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Incapaz de agir como estadista, Bolsonaro se portou no JN como se falasse no “cercadinho”

"Ufa, pelo menos ele não surtou": entrevista foi tão pífia que os bolsonaristas se contentaram que o presidente não tenha partido para a agressão

Bolsonaro no Jornal Nacional. Foto: reprodução
Cynara Menezes
23 de agosto de 2022, 17h22

No auge das carreiras como apresentadores do principal telejornal da Globo, William Bonner e Renata Vasconcellos tiveram nesta segunda-feira, 22 de agosto, seu dia de “setoristas” do Palácio da Alvorada. Os setoristas são os jornalistas que ficam na porta do palácio onde reside o presidente esperando por declarações na entrada e na saída –ou ficavam, já que, desde maio de 2020, para proteger seus profissionais do assédio dos seguidores e do próprio Bolsonaro, a Globo, a Folha e a Band tiraram os jornalistas dali, algo inédito desde o fim da ditadura.

Na bancada do Jornal Nacional, o presidente se portou com Bonner e Renata como costumava se portar com os jornalistas e como continua a se portar com a claque que o acompanha no “cercadinho”: só respondeu o que lhe interessava e mentiu o quanto pôde (uma vez a cada 3 minutos, segundo o Estadão). Foi ao JN exatamente como vai ao “cercadinho”, pronto a sacar da manga suas fake news e números mirabolantes para fazer parecer aos incautos que governa o país. Conseguiu o que queria, manter o “cercadinho” engajado. Mas em nenhum instante transmitiu a ideia de que é um estadista capaz de falar para além de sua bolha e conquistar eleitores não fanáticos como os que já tem.

Bolsonaro foi ao JN como vai ao “cercadinho”, pronto a sacar suas fake news para fazer parecer aos incautos que governa o país. Em nenhum instante convenceu que é um estadista capaz de furar a bolha e conquistar eleitores não fanáticos como os que já tem

A necessidade de aparentar “isenção” atrapalhou os entrevistadores, que se mostraram incapazes de rebater ao vivo as falácias de Bolsonaro, ainda que tenham feito boas perguntas. Por que Bonner deixou passar a fake news do presidente de que em Nova York “a contaminação foi maior dentro de casa do que fora de casa” se foi comprovado que essa é uma informação enviesada, enganosa? Por que Renata não contestou as “indicações técnicas” de Bolsonaro, quando apenas três partidos do centrão controlam 150 bilhões em verbas do governo e indicaram 32 cargos em postos-chave da administração federal?

Em determinado momento, o presidente elogiou o “padrão” de cinco ex-ministros propositalmente, para favorecê-los, porque todos eles são candidatos na eleição, e nenhum dos dois entrevistad0res foi capaz de rebatê-lo. O que Marcos Pontes fez na Ciência e Tecnologia para ser considerado “padrão”? Tanto não fez nada que foi inclusive chamado de “burro” pelo colega Paulo Guedes. O que fez Gilson Machado para ser considerado “padrão” além de tocar sanfona nas lives presidenciais? O que fez Onyx Lorenzoni? Mudar de ministério quatro vezes?

Eu já comentei no site que acho ruim a postura que a bancada do Jornal Nacional sempre adota em relação aos candidatos à presidência. Se mostrar antagonista do entrevistado não é condição sine qua non para obter uma boa entrevista; favorece, isso sim, o bate boca. O fato de, este ano, as entrevistas terem sido ampliadas de 30 para 40 minutos foi um avanço –ideal que tivessem 60. Mas continuam inúteis para o eleitor no sentido de mostrar os projetos dos candidatos para o país. Bolsonaro, por exemplo, não disse nada a respeito do que fará se for reeleito.

A necessidade de aparentar “isenção” atrapalhou os entrevistadores, incapazes de rebater ao vivo as falácias de Bolsonaro. Para nossa sorte, o presidente não se saiu bem. No máximo, conseguiu se comunicar com o “cercadinho”. Mas isso ele já faz todo dia

As risadas de William Bonner estavam fora de lugar e favorecem o discurso bolsonarista de que a Globo “persegue” o presidente –chamado o tempo inteiro de “candidato”, o que soa no mínimo inapropriado. Presidente é presidente, não importa que seja candidato. Nos EUA, que o jornalismo televisivo brasileiro adora imitar, o presidente no cargo que se lança à reeleição é tratado como “mr. president” nas entrevistas. Eles também são ouvidos na Casa Branca, como o Jornal Nacional fez até 2014, quando alega ter havido uma decisão interna de modificar a prática, trazendo todos os postulantes à presidência aos estúdios da emissora. Bolsonaro em princípio se negou, mas voltou atrás e compareceu à entrevista.

Com tudo isso, e para nossa sorte, o presidente não se saiu bem. A pior parte para ele foi a tentativa de desmentir o óbvio: imitou as pessoas sentindo falta de ar na pandemia, uma cena considerada a mais repulsiva de todas as cenas repulsivas de um presidente repulsivo. Pena que os apresentadores mais uma vez falharam em contrapor a fala de Bolsonaro de que não havia vídeo, o que só aconteceria depois, no Jornal da Globo, e nas redes sociais.

Mas o presidente acusou o golpe e foi ao twitter na mesma noite tentar justificar o injustificável, e com tanta pressa que até cometeu um erro de digitação (“sumilei” por simulei).

A entrevista foi tão pífia que o comando de sua campanha e os bolsominions nas redes se contentaram com o fato de Bolsonaro não ter partido para a agressão. “Ufa, pelo menos ele não surtou”, parece ter sido o pensamento de seu entorno aliviado. É muito, muito pouco para quem pretende construir uma imagem de estadista para confrontar Lula. O discurso final, com Bolsonaro olhando para os entrevistadores e não para a tela, tampouco contribuiu para que os que não o enxergam como um presidente com capacidade para governar uma nação como a nossa passassem a vê-lo com melhores olhos.

No máximo, Bolsonaro conseguiu se comunicar com o “cercadinho”. Mas isso ele já faz todo dia.

 

 


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