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Cultura

Em quadrinhos, a luta dos negros contra o racismo desde a infância

Na semana em que se lembra a Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, dois gibis falam da histórica segregação aos afrodescendentes, aqui e nos EUA

Cena da HQ "A Infância do Brasil"
Piu Gomes
30 de março de 2022, 14h50

21 de março de 1960 foi uma data terrível para os habitantes de Joanesburgo, na África do Sul. No episódio conhecido como o Massacre de Sharpeville, a polícia do apartheid abriu fogo em direção a uma manifestação pacífica, matando 69 pessoas e ferindo outras 186. Em memória das vítimas, a ONU criou o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

No Brasil, pesquisa divulgada em 21 de março pelo Instituto Locomotiva mostra que 33% dos negros entrevistados já sofreram racismo no transporte público e que 69% dos entrevistados consideram o racismo comum no dia a dia

Na mesma data, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) promove o Dia Mundial da Infância, com o objetivo de promover a defesa dos direitos das crianças e a reflexão sobre as condições da infância em todo o mundo. Dois gibis, A Marcha – vol.3 e A Infância do Brasil, da Nemo, trazem histórias que ilustram a luta contra o preconceito e as dificuldades das crianças brasileiras para enfrentar o racismo que se coloca em seu caminho desde o nascimento.

John Lewis foi figura marcante na luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos desde o início do movimento. Nascido numa pequena fazenda do Alabama, coroou sua trajetória quando recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade das mãos de Barack Obama, em 2010. Lewis decidiu contar toda essa jornada para as futuras gerações em forma de quadrinhos, e convidou seu assessor Andrew Aydin para ajudá-lo no roteiro, e Nate Powell assumiu a arte. Detalhe: os dois são brancos, e essa parceria corroborou um dos princípios do ex-parlamentar, que a sociedade deve ser multirracial.

Cenas de “A Marcha” – volume 3

Em seu terceiro volume, A Marcha mostra Lewis como secretário-geral do SNCC (Comitê Coordenador Estudantil Não-Violento) e a nova frente em que se atira, a luta pela conquista do direito de voto para a população negra. Um dos episódios narrados resultou em filme de Alan Parker, Mississipi em Chamas. Como forma de pressão, os personagens decidem por outra marcha, das ruas de Selma até Montgomery, capital do Alabama, e enfrentam então o preconceito brutal do status quo branco.

A arte de Powell resume a tensão dos acontecimentos em um dramático P&B, com uma composição gráfica onde os quadros nunca são regulares e quase sempre balões ou até mesmo desenhos extrapolam o limite do requadro. Algumas ilustrações servem como cenário para a página, que por vezes trazem apenas uma ilustração, numa dinâmica interessante. O traço é rebuscado, usando hachuras e densidade na composição dos personagens. A obra foi premiada com o Eisner e é a única HQ a ganhar o National Book Award.

 

Em A Marcha, vemos um discurso de Rosa Parks, que em 1955, na mesma Montgomery, se recusou a ceder seu assento em um ônibus a um branco. No Brasil, pesquisa divulgada em 21 de março pelo Instituto Locomotiva atesta que 33% dos negros entrevistados já sofreram racismo no transporte público e que 69% dos entrevistados consideram o racismo comum no dia a dia. Mais uma estatística que comprova a desigualdade racial, como as taxas de desemprego, diferença salarial, acesso à educação e nível de pobreza. A mais assustadora retrata a violência: em 2019, negros ou pardos representaram 77% das vítimas de homicídios, segundo o IPEA. Entre os jovens de 15 a 29 anos, a taxa de homicídios chega a 98,5.

Se entre a juventude os números são alarmantes, A Infância do Brasil, de José Aguiar, amplia a discussão para mostrar que as violações se dão também com crianças, e de forma sistemática desde o Brasil Colonial. Em seis episódios que partem do sec. 16 e chegam ao 21, o autor mostra que os pequenos sempre tiveram obstáculos sociais enormes em seu caminho. Baseado em sólida pesquisa histórica, é uma denúncia contundente e comovente.

Cenas de “A Infância do Brasil”

O álbum estava esgotado e ganhou nova edição, com revisões nas artes, nova capa e mais material extra. Finalista do Prêmio Jabuti em 2018 e vencedor de dois prêmios literários e de um HQ Mix, Aguiar mostra uma paleta de cores vibrante, uma diagramação ora clássica, ora explosiva, e um traço que remete a Flávio Colin para contar histórias de abandono e opressão envolvendo os onipresentes Gabriel e Ana, que assumem diferentes papéis conforme a época. Cada episódio se encerra com um recorte atemporal que traz o tema abordado para os dias atuais. O último deles faz um esforço de síntese buscando convergência entre o cotidiano das crianças menos favorecidas e a nova visão que a sociedade tem do nascimento.

As estatísticas sobre crianças em situação de rua nunca tiveram muita atenção do Estado, mas uma última pesquisa da Prefeitura de São Paulo mostra que o número vem aumentando. Para José Aguiar, “existem racismo estrutural, choque de classes e abusos de diferentes formas que geram situações que precisam ser combatidas e superadas. Minha HQ aborda justamente o contraste entre infâncias presentes e passadas para levantar ao leitor a pergunta: o que mudou e o que permanece?” A resposta parece não ser boa: pouca mudança, e a perene luta por igualdade.


A Marcha – Vol.3
AUTORES: John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell
Editora Nemo, 256 págs., R$ 69,80


A Infância do Brasil
AUTOR: José Aguiar
Editora Nemo, 128 págs., R$ 69,80

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(2) comentários Escrever comentário

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André Luiz Martins em 06/04/2022 - 12h24 comentou:

Nem tudo está perdido, meus parabéns também pelo texto.

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Carlos Eduardo Spadin em 10/04/2022 - 16h06 comentou:

Também registo aqui meus parabéns pelo texto.

Racismo se combate com inteligência, visão crítica e pensamento independente.

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