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Lucas defende conversar com Karol Conká para seguir “lutando juntos”

Em vez de ódio pelos que o atacaram, isolaram e humilharam, o menino disse que quer conversar, conversar e conversar com eles

Carmen Silva, Preta Ferreira, Lucas e Erica Malunguinho. Foto: divulgação
Laura Capriglione
09 de fevereiro de 2021, 15h54

O menino estava feliz de novo. Estava eufórico, na verdade. O Lucas Koka Penteado que encontramos nesta segunda-feira, 8 de fevereiro, no prédio do Bixiga, em São Paulo, já não era o cara brutalizado pelo show de sadismo que se chama Big Brother Brasil. Era o revolucionário risonho que desempenhou um papel fundamental na luta contra o fechamento de escolas públicas que o governo tucano quis promover em 2015.

“Pra nós, a Revolução sempre foi festa”, disse, ao encontrar a deputada Erica Malunguinho (PSOL), Pai Tuca e as lideranças do movimento de moradia Carmen Silva e Preta Ferreira, que lhe foram levar afeto, solidariedade e um ramalhete de rosas e cravos brancos.

Essa tal revolução festeira de que Lucas fala está longe de ser retórica. É assim que os movimentos sociais chamam as ações diretas. “Festa” é o encontro que surge entre pobres sem-teto que participam da ocupação de um prédio abandonado. Ou a ocupação de escolas por estudantes secundaristas. Revolução-festa é a luta para garantir os direitos negados ao povo pobre e negro.

Carmen Silva conhece Lucas desde pequenininho, na Escola de Samba Vai-Vai, que fica a poucos quarteirões das casas dele e dela. A Vai-Vai negra é o tum-tum cardíaco do bairro do Bixiga, um antigo quilombo, que inclui também a Ocupação 9 de Julho, liderada pelo Movimento Sem-Teto do Centro, de que Carmen é a cabeça. Foi nesse território de reconhecimentos que aconteceu o encontro entre eles. Quando Lucas estava nos “corres” com outros secundaristas (aqueles que o Nego Di chamou de “vagabundos”), Carmen aconselhava, cuidava, alimentava e abrigava. O menino fez questão de dizer a ela da sua gratidão.

O abraço emocionado se impôs, apesar da pandemia, sob os olhares atentos dos pais de Lucas, a professora Andrea e o açougueiro Janderson Penteado.

A deputada Erica Malunguinho tomou a iniciativa de comprar flores brancas para presentear Lucas. Um presente de paz e pureza. “Tropeços fazem parte da vida”, disse ela com doçura. “Saiba que tem muita gente do seu lado. Somos todos Zumbis”. Lucas completou: “Sim, somos Dandaras, Terezas de Benguela, Carmens, Pretas, Ericas!”

A experiência atroz do confinamento e da perda de liberdade constituiu-se no ponto central do diálogo entre a atriz, compositora e cantora Preta Ferreira e Lucas. Preta presenteou o menino com o livro Minha Carne (Editora Boitempo), que ela escreveu, sobre período de 102 dias que ficou presa injustamente, em 2019. Impossível não relacionar os abusos cometidos no confinamento do BBB com aqueles da prisão injusta: são os mesmos corpos negros que são sempre segregados, violentados, contidos, ameaçados.

Os agentes da opressão sobre Lucas foram pessoas negras, sob o olhar atento do Big Brother (a própria Globo), que vendia sanduíches do McDonald’s e roupas da C&A enquanto comemorava os altos índices de audiência que o linchamento do menino propiciava…

Terrível é que os agentes da opressão sobre Lucas, neste caso, foram pessoas negras, sob o olhar atento do Big Brother (a própria Globo), que vendia sanduíches do McDonald’s e roupas da C&A enquanto comemorava os altos índices de audiência que o linchamento do menino propiciava… E então, aconteceu a fala mais bela, vinda exatamente do cara que foi tratado como um animal pelos participantes do show de horrores chamado BBB.

Em vez de ódio pelos que o atacaram, isolaram e humilharam, como Karol Conká, Lumena, Projota e Nego Di, o menino para o qual a Revolução é Festa disse que quer conversar, conversar e conversar com eles. Porque é fácil demais ficar com ódio e ele não quer essa facilidade. Prefere conversar, se entender. Desde já, ele abre a conversa assim: “Eu admito que errei. O fato de a Karol Conká ter-se sentido invadida pela minha presença é a maior prova de meu erro. Podemos reparar tudo isso e, assim, seguir lutando juntos”.

Parece um bom começo!


(2) comentários Escrever comentário

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brunno em 11/02/2021 - 00h47 comentou:

O cara que atacou uma mulher só porque ela deu um fora nele, e a chamou de Hitler (ainda comparando este com Stalin e Che Guevara), agora é o queridinho de todos. Aliás, como passou a ser tratado pela mídia, o tal homem virou “menino”. Homem, branco ou negro, tem muito privilégio mesmo. O comportamento dele foi horrível e ninguém falou mais nada. Mulheres só se dão mal mesmo, principalmente quando estas ignoram os homens: Estes pegam vídeos pornográficos, onde não aparece o rosto da mulher e, no início do vídeo, na thumbnail, eles colocam a foto da mulher, seguido de um xingamento no título ao estilo “fulana de tal lugar caiu na net.” Com uma sororidade assim, quem precisa de feminismo?

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brunno em 11/02/2021 - 00h58 comentou:

Ah, é, esqueci que a mulher é branca. Isso deve entrar na lista de “coisas que um homem negro pode fazer de ruim para uma mulher.” Essas fotos, inclusive, lembram o que as assessorias fazem para limpar a barra de alguém: foi rude com uma mulher? Apareça abraçando várias, mostre que elas gostam de você.
Ah, sim, ele não comparou Hitler com Guevara, mas sim com Fidel Castro. O mais engraçado é como atacaram a Kerline e nem se tocaram que a mulher estava nas cordas ao ser pressionada por outras participantes (de novo, cadê a sororidade?) e com um puta medo de ser taxada como racista. O que nem adiantou, foi taxada como racista pelas mesmas mulheres que hoje a internet diz que são vilãs.

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