Socialista Morena
Politik

GraVIDAde, uma metáfora espacial

***ATENÇÃO: este texto contém SPOILERS, ou seja, eu conto o final. Se você ainda não viu, deixe para ler depois*** Tecnologia cafona por natureza, o 3D afinal justifica seu retorno às telas de cinema graças ao filme Gravidade, do diretor mexicano Alfonso Cuarón. Se Gravidade poderia ser visto sem 3D? Sim, mas perderia muito de […]

Cynara Menezes
15 de outubro de 2013, 14h57

***ATENÇÃO: este texto contém SPOILERS, ou seja, eu conto o final. Se você ainda não viu, deixe para ler depois***

Tecnologia cafona por natureza, o 3D afinal justifica seu retorno às telas de cinema graças ao filme Gravidade, do diretor mexicano Alfonso Cuarón. Se Gravidade poderia ser visto sem 3D? Sim, mas perderia muito de seu impacto e beleza. Em 3D, é como se estivéssemos também ali, flutuando na órbita da Terra. Uma sensação maravilhosa, emocionante, literalmente de perder o fôlego.

Mas Gravidade não é apenas um filme de ficção científica. É uma metáfora sobre o nascimento e o renascimento. Sobre a importância de estar vivo e amar a vida, em que pesem as dificuldades e as dores durante a trajetória. A protagonista Sandra Bullock nasce e renasce várias vezes na trama. Se eu fosse resumir o filme, diria que se trata de uma sequência de partos. Partos em série. George Clooney é o pai/mãe da história.

O primeiro parto que aparece em cena é um parto prematuro, antes da hora. A especialista Ryan Stone (Bullock) inadvertidamente corta o cordão umbilical, se desprende da estação e se vê de repente solta no espaço sem fim. É preciso reaprender a respirar, qual um recém-nascido, e encontrar a serenidade necessária para encarar o mundo que está ali, gigante e desafiador.

Logo será necessário cortar o cordão mais uma vez e se libertar do pai/mãe Matt Kowalski (Clooney), desta vez conscientemente, para poder sobreviver. Dizer adeus à segurança, ao conforto da proteção paterna/materna e seguir caminho sozinho. A vontade que se sente é de retornar ao útero, e é o que faz Ryan, mas a tranquilidade dura pouco. Não é possível continuar lá dentro, é preciso nascer –mas sobretudo querer nascer.

No meio do suspense, nos pegamos pensando: que loucos estes astronautas! Como têm a coragem de transformar a vida num desafio maluco destes, ficar pendurado lá em cima consertando estações espaciais no meio do nada? Ao mesmo tempo, o filme nos faz perguntar: será que a vida aqui embaixo também não é uma aventura e tanto? É desafiador estar longe de tudo, mas também é desafiador estar perto o suficiente para enfrentar as tristezas da vida sem querer fugir. Ou não é?

Por pouco, muito pouco, Ryan não se entrega ao calor do útero e morre antes de nascer. Quase natimorta, encontra nas palavras carinhosas do pai/mãe do lado de fora o incentivo para prosseguir rumo à luz no fim do túnel. “Força, Ryan!”, o pai/mãe diz a ela, em pleno trabalho de parto. A passagem final é cheia de turbulências, mas é preciso deixar a cápsula quentinha, passar pelo líquido para chegar à superfície.

Então, exausta, se arrastar pelo chão, andar de quatro e, depois, finalmente de pé. A vida toda está ali em GraVIDAde.

Belo filme.


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
(17) comentários Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

AlefTrysten em 15/10/2013 - 15h21 comentou:

Muito bom!

Responder

luka em 15/10/2013 - 16h18 comentou:

É um ponto de vista interessante. Não me cativou tanto, apesar da qualidade técnica impressionante, a correlação com a vida fica distanciada justamente pelo fato de ocorrer no espaço. Me deu certo desanimo o fato de os efeitos tomarem conta da história. O protagonista são os efeitos especiais, mesmo com a Bullok muito bem e linda. Que corpo maravilhoso, por sinal.

Responder

Fábio de O. Ribeiro em 15/10/2013 - 17h27 comentou:

Nos últimos dias a mídia está incensando demais o filme Gravidade. Fiquei curioso e fui ver em 3D para poder compartilhar aqui as impressões que tive.

Esqueçam tudo o que as pseudo-críticas tem dito sobre este "american movie". "Gravidade" não é uma metáfora do renascimento, nem tampouco uma celebração ao instinto de sobrevivência feminino. Tampouco é uma singela ficção científica sem qualquer compromisso com a realidade.

Os russos destroem um satélite (que pode muito bem ser entendido como a Síria, onde a resistência russa impede a predominância dos EUA), provocando uma reação em cadeia que destrói parcialmente o veículo espacial gringo (território dos EUA ou parte dele), o que restou da estação espacial internacional (uma evidente metáfora para ONU) e leva consigo até mesmo a estação orbital chinesa (uma guerra provocaria o colapso econômico da China levando à sua fragmentação política em razão dos previsíveis conflitos internos). Ao final somente uma mulher branca norte-americana sobrevive.

Os Estados, nações, pátrias sempre foram chamados de "Mães" pelos seus soldados. Portanto, a personagem sobrevivente representa o renascimento dos EUA após o conflito planetário. E neste renascimento o país estaria sozinho num paraíso exatamente como a personagem. É disto que o filme trata.

Na verdade "Gravidade" tem um conteúdo político bastante definido. Trata-se de um vetor do "americanismo" (que já foi chamado de "o nazismo dos norte-americanos"). É uma peça de ideologia em estado bruto concebida para emocionar os espectadores e predispô-los em favor da sobrevivência de uma única "Mãe" de todos os povos: o Estado norte-americano. "Gravidade" anuncia e realiza o projeto imperial dos EUA mediante uma colossal guerra planetária. Algo que já foi prevista no livro "Os próximos 100 anos", livro que eu mesmo resenhei para o público brasileiro: https://www.midiaindependente.org/pt/red/2010/03/

O problema das previsões artísticas, ideológicas e históricas é que elas tendem sempre a ser auto-indulgentes. A História, meus caros, raramente segue os caminhos traçados e desejados pelos futurólogos. Ela segue seu próprio curso. Se os gringos iniciarem uma guerra mundial, o resultado dela pode ser não o renascimento dos EUA como império único e planetário e sim a completa destruição do território norte-americano.

Responder

    Marcos Daniel em 15/10/2013 - 19h12 comentou:

    Ponto de vista bem paranoico esse seu. Mas cada um tem o direito de fazer a viagem que quiser.

    Suellen em 15/10/2013 - 20h33 comentou:

    Também achei seu entendimento bem paranoico. Deve-se levar em consideração que o diretor é mexicano, está tentando produzir o filme há mais de 5 anos, e ele mesmo deu declarações de que se trata de uma metáfora do renascimento, nos termos do texto. Mas é como disseram, cada um interpreta como quiser 😀

    Carlos em 15/10/2013 - 21h33 comentou:

    Também achei paranoico, mas respeitando sua opinião. Acho que o diretor quis sim fazer essa referência ao renascimento. O que, aliás, não vejo outra interpretação. Filme belíssimo.

    Mth em 16/10/2013 - 02h33 comentou:

    Rapaz usando a mesma estrutura do seu fantástico pensamento eu posso dizer que a astronauto é o Lula e que o satélite destruído é o sentimento do Lula despois de deixar o poder. Abandonado, no intimo da solidao do poder, Lula ve como última forma de manter a vontade incontrolável de seguir no comando é se aferrar a estacao china representada pela Dilma. Mas ela nao consegue manter o mesmo nivel de governo do Lula e se faz pedacos tambem. Ahí o Lula para salvar o Brasil tem que abandonar a estacao china (Dilma) e se candidatar outra vez. O final voce ja sabe, renace Lula de novo do meio da agua (o povo). Ja ve que tambem meu neuronio solitario serve para escrever bobagens?

    Thiago Fraga em 16/10/2013 - 12h09 comentou:

    Esse cara foi mais longe que os protagonistas do filme. Todo mundo tem um tio cheio das teorias da conspiração, né?

puelocesar em 15/10/2013 - 17h39 comentou:

Eu achei a sonoplastia do filme fantástica. Em tempos de uma cultura tão barulhenta, um filme que tenta respeitar o silêncio do espaço é realmente muito bem vindo.

Responder

Marcos Daniel em 15/10/2013 - 19h14 comentou:

Achei o filme deslumbrante. Não tinha ainda estabelecido essas relações que vc apontou. Provavelmente irei assistir novamente no próximo fim de semana. Achei o melhor filme de ficção de 2013.

Responder

P. Quixote em 15/10/2013 - 20h25 comentou:

Esse texto ficou meio tosco.

Responder

    Carlos em 15/10/2013 - 21h34 comentou:

    Defina o que é "tosco", por favor.

Parlo em 15/10/2013 - 21h47 comentou:

Para mim "PODERIA" de fato ser um excelente filme, não fosse a, pra variar, arrogância estúpida e gratuita, desnecessária mesmo, de um ponto no roteiro que teima em vir a tona durante todo o filme. Em resumo: ,,nós, o extraordinário povo norte-americano, temos que conviver neste mundo com um resto de humanidade estupida e por isso pagamos com a vida. Os russos estúpidos resolveram desativar um satélite abatendo-o com um míssil, e fazem uma cagada tão grande que simplesmente arrebentam com tudo que orbita o planeta. Pra piorar, quando a ´heroína´, tentando salvar alguma coisa dessa lambança toda, finalmente consegue falar com alguém pelo rádio, infelizmente é alguém falando em chinês feito um "retardado",,
Vamos esquecer que na verdade quem já explodiu duas space shuttles não foram os russos, nem os chineses,,,
Bastava supor que um meteorito, por um infortúnio tivesse atingido algum artefato em orbita, simples assim,,, e não precisava colocar qualquer civilização ou tecnologia que não se expresse em inglês, como coisa de retardado,,,

Responder

    Do Cinema em 16/10/2013 - 08h10 comentou:

    Gostei mais desse comentário.

    Antunes em 29/10/2013 - 16h24 comentou:

    Seguindo essa linha, vamos filosofar o final:
    E no fim a americana perdida, por causa da incompetência da Rússia e dos EUA, vai ser salva pela estação dos chineses, que agora são a nova potência e tem de conviver com todas essas nações insignificantes, que só exploram a China até a última gota para tentar fugir de sua mediocridade. Maldito filme chinês, e maldita prepotência chinesa.
    Enfim, belíssimo filme, e só vendo pelo em casca de ovo para achar o contrário!

Manu Sales em 16/10/2013 - 00h18 comentou:

Adorei sua análise,vi muitos pontos em comum com a minha,com a diferença que você escreve bem melhor do que eu hahaha
aqui o meu pitaco sobre o filme caso você ou alguém queiram ler,adoro seus textos :http://moncinemamour.blogspot.com.br/2013/10/take-your-protein-pills-and-put-your.html
abraço

Responder

Ricardo G. Ramos em 16/10/2013 - 16h02 comentou:

Much Ado About Nothing. Esse Espantalho Espacial só com gererê du bom.

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Cultura

Zoroastrismo, a religião ancestral de Freddie Mercury


O líder do Queen tinha origem indiana, se chamava Farrokh Bulsara, e professava uma das religiões mais antigas do mundo

Politik

Pare tudo e assista à entrevista de Putin a Oliver Stone no Nocaute


Ninguém chegou tão perto do russo mais importante do mundo com um microfone numa mão e uma câmera na outra