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Entrevistas históricas: Bill Grundy entrevista os Sex Pistols

Uma entrevista pode ser longa e tediosa. E uma entrevista pode ser curtíssima e absolutamente explosiva mesmo que, a rigor, os entrevistados não digam nada. Em menos de três minutos, em dezembro de 1976, os Sex Pistols incendiaram a tela da TV inglesa, fazendo corar a tradicional família britânica com quatro palavrões pronunciados às 6 […]

Cynara Menezes
11 de fevereiro de 2013, 12h00

Uma entrevista pode ser longa e tediosa. E uma entrevista pode ser curtíssima e absolutamente explosiva mesmo que, a rigor, os entrevistados não digam nada. Em menos de três minutos, em dezembro de 1976, os Sex Pistols incendiaram a tela da TV inglesa, fazendo corar a tradicional família britânica com quatro palavrões pronunciados às 6 da tarde, ao vivo. O apresentador, Bill Grundy, provocou os garotos e conseguiu sua entrevista mais famosa, mas foi suspenso por duas semanas e teve a carreira destruída a partir daí. Coisas da época. Se fosse hoje, com certeza Grundy seria promovido. A entrevista é hilária.

“Até dezembro de 1976, muito poucas pessoas tinham ouvido falar de punk”, diz o escritor Nick Hornby em um artigo no site do Guardian sobre o imbróglio. “Na manhã seguinte, no entanto, o punk se tornou um fenômeno nacional e causou um hilário pânico moral.” Segundo Hornby, os britânicos se escandalizaram com o fato de Grundy se declarar bêbado ao começar a entrevista e com a boca suja dos rapazes. “Antes da entrevista, os telespectadores só tinham ouvido a palavra ‘fuck’ duas vezes em 11 anos, mas uma vez que (Glen) Matlock quebrou o gelo, ela surgiria novamente duas vezes nos próximos três minutos, ambas vindas de seu colega Steve Jones. (O anticristo Johnny Rotten só conseguiu um tímido ‘shit’ ou dois, e pareceu envergonhado de fazer isso).”

Enquanto o pobre Grundy aguentava a suspensão e as críticas dos conservadores britânicos, os tablóides fizeram a festa. O Daily Mirror saiu com a hoje famosa manchete The Filth and The Fury!, que se tornaria o título do ótimo documentário de Julien Temple sobre os Pistols –no Brasil traduzido como O Lixo e a Fúria (2000). Um ano depois da entrevista, os Sex Pistols gravariam seu único álbum, Never Mind The Bollocks, Here is the Sex Pistols, e entrariam para a história do rock. Bem, Bill Grundy também.

Veja a versão integral da entrevista, em vídeo, e, abaixo, uma tradução, embora não me pareça necessária… Se você quiser ler a transcrição original em inglês, clique aqui.

Bill Grundy: Eles são punk rockers. A nova febre, eles me dizem. Seus heróis? Não os bacanas, tranquilos Rolling Stones… Veja que eles estão tão bêbados quanto eu. (Os Rolling Stones) são sóbrios em comparação. Eles são um grupo chamado Sex Pistols e eu estou cercado por todos eles…

Steve Jones: (Lendo o teleprompter)…em ação!

Grundy: Vamos ver os Sex Pistols em ação. Vamos, garotos…

(Filme dos Sex Pistols se apresentando é exibido.)

Grundy: Me disseram que o grupo recebeu 40 mil libras de uma gravadora. Isso não é bastante oposto à sua visão anti-materialista da vida?

Glen Matlock: Não, quanto mais melhor.

Grundy: Sério?

Matlock: Oh yeah.

Grundy: Bem, conte-me mais.

Jones: Nós já gastamos essa porra, não gastamos?

Grundy: Não sei, gastaram?

Matlock: Sim, acabou tudo.

Grundy: Sério?

Jones: Lá no boteco.

Grundy: Sério? Bom Deus! Agora eu quero saber uma coisa…

Matlock: O quê?

Grundy: Vocês estão falando sério ou estão apenas tentando… me fazer rir?

Matlock: Não, acabou. Já era.

Grundy: Sério?

Matlock: Yeah.

Grundy: Não, o que eu quero dizer é sobre o que vocês estão fazendo.

Matlock: Oh yeah.

Grundy: É sério?

Matlock: Mmm.

Grundy: Beethoven, Mozart, Bach e Brahms, todos morreram…

Johnny Rotten: Eles são todos nossos heróis, não são?

Grundy: Realmente… O quê? O que está dizendo, senhor?

Rotten: Eles são pessoas maravilhosas.

Grundy: São?

Rotten: Oh yes! Eles realmente nos excitam.

Jones: Mas eles estão mortos!

Grundy: Bem, suponho que eles excitem outras pessoas?

Rotten: (murmurando) É só essa merda deles.

Grundy: O quê?

Rotten: Nada. Um palavrão. Próxima pergunta.

Grundy: Não, não, qual foi o palavrão?

Rotten: Merda.

Grundy: Foi isso mesmo? Deus do Céu, você me mata de susto.

Rotten: Ah, tá bom, Siegfried …

Grundy: (Virando-se para as pessoas detrás da banda) E vocês, garotas aí atrás?

Matlock: Ele é como seu pai, não é, esse velhote?

Grundy: Você está…

Matlock: Ou seu avô.

Grundy: (Para Siouxsie Sioux) Você está chateada ou está só curtindo?

Sioux: Só curtindo.

Grundy: É mesmo?

Sioux: Yeah.

Grundy: Ah, é o que eu pensei que você estava fazendo.

Sioux: Eu sempre quis conhecer você.

Grundy: Queria mesmo?

Sioux: Yeah.

Grundy: Nós podemos nos encontrar depois, que tal? (Sioux faz uma careta)

Jones: Seu velho safado! Seu velho sujo!

Grundy: Tranquilo, chefe, tranquilo. Vamos lá, você tem outros cinco segundos. Diga algo ofensivo.

Jones: Seu escroto sujo!

Grundy: Vamos lá, de novo.

Jones: Seu sujo fodido! (Gargalhadas do grupo)

Grundy: Que garoto esperto!

Jones: Seu podre, fodido.

Grundy: Bom, é tudo por hoje. O outro roqueiro, Eamonn –e eu não estou dizendo nada mais sobre ele–, e nós voltaremos amanhã. Nos veremos logo, espero (para o público). Não vou vê-los novamente (para a banda). De minha parte, apesar de tudo, boa noite.

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Roberto Murai em 19/03/2013 - 22h33 comentou:

Engraçado como esses caras eram ousados. No país mais "corretinho" que existiu, eles chegam e falam mal de quem eles quiserem, fazem o que querem não tão nem aí pra nada, e isso tudo em 1976. Muito oposto ao rock politizado do Clash, isso sim é punk! Isso sim é adolescente!

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