pelo branco e sua branquitude

A desumanização do sujeito negro no Brasil, uma espécie de sub-cidadão, justifica sua mutilação física e social, o tratamento disciplinador e re-escravizante a que tem sido submetida essa população desde a formação do país. Observando a sociedade construída sob o mito da democracia racial e da “ordem e progresso” positivista, conclui-se que essa população está verdadeiramente submergindo num caudaloso rio onde os botes de salvamento são guiados e condicionados pelo branco e sua branquitude. Só assim para compreendermos dados tão estarrecedores e que continuam não efetivamente solucionados, sem desconstruir formas de gestão e modos de fazer que sendo respondidos como dentro de uma “normalidade administrativa”, que é a “normalidade” do desaparecimento dos seres humanos negros(as) no Brasil, nos imputam a percepção de não sermos mesmo parte da categoria de seres animais considerados humanos.

Richard Santos é doutor em Ciências Sociais pelo Departamento de Estudos Latino-Americanos da UNB, professor Adjunto da UFSB e líder do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, UFSB-CNPQ. Autor de Branquitude e Televisão. A Nova (?!) África na TV Pública, está lançando Maioria Minorizada – Um dispositivo analítico de racialidade.


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