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Direitos Humanos

Letícia Parks: “Parece que a Djamila se atribuiu o direito de decidir quem é negro”

Chamada de "clarinha de turbante" por filósofa, militante marxista negra lançou um abaixo-assinado pedindo direito de resposta ao Roda Viva

Foto: divulgação
Letícia Parks
10 de novembro de 2020, 19h44

Sou negra, antirracista, marxista e revolucionária, e quero meu direito de resposta frente aos insultos de Djamila Ribeiro.

Há alguns meses fiz um vídeo com uma crítica política à Djamila, que se referia ao fato de ela ter feito um vídeo de publicidade para a empresa 99, e ainda por cima em meio aos protestos dos entregadores de aplicativos que lutavam contra as absurdas condições de trabalho e o pagamento de fome que recebiam em suas jornadas extenuantes. Trabalhadores que são em grande parte negros, e sofrem duplamente com a exploração capitalista e a opressão racista, e mais ainda nesse governo reacionário de Bolsonaro, Mourão e com apoio de todos os golpistas.

Eu coloquei este debate porque entendo que o racismo é uma opressão secular criada pelo capitalismo para poder aprofundar sua exploração, e que é usado sistematicamente para este fim, relegando os negros –e principalmente as mulheres negras– aos empregos mais precários e com menores salários. E Djamila, ao colocar o prestígio de sua figura para a publicidade de uma empresa, se mostra conivente com a tentativa desses capitalistas de ocultar o seu racismo sob uma fachada de “propaganda inclusiva”.  Se trata de um debate sobre que tipo de antirracismo é necessário construir, e o meu é ao lado dos trabalhadores e em combate ao capitalismo. Um debate político.

Djamila reiteradamente desmerece minha militância como mulher negra e coloca em dúvida inclusive minha identidade racial, se atribuindo o direito de definir quem é negra e quem não é, quem sofre racismo ou não

Contudo, a resposta que Djamila deu foi a de me insultar pessoalmente por quase meia hora em uma live com Marcelo Freixo, dizendo absurdos como que eu seria uma “clarinha de turbante” que é manipulada por uma “branquitude racista”. Assim, Djamila não apenas quis dizer que eu não sou negra “de verdade”, desmerecendo minha identidade e minha luta contra o racismo, como afirmou que não sou capaz de pensar com minha própria cabeça, e que minhas ideias são “manipulações” de “brancos racistas” que me utilizam para atacar pessoas negras como ela. Distorce completamente o debate, me insultando para não responder ao meu questionamento a uma mulher negra que coloca seu prestígio a serviço de encobrir o racismo de uma empresa capitalista bilionária. Inclusive, quando ela e sua família sofreram ameaças físicas eu me solidarizei, porque rechaço qualquer tipo de ameaça, meu debate é político.

Agora, em rede nacional, e com o apoio de Vera Magalhães e do Roda Viva, Djamila Ribeiro volta aos ataques contra mim: não apenas reafirmou o uso do termo “clarinha de turbante”, mas acrescentou outros termos absurdos e historicamente utilizados de forma racista contra o povo negro e sua identidade. Distorcendo Lélia Gonzalez, me atribuiu os rótulos de “moreninha”, “mulatinha”, e ainda novamente que seria “usada” por uma “branquitude racista” para “atacar pessoas pretas que estão fazendo seu trabalho honestamente”. Até o direito ao meu nome foi tolhido no referido programa. Me atribuindo todas essas formas de epítetos inaceitáveis para a história racista de nosso país.

O que Djamila faz reiteradamente é desmerecer minha militância como mulher negra, marxista e revolucionária, e colocar em dúvida inclusive minha identidade racial, se atribuindo o direito de definir quem é negra e quem não é, quem sofre racismo ou não. Diferente do que ela diz, sei muito bem do racismo que eu e o povo negro sofremos a vida inteira, e a questão que a incomoda verdadeiramente é que não me coloco numa perspectiva antirracista liberal como ela, em que se defende que os negros devem buscar individualmente espaços de poder e projeção e que isso resolveria o problema do racismo. Defendo um antirracismo revolucionário e marxista, que compreende a profunda inter-relação entre capitalismo e racismo, e luta não pelas possibilidades individuais de um negro que ascenda, mas pela emancipação de todos os negros da opressão e da exploração, lutando lado a lado com os trabalhadores brancos. Por isto me coloco ao lado dos entregadores de aplicativos e contra as empresas que os exploram, e por isto questiono politicamente – e não com ataques pessoais – uma figura pública negra que se coloque ao lado desta empresa.

Djamila teve espaço em rede nacional de televisão para me insultar, me desacreditar, colocar minha identidade e minha militância em questão. Eu apenas reivindico o direito de ter o mesmo espaço para poder me defender, lutar pelas minhas ideias e refutar os insultos sofridos. Quero ter minha voz ouvida, como Djamila teve a dela para me insultar. Por isto lancei um abaixo-assinado exigindo o direito de resposta no Roda Viva, onde Djamila teve seu espaço para promover abertamente seus insultos contra mim. Não vou abaixar a cabeça, junto com todos os negros que tiveram seu direito a identidade negada, sempre ao lado da classe trabalhadora, seguirei lutando pelas minhas convicções e ideais.


(22) comentários Escrever comentário

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Ana S em 10/11/2020 - 21h32 comentou:

Obrigada por dar espaço ao debate, Socialista Morena. Em qual minuto do vídeo do Roda Viva aparece o “clarinha de turbante”? Procurei (sem assistir tudo), mas não encontrei.

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Ana S em 10/11/2020 - 22h11 comentou:

Acabei de encontrar. Está mais ou menos em 1:09:00 na gravação completa que está no Youtube.
Só para deixar minha opinião. Se eu fosse a Djamila, teria elegantemente me desculpado e procurado me envolver com empresas um pouco melhores. Entendo que a associação com o capitalismo predatório é inevitável. Letícia, por exemplo, usa Instagram do Facebook (um dos conglomerados mais nocivos que temos hoje) para postar críticas à Djamila por se associar a uma empresa péssima. A diferença está justamente na promoção. Djamila for convidada para promover a empresa diretamente. Para pessoas que, como eu, e provavelmente como a Letícia, não bebem nem Coca-Cola para não dar lucro a empresas predatórias, isso é inaceitável. Uma vez mais: não dá para dizer não a certas coisas, mas Coca-Cola é desnecessária e, dependendo da situação, dá para passar um projeto ou outro de vez em quando. De qualquer maneira, são pessoas em mundos diferentes que, provavelmente, nunca vão entrar num acordo. E na história do movimento negro brasileiro existiram vários casos assim. Um exemplo é Lino Guedes, que acreditava no melhoramento moral do negro, e Solano Trindade, que via o sistema como problema principal.
Minha decepção maior foi a invisibilização da Letícia, não dizer o nome e chamar de moreninha e clarinha é realmente reproduzir discursos racistas. Assim como dizer que ela precisa ler mais e que não tem consciência racial é ofensivo. E é complicado ter uma acadêmica anti-racista reproduzindo discurso racista sem fazer uma auto-crítica e sem aceitar críticas. E sim, negrxs não são donxs da verdade e estão sujeitxs a erros e críticas. E é claro que negrxs criticam mais outrxs negrxs. Isso acontece porque estamos sempre mais preocupadxs com xs nossxs. Letícia, adoraria te ouvir falar no Roda Viva. No entanto, sem querer desmerecer a parte útil do trabalho da Djamila, ela não merece seu tempo e energia.

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marcos em 10/11/2020 - 22h14 comentou:

Letícia, seu discurso é de uma pessoa consciente, crítica e corajosa.
Sei que você não vai abaixar a cabeça, mesmo que estivesse sozinha na luta. Mas tenho certeza que os valorosos entregadores e todos os que não caíram no conto do vigário identitário-liberal estão e permanecerão ao seu lado.

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Thiago Luiz Fernando de Oliveira em 10/11/2020 - 22h14 comentou:

Concordo contigo Letícia ninguém pode atribuir o direito de dizer quem é negro. A Djamila foi arrogante.

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CLEUDINEIA ELIAS DA SILVA PEDROSA em 11/11/2020 - 08h18 comentou:

Minha filha, tanta coisa pra você bater, lutar e se ocupar pelas causas negras, vai justamente querer questionar uma outra mulher negra? Assim, fica difícil né

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Benedito Luiz Amauro em 11/11/2020 - 09h43 comentou:

Pois é….sempre acreditei que este tal de colorismo é a maior prova do quanto o colonizador influi nas nossas percepções da realidade…agora com o colorismo vejo com clareza quase insuportável astucia do colonizador!!!!!Apenas um estrategista cuja analise de conjuntura seria capaz de agir de maneira tão estratégica quanto a dominação dos povos conquistados .ou melhor subjugados isto é o que se deu com os povos do planeta…nos dividir é a unica maneira de sermos dominados!!!Pois eles sabem contar até dez coisa que parece não aprendemos pois em cada dez humanos oito são coloridos ou mais se contarmos nossos neto e bisnetos até quando fazer o papel de guarda pretoriana dos assassinos até quando sera a primeira linha de defesa estabelecida entre nós….que estratégia maravilhosa a gente cria as próprias dificuldades tirando deles a necessidade de coibir-nos no primeiro momento…..mas esta é uma velha tática do patriarcado utilizada em escala…outro papo para outra hora M. LUMUMBA

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Bernardo Santos Melo em 11/11/2020 - 10h23 comentou:

Gooooolaço Socialista Morena ! Letícia 10 !
Semana da VIRADA … Aperte 50 e grite Fooooora Familícia FASCISTA & MILICANA !
50 50- Erundina e Boulos – 50-50 .Unidade!

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Neusa Campos januario em 11/11/2020 - 14h49 comentou:

Vaidade

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Bernardino Furtado em 11/11/2020 - 19h58 comentou:

A Djamila é isso: quer ter monopólio do discurso do feminismo preto para poder brilhar mais

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Cristina Silveira em 11/11/2020 - 22h28 comentou:

Uai, a Djanila está profundamente incomodada com a sua luminosa presença…. enquanto ela estiver focada em você a vida dela deixa de girar, enquanto você saí por aí, leve e bela com de turbante
Beijoca querida

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Renato em 12/11/2020 - 01h36 comentou:

Concordo, foi de uma arrogância enorme. Que ideia faz djamila se sentir dona ou juíza do movimento.
Direito de Resposta SIM

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Bernardo Santos Melo em 12/11/2020 - 03h23 comentou:

Narrativas covardes , tacanhas e FASCISTÓIDES ladeiam o poder TCHUCADO , um real saque ao Estado com privatizações DESCABIDAS e a destruição da Constituição Cidadã de 1988 , vivemos em marcha decadente rumo ao CAOS social , VEJAM o AMAPÁ APAGADO .
Maricas , Pólvora , Milícias até tráfico em Boeing da FAB já ocorreu neste desgoverno BOZAL ,RACHADEIRO e TRUMPEIRO .
Neste Cenário Caótico surge em SAMPA um fenômeno de dupla significação:JUNVENTUDE & EXPERIÊNCIA, consubstanciado em BOULOS & ERUNDINA.
Sem UNIDADE e VOTO ÚTIL corremos o RISCO de não haver nem segundo turno em SÃO PAULO , sejamos menos partidários e mais objetivos, o inimigo é BOZAL , apertem 50 e vamos lutar pela VIRADA da ESPERANÇA paulistana .

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Hassim Ahmad em 12/11/2020 - 11h05 comentou:

Nada mais justo! Tem que ter espaço pra resposta sim.
Achei estranha essa atitude da Djamila. Esse tipo de desentendimento não contribui em nada para a luta contra o racismo e preconceito.

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Lívia em 12/11/2020 - 15h01 comentou:

Gente, que coisa! Essa menina devia fazer sua militância com quem deve ser desmascarado de verdade! Olha esse governo fascista de extrema direita que estamos lidando e você aí atacando a Djamila porque ela fez propaganda pro 99 Taxi? Prioridades, né, por favor. Por que incomoda tanto ver mulheres pretas em espaços de poder? Esquerda cheirosinha é pior do que a extrema direita mesmo, cruzes.

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André em 12/11/2020 - 21h32 comentou:

Realmente existe uma questão com os mestiços, pois os brancos o consideram Negro, os negros o consideram brancos, alguns polícias ou segurança os consideram com cara de marginal, e muita vezes a própria pessoa não consegue definir onde se encaixa.

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Nei Silva do Nascimento em 12/11/2020 - 22h56 comentou:

Olá pessoal ! Discussão riquíssima e com comentários fantásticos. Aprendi muito.
Não somos todos iguais e nem pensamos sempre da mesma forma, mesmo dentro das nossas próprias famílias. Escolhemos objetivos e caminhos diferentes. Acertamos e erramos. O importante é o respeito e a transparência. Vamos dar a mãos e lutar por um país socialmente mais justo, o que certamente já estará ajudando e muito na questão racial. Um grande abraço e sigamos em frente, com equilíbrio e moderação !!!

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Dirceu Lima Junior em 13/11/2020 - 00h03 comentou:

A Dajmila , assim como Marcus Garvey e seus seguidores anacrônicos , não passa de uma Fascista, uma Idi Amim de saia , quer usar da sua posição e holofotes para diminuir outros pretos dando palco para racistas sambarem na nossa cara, pra mim ela não é nada , não acrescenta e não me representa, quem conhece Kabenguele Munanga ou Carlos Moore não precisa de Dajamila.

O Identitarismo é o Câncer que está corroendo as esquerdas , e no que se refere ao Movimento Negro , não é diferente, também já fui vítima desses porteiros de Wakanda, hipócritas que quando precisam de apoio contam com todos os pretos, mas diante da mídia acionam o NEGRÔMETRO , e quem dá suporte para ela? Outros pretos pseudo celebridades que usam o Youtube para lacrar, ganhar dinheiro , estar na TV, e quando vão viajar , correm para os EUA , jamais para a África , hipócritas demais.

Por essas e outras , como homem preto , Professor de História , abandonei os coletivos, os grupos de Facebook porque estão infestados de gente raivosa e arrogante que só é valente contra os outros pretos, diante da branquitude, afinam ! Hoje a minha caminhada na militância é solitária, porém produtiva em levar a Afro Educação aos meus alunos, deixo o palco para eles , lembrando que quando se fecham as cortinas, a realidade é outra, dura e cruel.

Enquanto ficam aí dicutindo quem tem mais melanina , a Lei 10.639 fica apenas no papel e o Sergio Camargo continua a destruir a Fundação Palmares , mas o que interessa para esse Intelectualidade Preta que se porta como Branca , é a mídia.

Dirceu Lima Jr.

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FERNANDA DIAS MACIEL SILVA em 13/11/2020 - 09h44 comentou:

Djamila em nenhum momento ataca essa moça, sequer cita o nome dela. Acho que essa no ela já deu. Quem fica botando fogo nisso com certeza é pior que os racistas. Cada mulher preta, negra tem suas ideais, defende um lado. O que não pode é ser influenciado por brancos.

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Lenara em 14/11/2020 - 11h43 comentou:

Letícia, acredito q cabe processo, não só de racismo, mas de danos morais. Seria interessante tb.

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Paula Azeviche em 15/11/2020 - 19h45 comentou:

O colorismo é um universo misterioso. Nunca irão entender o significado de estar no lugar de uma outra pessoa com a pele preta e o cabelo crespo. Nunca. A Djamila não perde o deboche e não queria dar o Ibope citando o nome, mas neste quesito foi infeliz. Ou entra no debate ou finge que não existe. O racismo é mola mestra do capitalismo, sabemos. Sem o capitalismo ainda existiria o racismo? De certo! O racismo é máquina de moer pretos. Pretos, visivelmente pretos, reconhecidamente pretos. Entre eu ou você, Rosa, eu rodaria primeiro. Pense nisso. Não basta se dizer negra pra ser.

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Aline Conceição em 18/11/2020 - 00h29 comentou:

Cara, quem criou esse sistema foi a sociedade racista e não a Djamila. Ela só está expondo a forma como a sociedade brasileira está estruturada. Ou seremos ingênuos demais para acreditar que todxs xs pretxs estão sujeitos a vivenciarem as mesmas opressões, pois afinal somos todxs pretxs?! A sociedade, quando lhe é conveniente, dá mais acesso aos pretxs vistos como ‘morenos’, ‘pardos’ (e toda essa nomenclatura que eles utilizam para mutilar nossa identidade) relegando xs pretxs (de tez mais escura) à invisibilidade, exceto quando se trata da questão criminal.
Sabemos que essa empreitada obteve sucesso, do contrário essa discussão nem existiria.

Poderíamos canalizar nossas forças para derrubar esse sistema que nos quer de joelhos. Mas, ao invés disso, estamos semeando a discórdia entre os próprios irmãos.

Que os múltiplos significados de ser pretx não impeça nossa união!

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Andressa em 23/11/2020 - 07h19 comentou:

É isso o que acontece quando nos concentramos em contendas entre nós: brancos/as jogam gasolina na fogueira. Todo mundo lembra da discussão entre a Djamila e a Cynara Menezes há uns anos. Ela está achando é pouco e esse post prova. Didática a situação.

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